Notícia

Correio do Estado (Campo Grande, MS)

Ano da Biodiversidade

Publicado em 10 janeiro 2010

A ocupação desordenada de áreas naturais, a exploração predatória de recursos da natureza e a poluição são algumas ações humanas que têm trazido sérias consequências, levando o planeta a perder cada vez mais espécies animais e vegetais.

Para chamar a atenção ao problema, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2010 o Ano Internacional da Biodiversidade.

De acordo com levantamentos da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD), órgão da ONU que trata do problema, a taxa de perda de espécies chega a cem vezes à da extinção natural e vem crescendo exponencialmente.

Pensando em pelo menos diminuir esse ritmo, em 2002 a Conferência das Partes (COP) da CBD propôs uma série de metas a ser alcançadas até 2010 e obteve o comprometimento de vários países.

Nos moldes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP15), que em dezembro, em Copenhague, na Dinamarca, fez um balanço dos compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto, a COP da biodiversidade tem um encontro marcado para outubro deste ano, na cidade japonesa de Nagoya, a fim de avaliar os resultados das ações assumidas em 2002 para preservar a biodiversidade.

Como a reunião de Copenhague, a de Nagoya deverá ser igualmente frustrante. É o que pensa Berlinck, para quem a natureza tem dado sinais de que o problema continua crescendo. "A morte de recifes de corais no mundo todo e o desaparecimento das abelhas na América do Norte são apenas duas das consequências da destruição de áreas nativas", disse.

Carlos Alfredo Joly, coordenador-geral do Biota-FAPESP e professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas, concorda com o pessimismo. "Precisamos este ano estipular metas mais confiáveis e usar indicadores mais mensuráveis" disse, ressaltando que considera os indicadores escolhidos em 2002 um dos pontos fracos do acordo.

Natureza desconhecida - Joly também chama a atenção para a importância das pesquisas de levantamento de dados como as feitas no Biota-Fapesp, que visam à caracterização, conservação e ao uso sustentável da biodiversidade. "Como saber quantas espécies desapareceram se ainda estamos fazendo os inventários?" disse.

Em dez anos, os pesquisadores do Biota-Fapesp, que têm como foco o Estado de São Paulo, catalogaram cerca de 2 mil novas espécies. Mas, para Joly, é fundamental que programas como esse sejam implantados em outras regiões do Brasil

"Não sabemos quase nada sobre o Brasil, a última lista oficial da flora brasileira é de 1908. Há somente levantamentos regionais", disse. Joly destaca a necessidade de que sejam conduzidos inventários como o das plantas que produzem flores (fanerógamas) na flora paulista, que conta com o apoio da Fapesp e teve o seu sexto volume (lançado recentemente).

Justamente por ignorar os números exatos, Joly calcula que as estimativas da CBD sobre o desaparecimento de espécies estejam subestimadas. Atualmente, o órgão faz projeções a partir do desaparecimento de habitats. Para cada unidade de área degradada, estima-se um determinado decréscimo das espécies que nela habitavam No entanto, sem um levantamento taxonómico adequado não há como saber com exatidão o tamanho das perdas da biodiversidade. Muitas espécies desaparecem sem ao menos serem conhecidas.

Diversidade genética

A sobrevivência das espécies também passa pela diversidade genética, a qual deve ser considerada nos projetos de conservação, segundo os coordenadores do Biota-Fapesp. Indivíduos de uma mesma espécie que possuem pouca variação genética podem ser suscetíveis às mesmas doenças e acabar rapidamente dizimados.

"O mesmo ocorre quando vamos fazer um reflorestamento. Se não considerarmos as diversidades genéticas e não reintroduzirmos todas as espécies envolvidas, a floresta pode morrer depois de uma década por doença ou mesmo pela ausência de um animal polinizador", explicou Joly.

Para trabalhar também com a diversidade dos genes, o Programa Biota-Fapesp deverá aumentar o uso de ferramentas de biologia molecular. "Os felinos selvagens que hoje habitam canaviais e fazendas são geneticamente iguais aos seus ancestrais que viviam nas matas nativas de São Paulo?" questiona Joly. Segundo ele, responder a essa pergunta ajudará a preservar esses animais, o que ressalta a importância da biologia molecular para a biodiversidade.

Berlinck aponta que desconhecer a natureza pode custalf caro. "O deslizamento de encostas neste início de ano é uma consequência do desconhecimento do que pode e do que não pode ser feito com a natureza", disse.

Segundo ele, preservar as diversas espécies é uma forma de manter e de garantir qualidade de vida também para as gerações futuras. "No entanto, é preciso que populações e governos conheçam o decréscimo crônico da biodiversidade e tomem iniciativas", disse. É isso que a ONU e os cientistas esperam de 2010.

Biota-Fapesp em 2010

No Ano Internacional da Biodiversidade, o Biota-Fapesp estará envolvido de diversas outras formas, tanto no Brasil como no exterior. No dia 14 de janeiro, Joly representará o programa no evento nos 350 anos da Royai Society Britânica, no Reino Unido. Na celebração, o professor da Unicamp participará como debate-dor em discussões sobre biodiversidade e no espaço reservado para pôsteres.

No período de 22 a 25 de fevereiro, o Biota-Fapesp participará da reunião do Earth Observations Bio-diversity Observation Network (Geo Bon), nos Estados Unidos.

No mesmo mês, nos dias 25 e 26, o programa realizará, na sede da Fapesp, em São Paulo, o Workshop International on Metabolomics in the Context of Systems Biology: A Rational Approach to Search for Lead Molecules from Nature.