Notícia

Jornal NH (Novo Hamburgo, RS)

Amazôniz: um Brasil distante e desconhecido

Publicado em 22 julho 2020

Por Sérgio Etchegoyen

... se não te apercebes para integrar a Amazônia na tua civilização, ela, mais cedo ou mais tarde, se distanciará, naturalmente, como se desprega um mundo de uma nebulosa — pela expansão centrífuga de seu próprio movimento? Euclides da Cunha. Os números amazônicos são superlativos. Representa 62% do território nacional, guarda um quinto das reservas de água potável do Planeta, ocupa 5% da superficie terrestre e esconde riquezas naturais capazes de impulsionar uma nova economia para a era da ética da sustentabilidade. Nenhum outro canto do mundo reúne flora e fauna tão diversificadas e ainda desconhecidas.

Pesquisa apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) relacionou 2257 espécies de peixes, 15% do total identificado pela ciência no Mundo. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, são mais de 30 mil espécies de plantas, das quais mais de 2 mil já identificadas como de utilidade na alimentação, na medicina e em outros empregos comerciais.

As pesquisas geológicas apontam enorme potencial de depósitos de ferro, manganês, alumínio, cobre, zinco, níquel, cromo, titânio, fosfato, ouro, prata, platina, paládio, ródio, estanho, tungstênio, nióbio, tântalo, zircônio, terras-raras, urânio e diamante. Resumindo, trata-se de um paraíso ecológico riquíssimo, cuja preservação é do interesse da humanidade e das próximas gerações de brasileiros.

Essa mesma diversidade e o potencial econômico atraem a cobiça internacional sobre a nossa Amazônia, expressada já em 1850 pelo norte-americano Mathew Fontaine Maury, chefe do Observatório Naval de Washington, e reiterada mais de um século depois por importantes lideranças internacionais, como François Miterrand, John Major, Margareth Tatcher, Mikhail Gorbachev, George W. Busch, Henry Kissinger e, nos nossos dias, reforçada por Emmanuel Mac ron e outras lideranças europeias e, surpreendentemente, pelo Vaticano, por intermédio do Sínodo da Amazônia em outubro do ano passado, de viés claramente internacionalista.

Temos muito a corrigir na gestão daquele mundo maravilhoso, mas será criminoso e profundamente egoista excluir seus habitantes, indígenas ou não, do processo de desenvolvimento do Brasil por uma falsa premissa de preservação. A Amazônia não é um santuário intocável, ela pode sim, e deve, produzir prosperidade para seus habitantes, indígenas ou não. E cínico e perverso o argumento de preservação da cultura indígena pela manutenção dos seus status quo sócio culturais, equivaleria a usálos como massa de manobra para bloquear-lhes o desenvolvimento e condená-los a viver confinados em verdadeiros zoológicos humanos para deleite de pesquisadores e curiosos.

Preservar a Amazônia é dever que os brasileiros saberão cumprir se entenderem efetivamente o que ela significa para o País e para o Mundo. Defendê-la é compromisso de honra em retribuição à epopeia lusitana para conquistá-la. Desenvolvê-la com sustentabilidade será a melhor garantia para a própria preservação. Mas para tudo isso é preciso conhecê-la.