Notícia

Jornal da Tarde

Ameaça ao debate sobre as universidades

Publicado em 13 outubro 2005

Por Marcos Macari

A Unesp, a Unicamp e a USP estão a cada ano aumentando a participação, entre seus ingressantes, de alunos do ensino público

Tem razão o deputado estadual Pedro Tobias, vice-presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo, ao dizer que merece debate de alto nível o tema dos recursos necessários para as três universidades estaduais paulistas, em artigo publicado neste jornal ("A redenção da academia", Opinião, 3/10). Mas, com o devido respeito ao nobre parlamentar, tal debate estará prejudicado se depender dos dados por ele apresentados na tentativa de imputar baixos indicadores de desempenho à Unesp, à Unicamp e à USP.
De início, é preciso esclarecer que não procede a acusação do deputado de falta de transparência das três universidades estaduais, o que é uma acusação contra o próprio partido do qual ele é dirigente, que governa o Estado há dez anos sucessivos. Basta um simples acesso aos websites das três instituições para conferir em detalhe a aplicação de seus recursos, que são anualmente submetidos, debatidos e aprovados em seus amplos conselhos universitários.
Ao dizer que o aluno do ensino fundamental do Estado custa R$ 1,4 mil por ano, e atribuir aos estudantes das três universidades o custo médio anual de R$ 37 mil, o parlamentar incorre em uma dupla falácia. Por um lado, ele compara dados de forma simplista e indutora em engano, pois eles envolvem infra-estruturas de ensino radicalmente distintas. Por outro lado, o gasto por aluno por ele propalado é uma suposição sem fundamento, pois, diferentemente de outros órgãos do Estado, pouco mais de 20% de nossas dotações orçamentárias cobrem pagamentos de inativos e outros cerca de 20% custeiam serviços de saúde, sem falar que o restante não se aplica somente ao ensino, mas também à extensão e à pesquisa. Pesquisa que, para tomar só um dos exemplos recentes, teve como resultado o crescimento da competitividade da agropecuária brasileira.
Recentemente, a revista britânica The Economist, em um relatório sobre a educação superior nos países desenvolvidos ("The brains business: A survey on higher education", 10/9), afirmou que um dos principais fatores do sucesso das universidades dos Estados Unidos está no fato de investir muito mais que, por exemplo, os países da OCDE: enquanto estes últimos gastam cerca de US$ 10 mil por aluno, nos EUA essa média é de US$ 22 mil, sem falar nas doações feitas por milionários às escolas onde estudaram, o que ainda, infelizmente, é impensável no Brasil.
Não bastassem esses equívocos e omissões, o deputado mais uma vez induz seus leitores em engano ao deixar de considerar que a Unesp, a Unicamp e a USP estão a cada ano aumentando a participação, entre seus ingressantes, de alunos do ensino público. A título de exemplo, só neste ano, na Unesp, o porcentual de estudantes de escolas públicas correspondeu a 40% do total de inscritos, ao passo que os matriculados com a mesma origem ocuparam 39,6% de todas as nossas vagas. E é por causa de dados crescentes como esses que as universidades estão a cada ano ampliando sua política de isenção de taxas de inscrição nos seus exames vestibulares, ou adequando sua avaliação, como no caso da Unicamp.
Não há como ignorar, em meio aos crescentes dados de participação do Brasil na produção científica mundial de 1998 a 2002, que essas três instituições paulistas produziram 44% de todos os trabalhos nacionais publicados em revistas científicas indexadas no mesmo período, como mostram os Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo 2004, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Finalizando, ressalto, em nome do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), que temos nos pautado rigorosamente por evitar a partidarização e o aproveitamento político da questão orçamentária. Desse modo, não temos como deixar de lamentar que, no afã de impedir a todo custo o aumento dos recursos para as três instituições, o deputado estadual Pedro Tobias tenha optado pela retórica em detrimento da lógica e recorrido a um expediente ao qual, dignamente, o chefe do Executivo paulista não ousou apelar, inclusive porque configuraria munição para a oposição às vésperas de um ano eleitoral.

Marcos Macari é presidente do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) e reitor da Universidade Estadual Paulista
"Júlio de Mesquita Filho" (Unesp)