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Gazeta de Ribeirão online

Anunciar romances: comércio e leitura no séc. 19

Publicado em 18 julho 2010

Rosemary Conceição dos Santos

Projeto apoiado pela Fapesp levantou importantes informações em anúncios publicitários de três jornais do século 19: o "Correio Braziliense" (Londres) e os cariocas "Gazeta do Rio de Janeiro" e "Jornal do Commercio". De acordo com a pesquisa, na ausência de seções de crítica literária nos mesmos, os anúncios de romances, pagos por livreiros, permitiram verificar a penetração dessas obras junto aos leitores. "A autoria não era valorizada e muitos anúncios nem traziam o nome do escritor. No lugar, estampavam comentários morais e outras características sobre o livro".

A prática da moralização pela leitura, induzindo tais anunciantes a ressaltar que "a história apresentava personagens virtuosas e punia os vícios", era tentativa de induzir "o aprendizado pela leitura". Frase frequente nos anúncios, livro "adequado para moças", revelava a preocupação em mostrar que aquele título não seria "perigoso" para as mulheres da época, ou seja, não lhes despertaria a prática de comportamentos inadequados, ao mesmo tempo em que lhes dissuadiria a idealização de "casar por amor", frequentemente proposta nestes romances "impróprios". O romance proibido colocava em risco a autoridade paterna, uma vez que as uniões, na época, eram negociadas pelo pai. Com isso, os livros considerados "bons" eram os que moralizavam e puniam, difundindo a idéia de que "aprender e se entreter pela leitura" eram práticas que podiam caminhar juntas.

A pesquisa também revelou quais eram as características físicas dos livros anunciados nos jornais do século 19, uma vez que, estes aspectos, uma vez esclarecidos, ajudavam a valorizar a obra, bem como, justificar o seu preço. "Quanto mais imagens tivesse um livro, por exemplo, mais caro ele seria...o preço médio de um romance, na época, equivalia ao valor de uma calça de brim". Em sua maioria franceses, seguidos por romances portugueses, ingleses, espanhóis e alemães, quando estrangeiros eram "traduzidos em Portugal", chegando "ao Brasil pelo Rio de Janeiro". "Entre os títulos mais recorrentes, anunciados nos jornais analisados, três se destacaram. Eram, "Aventuras de Telêmaco", "Paulo e Virginia" e "Aventuras de Gil Blas".

Ainda de acordo com a pesquisa, uma vez que, "na primeira metade do século 19, eles não estavam restritos às livrarias... os mesmos poderiam ser encontrados em lojas de armarinhos, em vendas particulares nas residências ou mesmo em leilões. A Impressão Régia e a Gazeta do Rio de Janeiro tinham lojas próprias para vender periódicos e livros. Havia ainda o comércio de obras usadas, dirigido pelos alfarrabistas". Este anúncios "garantiram parte do sucesso de público conquistado pelo gênero...contribuindo para a consolidação do gosto pelos romances, muito mais associado a um produto comercial, assim como, nos dias de hoje, ocorre com o cinema".

(Rosemary Conceição dos Santos é pós-doutora em cognição, leitura e literatura).