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Analisar os sonhos pode ajudar a diagnosticar esquizofrenia

Publicado em 30 julho 2018

Por Agência FAPESP

Apesar de ser muito usado na psicanálise, o sonho também tem se revelado útil na psiquiatria, inclusive no diagnóstico clínico de esquizofrenia, de acordo com um novo estudo.

Realizada por pesquisadores do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (NeuroMat), a pesquisa foi divulgada na quinta-feira (26), durante a 70ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

No estudo, os pesquisadores gravaram os relatos dos sonhos de 60 pacientes voluntários. Alguns já tinham recebido o diagnóstico de esquizofrenia, outros de bipolaridade e os demais, que formaram o grupo de controle, não apresentavam sintomas de transtornos mentais.

Os relatos dos sonhos dos pacientes foram transcritos e as frases dos discursos dos pacientes foram transformadas em grafos --uma representação abstrata de um conjunto de objetos e das relações entre eles. Ao analisar os grafos dos relatos dos sonhos dos três grupos de pacientes, os cientistas observaram diferenças muito claras entre eles.

“O relato dos sonhos dos esquizofrênicos é extremamente lacônico, enquanto o do bipolar é mais desconexo e do grupo controle é cronológico e mais coeso. Isso pode ser uma forma de mapear a mente desses pacientes com palavras”, diz Sidarta Ribeiro, neurocientista e diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Em outro estudo, a ser publicado, os pesquisadores gravaram os relatos de sonhos e de memórias positivas, negativas ou neutras. A ideia era verificar qual lembrança tinha maior capacidade de prever o diagnóstico de esquizofrenia seis meses depois. O relato do sonho apresentou melhor desempenho.

“Achávamos que a memória muito antiga talvez tivesse o mesmo caráter do sonho e não foi isso o que constatamos. O sonho classificou melhor os pacientes esquizofrênicos e teve maior capacidade de predizer o diagnóstico por esquizofrenia seis meses depois”, afirma Ribeiro.

Pacientes esquizofrênicos podem apresentar psicose, a perda de contato com a realidade que provoca delírios, alucinações e fala incoerente, entre outros sintomas. Por meio de um questionário, o diagnóstico desses pacientes, contudo, pode levar seis meses para ser fechado, uma vez que não há biomarcadores para atestar esse distúrbio mental.

“A ideia desses estudos é possibilitar o diagnóstico mais precocemente e possibilitar que os pacientes possam receber o tratamento adequado mais rapidamente, porque os prejuízos dos surtos psicóticos são acumulativos”, disse Ribeiro.

*Com informações da Agência FAPESP.