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Correio Popular

Análise da água do Atibaia mapeia consumo de drogas

Publicado em 05 setembro 2010

Por Maria Teresa Costa - Agência Anhanguera

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estão fazendo um diagnóstico do uso de drogas, e principalmente de novas drogas, em Campinas a partir da análise da água do Rio Atibaia. O estudo reproduz metodologia semelhante utilizada pelo grupo em Brasília, em conjunto com a Polícia Federal, que detectou a presença de drogas em esgoto coletado em seis estações de tratamento. Na Capital federal, com o método, foi possível estimar que a média anual de consumo de cocaína é de duas toneladas por ano, o equivalente a sete doses por habitante.

Em Campinas, disse Wilson Jardim, coordenador da pesquisa, o grupo não teve acesso às estações de tratamento, por isso, a opção foi estudar a água bruta do rio. Já detectaram, por exemplo, que a maior concentração de cocaína na água aparece nas terças-feiras e finais de semana. Eles estão buscando presença de crack, anfetaminas, ecstasy, enfim, entorpecentes usados na cidade. As substâncias vão parar no rio, pelo esgoto, após serem excretadas pela urina do usuário.

"Nossa intenção não é policial, mas sim de analisar a expansão de novas drogas na cidade", disse. O método de análise da água, que utiliza cromatografia líquida, afirmou, é uma ferramenta de baixo custo e de abrangência social grande. Conforme o pesquisador, estimar o consumo a partir da quantidade de droga apreendida é um método falho. "Estimar pela quantidade existente no esgoto é mais realista do que qualquer outro procedimento", afirmou. Em Brasília, foram apreendidos 300 quilos de cocaína no ano, mas a análise do esgoto mostrou um consumo bem maior, de duas toneladas.

Há também um grupo estudando a água distribuída à população para ver se, mesmo após o tratamento, ainda aparecem traços de drogas. A investigação tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq).

A proposta é ter um perfil do consumo de drogas no País e também uma radiografia dos chamados contaminantes emergentes. São moléculas que ainda não têm uma legislação que determine a quantidade que seria tolerável na água. "Para termos uma legislação, precisamos gerar dados para que possa haver no futuro", disse. "Isso envolverá uma infinidade de estudos que digam, por exemplo, qual a ingestão máxima que o indivíduo necessitaria para desenvolver uma doença fruto da substância ingerida", acrescentou Jardim.Há uma lista razoável de moléculas que não são citadas na legislação e que estão presentes em novos produtos. Segundo o pesquisador, somente no período da manhã, as pessoas usam cerca de dez produtos de higiene pessoal e de limpeza, como enxágue bucal, protetor solar, antirruga e desodorante.

"Isso criou uma nova realidade, com novos produtos ou produtos antigos que começaram a reaparecer. Temos os hormônios naturais e sintéticos, temos a socialização da pílula anticoncepcional, enfim, uma série de substâncias que são consumidas e acabam indo parar nos rios. Temos substâncias que eram testadas como cancerígenas e hoje se olha com outro enfoque, como é o caso do DDT, que era droga teratogênica e hoje se sabe que é também inibidora do sistema hormonal", afirmou.

A investigação será feita em várias cidades que consomem diferentes fontes de água. Foram selecionados municípios que só usam água subterrânea, como é o caso de Ribeirão Preto; que usam água subterrânea e superficial, como São José do Rio Preto, e água superficial, como Campinas.

Sanasa se equipa para investigar contaminantes

A água distribuída à população, segundo a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A. (Sanasa), segue os parâmetros definidos pelo Ministério da Saúde, mas a empresa vai iniciar investigação sobre a presença de substâncias endócrinas (hormônios), fármacos e outras contaminantes emergentes. Para isso, está dotando o laboratório de análise de equipamentos, com financiamento do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro), para ter uma ferramenta a mais para verificação da qualidade da água.

"Hoje, não dosamos esses contaminantes porque eles não estão contemplados na legislação", afirmou o coordenador do laboratório de análise da Sanasa, Ivânio Rodrigues Alves. A quantidade de cafeína e outros contaminantes encontrados na água de abastecimento pelos pesquisadores da Sanasa, segundo ele, é muito pequena.

Segundo cálculos do laboratório, uma xícara de café tem 70mg de cafeína. Para ingerir essa quantidade de cafeína consumindo água, seria necessário beber dois litros de água por dia durante 11 anos. Outro cálculo, em relação a hormônios, mostra que uma pessoa precisaria tomar dois litros de água por dia durante 16 anos para consumir a mesma quantidade de hormônio presente em um filé de frango de 100 gramas.

O químico disse que a Sanasa não faz apenas o tratamento convencional da água distribuída à população. A empresa também faz oxidação de toda matéria orgânica, o que, segundo ele, dá mais segurança em relação a presença desses compostos. (MTC/AAN)

Grupo identifica cafeína e bisfenol A em amostras

Resultado acende sinal de alerta, mas efeito para a saúde da população ainda é uma incógnita para os cientistas

O grupo de pesquisa encontrou cafeína na água distribuída à população em Campinas, mas que não causa preocupação na concentração detectada. "Mas, se a cafeína está lá, é provável que outros contaminantes também devem estar", afirmou o coordenador, Wilson Jardim. Em 30 amostras de água de abastecimento analisadas, todas tinham cafeína. Três de 46 amostras obtidas continham bisfenol A, um amaciante de plástico que foi banido das mamadeiras por levar a alterações endócrinas. "Isso mostra que a água do Rio Atibaia está ruim e que será preciso melhorar o processo de tratamento", disse.

Os contaminantes emergentes passaram a preocupar por causa do adensamento populacional, do aumento do consumo e pelo sistema de saneamento deficiente. "A realidade mostra que os compostos estão presentes em concentrações elevadas na água distribuída à população. Só não sabemos o que podem provocar na saúde humana", disse o pesquisador.

Há estudos que mostram que o descarte de esgoto em lagos e rios tem provocado alterações sexuais em comunidades aquáticas, como peixes, moluscos, aves e répteis. Jardim citou o exemplo de um estudo em Las Vegas, nos Estados Unidos, com a fauna do Lago Mead. Esse lago recebe esgoto tratado da cidade, mas foi constatado que os peixes machos tinham uma proteína que só existe nas fêmeas, a vitologenina. Na Flórida, a diminuição de aligatores (jacarés) foi relacionada com malformação genital dos machos provocada por pesticidas, que levaram à feminização dos animais. "Precisamos de estudos para ver os efeitos nos humanos. É muito difícil identificar causas e consequências da exposição", afirmou.

O pesquisador disse que os mananciais brasileiros têm concentração dez vezes maior de contaminantes emergentes que Europa e Estados Unidos. "Nossos processos de tratamento de água são menos eficazes que os europeus e americanos e, por isso, a probabilidade da água potável ter contaminação é grande", disse.