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Jornal Meio Ambiente online

Ambientalismo moderno

Publicado em 05 setembro 2006

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP

Se a história do ambientalismo no mundo teve alguns pontos considerados importantes nos últimos anos, sem dúvida a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, em fevereiro de 2005, foi um deles. Apesar das críticas, dos debates e de os Estados Unidos terem ficado de fora, o assunto serviu para ratificar a importância que as emissões de carbono na atmosfera têm para o equilíbrio da Terra. O aumento desses lançamentos, está claro, vai deixar o planeta mais quente.

Ao se debruçar sobre o tema, o ex-reitor da Universidade de São Paulo Jacques Marcovitch, professor de Estratégia Empresarial da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), emergiu da complexidade do tema com textos que ultrapassam um simples diagnóstico do problema.

No livro Para mudar o futuro, mudanças climáticas, políticas públicas e estratégias empresariais, que acaba de ser lançado em co-edição da Editora Saraiva e da Editora da USP, são apontados vários caminhos que permitem, pelo menos, imaginar que será possível chegar ao período pós-Kyoto, que vai ter início em 2012, de uma forma mais ou menos saudável.

Leia a seguir trechos da entrevista dada pelo professor Marcovitch à Agência FAPESP, onde ele fala sobre seu novo livro.

Agência FAPESP - Qual foi a motivação principal dessa obra?

Marcovitch - Claro que estou envolvido com esse tema desde os anos 1980. De forma objetiva, esse livro começou a ser formatado em dezembro de 2004, quando o Brasil, em Buenos Aires, entregou o seu inventário de emissões de gases que contribuem para o efeito estufa. É importante fazer a crítica, mostrar as deficiências, as contradições entre o modelo de desenvolvimento escolhido e o da sustentabilidade ambiental. Mas, pensei, por que alguém no Brasil não diz também o que o país faz e pensa?

Agência FAPESP - Um dos temas discutidos na obra é a questão do empreendedorismo, de como as empresas estão envolvidas com a questão ambiental. Isso já é uma prática comum, ou trata-se, em muitos casos, de marketing apenas?

Marcovitch - Estamos no início do ciclo. Como ocorre em processos como esse, em qualquer começo, sempre existem poucos inovadores. As empresas destacadas por nós no livro são uma amostra de um grupo, claro que já existem outras também. Mas, em qualquer meio inovador, tem-se apenas 10% de engajados em um primeiro momento. Partindo dessa premissa, 90% ainda estão distantes dessa realidade ambiental. Os grupos globais, os de cimento, por exemplo, já sentem a pressão dos acionistas por medidas mais limpas. Quem polui não é o governo, nem o cidadão individual. O setor empresarial é um elo fundamental dentro dessa decisão de reduzir emissões e de seqüestrar carbono.

Agência FAPESP - A idéia do ambientalismo de mercado é algo que veio para ficar e entrar no dia-a-dia daqueles 90% que ainda não estão engajados?

Marcovitch - Esse conceito do ambientalismo de mercado parte da premissa de que para engajar o setor produtivo é preciso "precificar" a poluição. Aqui, entra, por exemplo, a idéia do mercado de carbono. Várias das coisas que são possíveis de serem feitos estão apresentadas no livro, como parte das estratégias empresariais. Mas também sobre esse tema é preciso tomar cuidado. O ambientalismo de mercado não substitui o ambientalismo que tem sido defendido baseado em políticas públicas.

Agência FAPESP - Estamos falando de partes de uma mesma solução?

Marcovitch - Esse chamado novo ambientalismo é simplesmente um componente a mais. Um complemento. O perigo aqui é cair naquela idéia de esquerda ou direita. Neoliberalismo ou socialismo. Não estamos falando de uma opção entre o ambientalismo das ONGs e o ambientalismo de mercado. Nós estamos falando de muitos instrumentos que precisam ser utilizados, as políticas públicas, as tributações, os impostos, as taxas e mais ainda o mercado de emissões. Mesmo porque já está provado que investir em meio ambiente compensa.

Agência FAPESP - O livro também aponta caminhos para 2012, o período que está sendo chamado de pós-Kyoto, mas ainda não é preciso discutir antes o que fazer até lá?

Marcovitch - Toda vez que ocorrem, de forma justificada ou não, extremos climáticos, como o verão norte-americano e o verão europeu deste ano, a pressão política sobre os governos para que eles cumpram as metas do Protocolo de Kyoto aumenta de forma extraordinária. Se não fossem as outras tensões (riscos sociopolíticos ou geopolíticos não apenas no Oriente Médio, mas também em outros países) essa prioridade ambiental seria muito maior. Você tem razão em ser cético, por mais que seja feito no curto prazo, isso não será suficiente para reduzir o impacto humano.

Agência FAPESP - A confiança de que as metas sejam cumpridas existe então?

Marcovitch - Tenho a impressão de que tendo como locomotiva a União Européia, que está avançando muito nesse ponto, a implementação de Kyoto será estimulada. Um país como a Holanda tem vulnerabilidade enorme. A Inglaterra viveu as mortes do fog de 1950 e a Alemanha, por exemplo, conta com partidos verdes fortes. Essas nações é que serão os atores fundamentais desse processo de alavancagem