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Correio Popular (Campinas, SP) online

Antropólogo analisa astro Humphrey Bogart

Publicado em 22 dezembro 2015

Por João Nunes

O campineiro Luís Felipe Sobral defendeu tese de doutorado em antropologia social na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) da qual resultou o livro Bogart Duplo de Bogart - Pistas da Persona Cinematográfica de Humphrey Bogart, 1941-1946 (Terceiro Nome/Fapesp, 148 páginas, 28,00). Na introdução, Heloísa Buarque de Almeida diz que Felipe tem “um texto delicioso”. É verdade, mas a leitura é prazerosa porque foge da gramática acadêmica e da capacidade desta de tornar incompreensíveis os conceitos mais simples — em tudo diferente do livro, em que pese ter cumprido as obrigações estilísticas próprias desse tipo de literatura. Leia a entrevista que o autor concedeu ao Caderno C.

Caderno C — Você conclui o livro com depoimento pessoal. Está nele a razão do interesse por Bogart?

Luís Felipe Sobral — O depoimento foi demanda da orientadora, Heloisa Pontes, não como conclusão, mas de arremate. Assinalei o vínculo entre minha experiência cinéfila e a trajetória de pesquisa. Não teria sido capaz de identificar a noção de persona cinematográfica como problema antropológico, se não tivesse repertório de filmes que me permitisse escolher a trajetória de Bogart como caso conveniente para pesquisa. A persona de Bogart emerge em cinco anos, entre 1941 e 1946, e caracteriza-se por indiferença aparentemente inexpugnável que revela vulnerabilidade diante de personagens femininas. Meu repertório de filmes remetia à minha trajetória: lembranças demarcadas pelos filmes hollywoodianos aos quais assisti. Não posso reconstruir por completo a experiência social de Bogart, mas posso discutir um aspecto central: a persona cinematográfica. O final um tanto abrupto anuncia discussão que não se desenvolve dando impressão que o ensaio agoniza, mas não redigiria o livro de outro modo. O ensaio não prova uma tese, mas explora sinuosamente uma hipótese — que era meu objetivo.

E de onde vem o interesse pelo duplo?

Primeiro, trata-se de problema antropológico clássico discutido por Marcel Mauss (antropólogo francês, 1872-1950): a ideia de que a noção de pessoa como ser psicológico com direitos morais é produto de processo de longuíssima duração. Em Hollywood, essa unidade psicológica (a pessoa) continua existindo ao se considerar estritamente os artistas. No entanto, quando se discute a persona, ela não faz mais sentido porque se lida com a imagem que se vincula a uma pessoa, mas que, sendo produto do trabalho coletivo, não lhe corresponde inteiramente. Segundo, trata-se de articulação entre os produtores e os consumidores de imagens. A persona era criada pelos estúdios, mas dependia da aprovação do público: a persona é a reiteração de certas características associadas a um intérprete ao longo de diversos personagens.

Quando Bogart se torna a persona Bogart?

Primeiro, o delineamento da persona através da figura do detetive; em seguida, a transformação diante das constrições impostas pela guerra; finalmente, a formação do casal, heterossexual e branco, com Lauren Bacall. Depois, há ainda duas etapas que o livro aponta, mas não discute. A primeira consiste no período final de Bogart (1947 a 1957), quando ele morreu. Ele ganha mais autonomia do estúdio, mas permanece preso à persona, pois era esta que o público queria ver na tela. A segunda etapa pode ser denominada “pós-vida”, na qual a persona foi apropriada por outrem, ultrapassa o âmbito hollywoodiano e alcança a França.

Quais os mecanismos usados para a construção dessa persona?

Os cinco grandes (Warner, Fox, Paramount, MGM, Universal) consistiam estrutura integrada de produção que controlava o processo, da redação do roteiro à exibição, e o mercado através de um truste; a autonomia do artista era mínima. Para os atores, a possibilidade de aumentar autonomia residia na produção da persona; pois significava apelo entre o público, e, portanto, dinheiro. A persona de Bogart é impensável apartada dos filmes de gângster, a partir dos quais ele soube realizar transição eficaz aos filmes de detetive. Depois, definiu-se pela parceria com Lauren Bacall, que se apropriou da persona dele, tornando-a mais insolente do que ele a fizera. O mecanismo central de construção da persona consistiu, portanto, na relação de gênero, isto é, entre masculinidade e feminilidade, que se estabelece no diálogo entre Bogart e suas interlocutoras.

É possível detectar traços de “pessoa comum” em Bogart?

Quando a persona se estabelece, sobrepõe-se à pessoa do artista. Imagine-se encontrar Bogart numa atividade prosaica como comprar pães; como pessoa seria um desconhecido; mas a presença física remeteria à persona e aos filmes. Toda atividade da pessoa é inseparável da persona, pois não se pode conhecer diretamente a primeira sem a mediação da segunda. Algumas atividades, como o apoio de Bogart a Roosevelt, dependem inclusive da persona: a força como cidadão alimentava-se da própria persona, o que não deixa, é claro, de ser uma grande contradição ao se levar em conta o ideal igualitário da democracia.