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O Estado do Paraná

América pode ter sido colonizada antes

Publicado em 18 dezembro 2005

Agência FAPESP
Há 11 mil anos, segundo a marcação dos geólogos, começou o que se convencionou chamar de Período Holoceno, que veio depois do Pleistoceno. É exatamente nesse intervalo cronológico que teria ocorrido a colonização, pela espécie humana, das Américas. Isso se apenas os dados morfológicos (medições de ossos e crânios) forem levados em conta, pois alguns estudos, feitos com base no DNA, mostram que o início da travessia do estreito de Bering pode ter sido bem antes, há 20 mil anos.
As análises morfológicas desenvolvidas por Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo, além da idade da ocupação do Novo Mundo, apontam para mais uma peculiaridade do processo migratório. Para ele, não apenas uma, mas duas populações humanas biologicamente distintas fizeram a travessia e conheceram aquilo que seriam as três Américas atuais.
Defensor árduo dessa tese, muitas vezes ignorada pelos seus pares no hemisfério Norte, Neves, junto com Mark Hubbe, também da USP, publica nesta semana na edição on-line da Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), e depois na versão impressa, mais uma evidência de que tal raciocínio científico deve ser considerado.
Os críticos dessa tese não podem mais dizer que tudo foi pensado com base em apenas um único crânio, como havia ocorrido nos tempos da publicação dos dados sobre a Luzia, um dos crânios com 11 mil anos descobertos na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais.
"Este trabalho é a síntese final de todos os crânios de Lagoa Santa existentes em museus no Brasil e no exterior. Apenas não inclui o material mais novo, escavado a partir de 2000", disse Neves à Agência FAPESP.
Foram feitos três tipos de análises multivariadas com medidas obtidas a partir de 81 crânios. "Os métodos usados confirmam mais uma vez a semelhança entre os paleoíndios americanos e os grupos melanésios e australianos", afirma.
Por causa da proximidade morfológica entre os grupos, os pesquisadores acreditam que não foram apenas os tradicionais habitantes do nordeste da Ásia que vieram para as Américas. Segundo Neves e Hubbe, essa tese pode ser validada sem a ocorrência de uma imigração transoceânica. Os grupos australianos e melanésios, os registros mostram, chegaram até a Ásia. A partir daquela região do mundo, dizem, eles também podem ter atravessado o estreito de Bering.