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Análise dos mecanismos operacionais para uma produção mais limpa nos engenhos da região do brejo paraibano

Publicado em 01 fevereiro 2012

Maria Marta Araújo Leal de Oliviera (Mestrado em Engenharia de Produção) Adriano David Monteiro de Barros (Esp. em Direito Administrativo e Gestão Pública) Lenita Villamarin Lessa (Mestrado em Engenharia de Produção) Luiz Bueno da Silva (Doutorado em Engenharia de Produção)

Resumo

O presente estudo aborda à análise dos mecanismos operacionais de uma produção ecoefiiente, num momento em que, mais do que nunca, íaz-se necessário á implantação de um modelo de desenvolvimento sustentável. Os avanços de pesquisas nessa área aliados ao desenvolvimento tecnológico, disponibilizam mecanismos que contribuem para que haja implantação de técnicas que aliem produtividade e conservação ambiental, proporcionando ganhos direto a economia e evitando o desperdício, como também, a depredação ambiental. A aplicação de técnicas de uma produção mais limpa supre as deficiências dos processos produtivos dos engenhos de cana-de-açúcar do Brejo Paraibano, proporcionando ganhos consideráveis, tanto na produtividade, quanto nas questões ambientais, haja vista que, as empresas ecologicamente corretas são competitivas nos mercados nacionais e internacionais. Por meio deste estudo, buscou-se realizar uma análise dos mecanismos operacionais de uma produção mais limpa no Brejo Paraibano. Para tanto, foi realizado um levantamento dos engenhos produtivos da região, cuja coleta de dados, se deu por meio de observação in loco, aplicação de questionário estruturado, junto aos administradores dos engenhos. Os dados coletados foram analisados com base nos indicadores de gestão ambiental, aproveitamento resíduos para se obter uma produção mais limpa. Conclui-se que, o setor produtivo de cachaça de alambique e da rapadura é caracterizado por pequenos produtores individuais com base familiar. Um dos principais fatos observados foi a precariedade com relação ao cumprimento às exigências da legislação ambiental, e aplicação de técnicas que proporcionem uma produção mais limpa. Observou-se, ainda, falta de qualidade e higiene nos processos produtivos, como também, investimentos em treinamento e tecnologia para que haja uma produção ecoeficiente.

1. Introdução

As indústrias de bens e serviços buscam cada vez mais excelência nos processos produtivos, tendo como relevância o desenvolvimento sustentável, indispensável para a saúde e bem-estar humano e manutenção da vida no planeta. Portanto, a preocupação com o meio ambiente passou a ser uma preocupação mundial, colocando como parâmetros de competitividade as questões ligadas á responsabilidade sócio-ambiental.

Segundo fontes do IDS (2008) - Instituto Desenvolvimento Sustentável, algumas medidas podem ser tomadas imediatamente pelas empresas que desejam se adequar às práticas sustentáveis, tais como: Implantar as técnicas de produção mais limpa, não desperdiçar água e energia elétrica, realizar coleta seletiva de lixo, reduzir geração de resíduo, utilizando o conceito dos 4 Rs (redução, reciclagem, reutilização e recuperação de materiais).

Para o IBPS (2008) Instituto Brasileiro de Produção Sustentável, os processos produtivos nas diversas áreas têm sido os grandes causadores dos impactos ambientais. O consumo exagerado de recursos naturais e as tecnologias usadas para transformar estes recursos interferem de forma violenta nos ecossistemas planetários, esgotando ou comprometendo as fontes naturais de matéria-prima, especialmente no que diz respeito à emissão de poluentes nos rios, no ar e no solo, atingindo de forma direta a vida do planeta, ocasionando o aquecimento global, a morte dos rios, o desflores tamento e o desaparecimento de várias espécies da flora e da fauna.

Com a evolução dos processos produtivos e a busca por alternativas de uma produção sustentável, principalmente, as que os resíduos impac-tam diretamente o meio ambiente, inclui-se aí o setor sucroalcooleiro, cuja atividade costuma ser responsabilizada, e muitas vezes com justa razão, pelo fenômeno de contaminação ambiental, graças á fatores de extrema importância, que é a ineficiência dos processos de conversão, o que, necessariamente, implica a geração de resíduos. Destaca-se, nesse ponto, o acúmulo de matérias-primas e insumos, que envolve sérios riscos de contaminação por transporte e disposição inadequada.

E nesse contexto que se insere a preocupação com a destinação dos resíduos gerados pela produção sucroalcooleira, principalmente nas pequenas e médias produções

2. As novas abordagens da produção sustentável

O modelo atual de desenvolvimento sócio-eco-nômico, influenciado pela globalização, pelo desenvolvimento tecnológico e pela expansão do conhecimento, exige das empresas uma adaptação contínua a um ambiente de constante evolução, para que possam sobreviver e manter a competitividade em mercados cada vez mais exigentes. Esse processo provoca a demanda por parte das empresas de criarem ambientes propícios à inovação que favoreçam a redução dos custos, o aumento da qualidade e, especialmente, o aumento da produtividade. Cada organização busca maneiras eficientes de produzir bens e serviços (SLA-CK ET AL, 2002).

Na busca por novas práticas de conservação ambiental, a função produção passou a ser vista como um processo de grandes impactos ambientais. No entanto, as organizações estão buscando investir em tecnologias que minimizem os impactos gerados pelos processos produtivos, adotando uma gestão orientada para o desenvolvimento sustentável. Isso significa repensar a empresa como um todo: o produto, a tecnologia, o processo de produção, os insumos, a cadeia de fornecedores, a logística de distribuição, os recursos humanos, a transparência com os clientes e com a comunidade - além de considerar os impactos na natureza. (WINKEL E GRACIANI, 2008). Entretanto, a responsabilidade ambiental nas organizações é predominantemente contemporânea.

Contudo, Winkel e Graciani (2008) relatam que empresas que adotaram a prática de desenvolvimento sustentável, não como ações impostas pelas leis ambientais, como ação reativa e sim, proativa, obtiveram aumento da produtividade e, consequentemente, a lucratividade. Portanto, é pertinente a prática da sustentabilidade nos processos produtivos.

Quadro 1 -Medidas que podem ser tomadas pelas empresas que desejam se adequar ás práticas sustentáveis

Para as empresas protagonistas históricas do uso de larga escala dos recursos naturais e da emissão de poluentes, adotar essa nova visão não é uma tarefa tão simples. Segundo o IDS (2008), uma pesquisa feita pelo Ibope Inteligência em 2007, com 537 executivos de 381 grandes empresas do Brasil , revelou que somente 46% deles identificavam em suas empresas políticas de sustentabilidade. Contudo, apenas 33% dos entrevistados percebiam que o tema estava devidamente incorporado no nível estratégico de suas organizações.

3. Desenvolvimento Sustentável no setor sucroalcooleiro

Atualmente, com a competição acirrada no mercado e com a globalização econômica, principalmente no setor sucroalcooleiro, onde as indústrias se viram obrigadas a se modernizarem para se manterem adequadas ás exigências do mercado, acarretaram mudanças que ocorrem não só no aspecto material, mas também tecnológico, proporcionando á atividade uma produção sustentável, gerando aumento da competitividade e, consequentemente, a lucratividade.

Segundo a Queensland (2002), Desenvolvimento Sustentável é: "O desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem suas próprias necessidades."

O desenvolvimento sustentável engloba: mudança de paradigma diminui pressão sobre os recursos naturais, gera menos impactos na atividades econômicas, aposta na continuidade das atividades, assegura a qualidade de vida para as gerações futuras. Essas mudanças iniciam-se no ciclo de vida do produto, desde o projeto até a destinação final, como mostra o quadro a seguir, cuja evidência está voltada para o produto verde, com o aumento do ciclo de vida.

Portanto, para identificar os impactos ambientais de um produto do berço ao berço, têm-se sido produzidas inúmeras ferramentas de gestão ambiental, tais como auditoria ambiental e sistemas de gestão ambiental. Essas ferramentas, em sua maioria, começaram como iniciativas voluntárias dentro das companhias, mas agora afetam as políticas e regulamentações governamentais.

4. Metodologia da pesquisa

Quanto aos fins, o presente estudo caracterizou-se como exploratório e descritivo. Seu cunho exploratório justifica-se, segundo Vergara (2007, p. 45), porque "a pesquisa é exploratória quando realizada em área onde há pouco conhecimento acumulado e sistematizado". E o caso dos mecanismos operacionais de uma produção mais limpa nos engenhos do Brejo Paraibano, cujo tema abordado é pouco estudado, existindo uma lacuna de conhecimento na área proposta da pesquisa. Por falta de dados documentais, a pesquisa foi realizada com observação in loco, onde foram coletados dados primários com aplicação de questionários junto aos engenhos.

5 . Análise dos dados

Nesta fase de análise, tratou-se da gestão ambiental da produção, por meio da avaliação das práticas de uma produção mais limpa. Já que Para a identificação de uma estratégia de gestão ambiental adequada, uma visão sistêmica da organização e de suas necessidades deve ser considerada para auxílio na tomada de decisão, deve-se também, analisar as estratégias de acordo com a realidade do setor produtivo, das exigências de mercado e legais e dos estudos de casos sobre empresas similares (ROVERE, 2001)

Quanto ao conhecimento de uma produção mais limpa, observados na Tabela 1, constatou-se que 87,5%, sabe o significado de uma produção mais limpa e 12,5% responderam que não conhecem o significado de tal prática, conforme a tabela a seguir. Quanto à prática de conservação do meio ambiente 93,8% responderam que sim e 6,3 % responderam que não há prática de conservação do meio ambiente, ressaltando o fato de que uma expressiva maioria demonstra preocupação e envolvimento com as práticas de gestão ambiental, evidenciado na tabela 1.

Quando se trata do aproveitamento e destino do bagaço, observado no Gráfico 3 tem-se os seguintes dados: 6,3% dos engenhos o vende, 31,3% os reutiliza na produção, 18,8% realiza queima nas caldeiras, 6,3% vende e faz queima nas caldeiras e 25% vende e utiliza na produção e 12,5% faz queima e reutiliza na produção.

Como é possível perceber, o bagaço é um resíduo que pode ser utilizado de diversas formas e todos foram unânimes ao afirmar que o bagaço é um resíduo totalmente aproveitável, tanto na produção, como na venda, pois serve como ração animal, adubo e energia para as caldeiras. (FAPESP,2008)

Quanto ao tratamento da vinhaça, observado no Gráfico 4, 43,8% revelaram que reaproveitam a vinhaça, 18,8% responderam que a jogam no solo, e 37,5 % revelaram que jogam no solo e também reaproveitam. Todos os questionários foram validados nessa variável. Quando se fala em jogar no solo, a vinhaça é colocada em uma barragem própria para o seu armazenamento. Essa análise revelou que a vinhaça é um resíduo que é reaproveitado na produção, especialmente como adubo. Entretanto, quando não há o reaproveitamento, ela gera impactos ambientais significativos, pois a infiltração no solo, especialmente, no lençol freático, causa malefícios ao meio ambiente.

Acerca da prática de queimadas, 6,3% não responderam, 6,3% admitiram fazer uso de queimadas e 87% afirmaram não adotar tal prática. Percebe-se que as queimadas ainda são uma pratica entre os produtores, mesmo que em proporções menores dentro do grupo de engenhos investigado, como é possível perceber no gráfico 5. Já à destinação da água da produção, foi detectado que 75% a reutiliza e 25% a descarta, mostrando que ainda há falta de conhecimento da importância da reutilização da água da produção, conforme ilustrado no Gráfico 6. Um dos indicadores de uma produção mais limpa é o reaproveitamento da água, já que é um dos recursos renováveis mais ameaçados pelo desperdício e poluição.

No que diz respeito ò utilização de defensivos químicos, 62,5% responderam que não fazem uso de agrotóxico e 37,5% afirmaram que fazem uso de agrotóxico. Embora tenha havido registros de adoção de práticas de gestão ambiental, percebe-se que o uso de agrotóxicos ainda é uma constante na produção da cana de açúcar, mostrando uma de plantio que agride tanto ao meio ambiente, como também a saúde humana. Sobre o uso de adubo orgânico, 87,5% responderam que fazem uso do mesmo, enquanto 12,5% disseram que não o utilizam. A parcela, mesmo pequena, dos engenhos que não utilizam o adubo orgânico evidencia um risco de comprometimento do meio ambiente, contradizendo assim, as práticas de uma gestão ambiental eficiente, como mostra os Gráfico 7 e 8.

A gestão ambiental caracteriza-se por uma sequência lógica de eventos, de maneira sistêmica, contínua e cíclica. O conceito Produção mais Limpa de acordo com o Pnuma (2001), é a aplicação contínua de uma estratégia ambiental preventiva integrada aos processos, produtos e serviços para aumentar a ecoeficiência a evitar ou reduzir danos ao homem e ao ambiente.

6. Conclusões

Na grande maioria dos engenhos analisados, o bagaço da cana, um resíduo de baixo impacto poluente e rico em celulose, carboidratos e de alta aplicabilidade na indústria, destina-se a vários fins em seu ciclo de reaproveitamento. Uma de suas destinações é a geração de combustível para as caldeiras evitando, dessa forma, o uso de madeira e desmatamento da floresta nativa. E, ainda, utilizado na compostagem e na venda para ração animal. Contudo, o emprego do bagaço como combustível para as fornalhas não é uma prática comum a todos os engenhos, já que um engenho relatou o emprego de madeira da mata nativa circundante para alimentar o fogo das caldeiras.

A não reutilização da água da produção e práticas de queimadas estão presentes em alguns dos engenhos, evidenciando riscos ambientais e comprometimento da qualidade final do produto, porque o hábito das queimadas afeta diretamente a qualidade da cachaça. Os instrumentos de gestão são importantes para os pequenos engenhos, uma vez que é uma atividade em plena expansão, proporcionando um diferencial significativo no mercado consumidor, como também, a sustentabilidade.

Assim sendo, pode-se afirmar que o presente estudo de pesquisa alcançou os objetivos inicialmente propostos, ao trazer à luz as dificuldades e a atual realidade das aplicações das práticas de uma gestão ambiental adequada, bem como a descrição de implantação de mecanismos operacionais de uma produção mais limpa.

Referências

AMBIENTE BRASIL. Resíduos, 2000. Disponível em: http://www.ambientebrasil.com.br/ Acesso em : 11 de agosto de 2009.

FAPESP- Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo. Propriedades do Bagaço da Cana-de-açúcar. Disponível em: http://www.re-vistapesquisa.fapesp.br. Acesso em 18/07/2009

IBPS - INSTITUTO BRASILEIRO DE PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL. Disponível em http://www.ibps. com.br/. Acesso em 20.07.2009.

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ROVERE, Emílio Lebre La. Manual de Auditoria Ambiental. RJ: Qualitymark, 2001

_. Curso Básico de Gestão

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SLACK, Nigel. CHAMBERS, Stuart. JOHNSTON, Robert. Administração da Produção. Atlas, São Paulo,2002.

WINKEL Juliana. GRACIANI, Marcos. Sobrevivência Garantida. Revista Amanhã. N. 243, 2008.

VERGARA, S. C. Projetos e relatórios de pesquisa em Administração. São Paulo: Atlas, 2007.