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Anjos inovadores

Publicado em 01 janeiro 2007

Por Flávio Viégas, de Belo Horizonte

Embora ainda em número reduzido, já existem no País pessoas físicas e jurídicas que investem em empresas de base tecnológica inovadoras

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia o segundo mandato com o desejo explícito de que a partir deste ano o PIB cresça a uma taxa de pelo menos 5% ao ano. É uma meta possível, mas para alcançá-la é imprescindível promover investimentos, realizar as reformas tributária e fiscal e manter a inflação sob controle, reduzir a taxa de juros (Selic). Enfim, é preciso criar condições que estimulem investimentos no setor produtivo.
Apesar das dúvidas e apreensões dos brasileiros em relação ao crescimento do País, existem meios para promover a expansão da economia que, há décadas, apresentam resultados expressivos em outros países, particularmente nos Estados Unidos, onde a fórmula já faz parte da cultura de investidores, pesquisadores e empreendedores. Trata-se dos investimentos dos chamados angel capitalists (anjos capitalistas, ou pessoas físicas que financiam projetos acadêmicos e/ou empresas nascentes inovadoras) e dos fundos de private equity e venture capital (PE/VC) — que aplicam os recursos em pequenas e médias empresas em fase de expansão.
Também conhecidos por capital empreendedor, os aportes dos angel capitalist e dos fundos de PE/VC chegaram ao Brasil no início da década de 1980 e agora mostram sinais de crescimento. "O setor é fundamental para o fomento da inovação no Brasil e no mundo. A inovação se beneficia da aliança com o capital empreendedor não só do ponto de vista de fluxos financeiros, mas da conjunção das experiências em negócios e acadêmica, do alinhamento das questões econômico-financeiras e tecnológicas.
A conseqüência é um foco mais sintonizado com o mercado", diz Marcus Regueira, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP).

Invenção americana
Os fundos de PE/VC surgiram nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial e contribuíram para incrementar a economia americana. Nos países de economia estável, os "investidores-anjo" e os fundos de PE/VC constituem-se em importante fonte privada para financiar o desenvolvimento de projetos de pesquisas nas universidades e alavancar empresas inovadoras que ainda não dispõem de recursos. Desse modelo de parceria nasceram a Intel, a HP, o Google e o YouTube, por exemplo.
O crescimento significativo do setor, a partir de 2000, rendeu um estudo detalhado, cujos resultados estão no livro A Indústria de Private Equity e Venture Capital — Primeiro Censo Brasileiro, publicado pela Editora Saraiva. O levantamento, coordenado por Antônio Gledson de Carvalho, Leonardo de Lima Ribeiro e Cláudio Vilar Furtado, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, indica que, em dezembro de 2004, havia no País 71 empresas gestoras de fundos de PE/VC, que respondiam por US$ 5,58 bilhões em recursos aplicados em 97 fundos. Em 1999, o capital comprometido era de US$ 3,71 bilhões.
Entre 1999 e 2004, mostra o estudo, esse setor incipiente contabilizou investimentos da ordem de US$ 440 milhões por ano e encerrou o período com o portfólio de 306 empresas investidas. Dessas, apenas 36 (11,8%) receberam o primeiro aporte em forma de capital semente (seed capital), enquanto 74 empresas (24,2%) já estavam na fase de desenvolvimento e consolidação do negócio.
Na avaliação do físico e pesquisador Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o governo deve criar as condições para estimular o investimento da iniciativa privada em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e, dessa forma, transformar ciência em tecnologia para tornar as empresas brasileiras competitivas com produtos de maior valor agregado e gerar riqueza.
Segundo Brito Cruz, alguns investidores estrangeiros interessados em aplicar no Brasil têm procurado a Fapesp por causa do Pipe (Programa Inovação em Pequenas Empresas). O Pipe apóia pequenas empresas com recursos de até R$ 500 mil para desenvolver processos, produtos ou serviços inovadores por meio de pesquisa científica e tecnológica."
O diretor da Fapesp salienta que no Brasil há poucos investidores dispostos a apostar em empresas nascentes baseadas em conhecimento, cuja riqueza é a geração de propriedade intelectual.
"Os fundos de venture capital, que nos Estados Unidos têm um papel muito importante com investimentos em empresas nascentes baseadas em conhecimento, no Brasil quase não existem.
Aqui, alguns fundos de capital de risco investem em empresas que usam tecnologia, mas isso é bem diferente de investir em empresas que criam tecnologia."
Para reverter essa realidade, em 2005 a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), criou o programa Inovar Semente, cujo objetivo é investir R$ 300 milhões em empresas nascentes de base tecnológica.
No prazo de seis anos, a instituição pretende apoiar 340 empreendimentos inovadores na fase pré-operacional, muitas vezes ainda dentro de incubadoras e universidades, com financiamento que vão de R$ 500 mil e R$ 1 milhão. Os recursos serão dirigidos a ações como a construção de protótipos e/ou a contratação de executivos. Para viabilizar o Inovar Semente, a Finep participa com 40% dos recursos, bancos de desenvolvimento estaduais entram com 40%, e os 20% restantes são provenientes de investidores privados, institucionais e pessoas físicas — o "investidor-anjo". A Finep também participa de fundos de venture capital destinados às empresas inovadoras em expansão.
"O capital semente e os recursos das agências de fomento são essenciais para as empresas que têm projetos inovadores, mas não têm acesso a financiamentos no sistema bancário convencional", observa o engenheiro eletricista Erik Cavalcante, um dos idealizadores da ComunIP — empresa de Belo Horizonte que desenvolve soluções para comunicação baseadas na tecnologia VoIP. Além do investimento, as empresas nascentes também carecem de gestão profissional para viabilizar o negócio e aproximá-las do mercado. Fundada em 2001, a ComunIP recebeu aporte gerencial do Instituto Inovação e investimentos da Finep e do Fundo Novarum de Capital Semente — que possibilitaram a contratação de um profissional para se dedicar à sua gestão.
Em 2005, o administrador Ronaldo Barreto assumiu o posto de CEO, com o desafio de inserir a pequena empresa no competitivo segmento de TI. "Aceitei o convite e em pouco tempo me tornei sócio da empresa".
A experiência do executivo em grandes corporações como a IBM e a Diveo rendeu bons dividendos: um contrato com a Brasil Telecom para fornecimento de soluções baseadas na tecnologia VoIP.

Prêmio nos EUA
Com o suporte do Instituto Inovação e recursos das agências de fomento à pesquisa, o biólogo Álvaro Eduardo Eiras, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), criou o M.I. Dengue — um sistema inteligente de monitoramento e combate à dengue que utiliza três ferramentas: uma armadilha para capturar o mosquito transmissor, o Aedes aegypti; um atraente sintético usado na armadilha para atrair as fêmeas grávidas do mosquito, e os softwares que analisam a presença e a evolução do mosquito. "Para tirar da prateleira as tecnologias desenvolvidas pelo professor Eiras e viabilizar a produção e comercialização do sistema, tornou-se necessária a criação de uma empresa de base tecnológica.
Assim, criamos a Ecovec", conta o administrador Gustavo Junqueira, sócio do Instituto Inovação e responsável pela gestão da nascente Ecovec, que em novembro recebeu o prêmio Tech Museum Award 2006 na área de saúde, em San Jose, na Califórnia (EUA).
Já o engenheiro eletrônico Erich Muschellack, um dos fundadores da Procomp, decidiu manter-se na ativa após a venda da empresa à americana Diebold, em 1999. No final de 2002, ele criou a Idee Tecnologia, destinada a investir em empresas nascentes de base tecnológica. Os riscos são maiores que as aplicações em títulos, mas os ganhos, no longo prazo, são melhores. O empresário recebe, em média, três propostas por mês.
"Avalio primeiro o aspecto inovador do projeto ou produto. Em seguida, se existe mercado para o produto e a competência técnica e gerencial dos empreendedores. A auditoria (due diligence) é realizada por escritório especializado", explica.
Até o momento, ele aportou recursos em quatro projetos, dos quais apenas um já está com produto no mercado — a Celplay, empresa de aplicação de telefonia celular e jogos para o público infantil. "Esperamos encerrar 2007 no azul", comenta o "anjo" Muschellack. Na NovoCell — empresa de soluções de energia usando o hidrogênio instalada em Americana (SP) —, além do apoio financeiro da Idee Tecnologia, o conhecimento do "anjo-empresário" foi decisivo para viabilizar o negócio. "Sem o investimento e a experiência de Muschellack não conseguiria implantar o projeto", diz o engenheiro químico Valdemar Stelita Ferreira, fundador da empresa. "Os técnicos da Finep sugeriram que o melhor caminho seria buscar a parceria com um sócio capitalista", conta ele.
Por enquanto a empresa não tem faturamento, mas os sócios pretendem contabilizar os primeiros resultados até julho. O grande mercado é o segmento de transporte, mas a célula tem aplicações industriais. "A célula a combustível é uma alternativa aos combustíveis de fontes não renováveis, como o petróleo e o gás, com a vantagem de não poluir", explica Ferreira.

No estado do Rio
O empresário e ex-presidente da Petrobrás Ernesto Teixeira Weber também decidiu atuar como "anjo".
A idéia surgiu durante um encontro na PUC-RJ com professores e amigos dos tempos de universidade. Pesquisou sobre o assunto e, com alguns colegas, criou a Gávea Angels. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos que reúne pessoas físicas e jurídicas, cujo objetivo é investir em empresas nascentes instaladas no Rio de Janeiro num raio de 200 km a partir do centro da capital. "As propostas são avaliadas pelos associados, mas os investimentos são realizados individualmente", explica Weber, que é o presidente do Conselho Diretor da entidade. Ele também aplica os conhecimentos e experiência gerencial adquiridos na Petrobras, onde trabalhou por 20 anos, e na Editora Publit, voltada para impressões em pequenas escalas.
Também com apoio de um "anjo" — no caso, o empresário Guilherme Emrich — nasceram, nos laboratórios da UFMG, a Miner Technology Group — comprada pelo UOL em junho de 1999 — e a Akwan Information Technologies, vendida ao Google em julho de 2005. "O investimento de Emrich e da Fir Capital foi decisivo para alavancar os dois projetos", diz o pesquisador Nívio Ziviani, que participou da criação das duas empresas.
Embora crescente, a indústria de PE / VC no Brasil ainda tem um longo caminho até chegar aos patamares de países como Suécia, Israel, Grã-Bretanha, Coréia do Sul e Estados Unidos, onde os investimentos no setor superam 1% do PIB, observa Leonardo de Lima Ribeiro, pesquisador do Centro de Estudos em PE/VC da FGV (Gvcepe). "No Brasil, o percentual é inferior a 0,1% do PIB. Para desenvolver o mercado em geral, e o mercado de private equity e venture capital em particular, o País precisa melhorar seu ambiente econômico e institucional", observa.
Medidas têm sido tomadas, como as mudanças legais (Parcerias Público-Privadas — PPPs —, Lei da Inovação, Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, Lei de Falências e Lei das S.A.) e o desenvolvimento de regras diferenciadas de governança corporativa na Bolsa de Valores. "Entretanto, o País ainda tem muito a melhorar em termos de sistema tributário, eficiência do Judiciário, melhoria no sistema de patentes, redução de gastos públicos, etc.", assinala Ribeiro. E o principal: investir muito dinheiro, por um longo período, em educação.
Educação é fator preponderante para o país que pretende alcançar elevado grau de desenvolvimento e inovação tecnológica, afirma.

Foto: Eduardo Cesar — Divulgação FAPESP
Legenda: Para Brito Cruz, da FAPESP, governo deve incentivar investimento da iniciativa privada em pesquisa e desenvolvimento

Foto: Divulgação Google
Legenda: Sergey Brin e Larry Page, os criadores do Google, exemplo de empresa criada graças à parceria com "anjos" e fundos de PE/VC freqüente no exterior

Foto: Pedro Nicoli — Divulgação
Legenda: Erik Cavalcante, Fabio Lacerda e Guilherme Balena, criadores da ComunIP: financiamento para contratação de CEO

Foto: Divulgação
Legenda: Estudo da FGV indicou a existência de 71 empresas gestoras de fundos de PE/VC com US$ 5,58 bilhões aplicados em 97 fundos

Foto: Pedro Nicoli — Divulgação
Legenda: Eiras, da UFMG: pesquisa ferou empresa criada para combater a dengue

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