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UnB

Ameaçados pelo concreto

Publicado em 23 novembro 2009

Por Gisela Cabral

O desaparecimento de áreas naturais no município de São Paulo - resultado do processo intenso de urbanização ao longo dos anos - pode ter causado o sumiço de cerca de 50 espécies de répteis que costumavam habitar o perímetro da capital paulista. Segundo artigo publicado por pesquisadores do Instituto Butantan, das 97 espécies registradas ao longo do último século na cidade, 51 não são vistas nos últimos seis anos. O trabalho, que teve como objetivo a organização e o mapeamento da diversidade de espécies naturais de São Paulo, não afasta a possibilidade de extinção local de algumas delas, problema que pode afetar outras localidades brasileiras.

No caso das serpentes, o cenário levantado é ainda mais preocupante: das 68 espécies existentes, apenas 32 foram encontradas recentemente. "As cobras dependem da vegetação para sobreviver, portanto, a perda do ambiente natural é o principal motivo dessa redução. É o efeito da urbanização", diz Fausto Barbo, um dos autores do estudo, intitulado Os répteis do município de São Paulo: diversidade e ecologia da fauna pretérita e atual. Segundo ele, o alto número de animais capturados próximo a residências por moradores e levados ao Butantan é um dos fatores que motivou o mapeamento.

A pesquisa reuniu dados sobre a história natural desses animais, incluindo o tipo de bioma no qual são encontrados, seu substrato e seus hábitos alimentares. O documento afirma que aproximadamente 70% da fauna de lagartos e 40% das serpentes são formadas por espécies típicas de ambientes florestais e ocorrem na Serra do Mar. Já 63% dos lagartos são predominantemente terrícolas (cuja vida se dá na terra) e os demais são arborícolas (nas árvores). "A maior parte das espécies de serpentes é terrícola (38%) ou subterrânea (25%). A menor parte é arborícola (18%) e aquática (9%). Artrópodes são o item predominante na dieta de lagartos", afirma um trecho do estudo.

O especialista do Butantan Ricardo Sawaya conta que os levantamentos sobre répteis em São Paulo ainda são raros e fragmentados. "Temos informações dispersas na literatura sobre algumas das espécies mais comuns. Mas praticamente não existem dados sobre a diversidade, a biologia e a distribuição de répteis que ocorrem no município ou no estado de São Paulo", afirma em nota divulgada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Sumiço

Para o professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB) Guarino Colli, a urbanização é um fator a ser levado em consideração quando se fala do sumiço de algumas espécies de répteis. Segundo ele, o fato de o Butantan ter recebido, ao longo do século, diversas espécies, inclusive aquelas enviadas pela população, contribuiu bastante para a qualidade das coleções existentes. "Mas, hoje, a situação é bem diferente do que há 100 anos, pois as áreas naturais foram ficando cada vez mais escassas", explica. A situação em Brasília, segundo o biólogo, caminha para o mesmo destino, apesar de a cidade ser bastante nova.

Conforme Colli, na capital federal é possível encontrar lagartos e serpentes que conseguiram se desenvolver bem em meio à urbanização. A UnB realiza mapeamentos locais e mantém coleções de répteis-anfíbios. "Temos espécies que foram registradas na formação do Lago Paranoá e que hoje não existem mais", conta.

O professor orienta as pessoas que encontrarem algum réptil na cidade, principalmente serpentes, a chamarem a Polícia Florestal. "A grande maioria das serpentes não é peçonhenta. Porém, para o leigo, é difícil distingui-las. O melhor, nesses casos, é chamar aqueles que têm costume de lidar com animais do tipo", destaca.

As espécies registradas pelo Butantan, no entanto, ainda não estão oficialmente em extinção. Para isso, é necessário fazer parte do Livro vermelho, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), disponível na íntegra na página da internet do órgão. De acordo com o MMA, a publicação reúne informações científicas sobre todas as 627 espécies da fauna reconhecidas como ameaçadas de extinção. Na publicação, é possível se informar a respeito da biologia, distribuição geográfica, presença em unidades de conservação, das principais ameaças, estratégias de conservação, entre outros aspectos úteis para o trabalho de pesquisadores, estudantes, além do público em geral.