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Gazeta do Povo online

Ameaça silenciosa

Publicado em 08 janeiro 2009

Com um alto grau de urbanização, o Brasil já apresenta cerca de 80% da população nas cidades, mas, como advertem estudiosos do assunto, o país ainda tem muito a aprender sobre crescimento e planejamento urbanos. Os problemas decorrentes dessa falta de “experiência” estão cada vez presentes, e a maioria é facilmente detectável, do trânsito caótico à poluição sonora ou do ar. A propósito da poluição do ar, sabendo-se que ela afeta não apenas quem o respira, não chegam a surpreender descobertas e constatações recentes.

Exemplo disso são trabalhos realizados em universidades e agora publicadas pela Fundação de Amparo  à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Eles mostram que poluição do ar aumenta em 50% o risco de morte de recém-nascidos em cidades como São Paulo, conforme análise dos dados de 214 mil crianças nascidas na capital paulista.

Pesquisa do médico Nélson Gouveia, da Universidade de São Paulo (USP), acrescida depois de trabalho da médica Andréa Peneluppi de Medeiros, da Universidade de Taubaté, confirma que a exposição das gestantes à poluição, em especial nos três primeiros meses, leva à diminuição do peso dos bebês ao nascer, um dos principais determinantes da saúde infantil. E, ainda que indiretamente, existe outro impacto da poluição inalada pelas grávidas sobre os recém-nascidos: o aumento do risco de morte nos primeiros dias após o parto.

As consequências mais imediatas – e moderadas – de encher os pulmões todos os dias com o ar das metrópoles são logo sentidas: entupimento das vias aéreas, mal-estar e crises de asma, sem falar na irritação dos olhos. Há, porém, outras mais graves, que se instalam lentamente no organismo, como o aumento da pressão arterial e a ocorrência de paradas cardíacas. Essas podem passar despercebidas, já que nem sempre apresentam uma relação tão clara e direta com o fator ambiental, conforme detalha o estudo. E vem a dúvida: quais seriam as alterações que a poluição provoca no organismo dos bebês? “Ainda não há uma ideia precisa do mecanismo biológico por trás desse efeito”, segundo Nélson Gouveia, que recentemente constatou que a poluição é responsável por 5% das mortes por problemas respiratórios em crianças e idosos em sete capitais – Curitiba, São Paulo, Rio, Belo Horizonte,Vitória, Fortaleza e Porto Alegre.

De imediato, existe o alerta: onde morar em metrópoles? É melhor optar por uma casa ou apartamento o mais distante possível – a dois quarteirões, no mínimo – das ruas e avenidas mais movimentadas. Os poluentes emitidos pelo motor de automóveis, ônibus e caminhões geralmente se espalham por um raio de até 150 metros a partir do ponto em que são lançados e transformam as grandes avenidas em “imensas chaminés que despejam sobre a cidade toneladas de partículas e gases tóxicos”. Não é a primeira vez que a poluição aparece associada à mortalidade perinatal, período que inclui a gestação e a primeira semana após o parto. A equipe do médico Paulo Hilário Saldiva, também da USP, que há décadas estuda os efeitos da poluição sobre a saúde, havia demonstrado, anos atrás, que nos dias mais poluídos morrem mais bebês ainda em gestação na capital paulista. Saldiva e o médico Luiz Amador Pereira identificaram ainda que o poluente associado à maior probabilidade de morte dos fetos foi o monóxido de carbono (CO), como se sabe um gás sem cor nem cheiro que resulta da queima incompleta dos combustíveis, como detalharam em 1998 na Environmental Health Perspectives. Como se vê, qualidade do ar é questão que merece atenção urgente dos administradores públicos.