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Correio da Paraíba online

Amazônia corre risco de virar savana

Publicado em 06 junho 2010

São Paulo [Revista Pesquisa FAPESP] - Carlos Nobre, 58 anos, um dos mais respeitados e premiados estudiosos brasileiros do clima e das mudanças climáticas globais, participou do grandioso evento sobre meio ambiente, em Copenhague, Dinamarca, onde viu dissiparem-se todas as esperanças de assinatura de um tratado internacional consistente de prevenção e combate aos efeitos do aquecimento do planeta. De volta ao Brasil, em sua agradável casa num condomínio em São José dos Campos, a 97 quilômetros da capital paulista, na companhia atenta e carinhosa de Ana Amélia Costa, com quem fará mês que vem 25 anos de casado, mantendo a alguma distância seus oito cachorros e nove gatos, ele recebeu a equipe da [Pesquisa Fapesp].

Os resultados da COP-15 foram objeto, claro, de suas considerações, mas Nobre foi muito além disso: conseguiu delinear, numa espécie de antevisão, o grande laboratório de experiências ambientais avançadas que vê em começo de montagem no estado de São Paulo e procurou mostrar por que o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, do qual é o coordenador-geral, tem enorme potencial para ampliar, e muito, a já razoável influência do Brasil no debate científico e nas decisões políticas globais relativas às mudanças climáticas. Abordou seu percurso de pesquisador e duas novas contribuições científicas, inéditas ainda - uma que traz novos elementos para o aprofundamento de sua teoria de savanização da Floresta Amazônica e outra voltada à compreensão da persistência de uma larga zona de transição entre a floresta e o Cerrado na região -, cujos artigos científicos estão em fase de análise em publicações internacionais. O trabalho científico de Nobre, como se sabe, é fundamental para uma melhor compreensão das relações entre o clima, a floresta tropical, os impactos do desmatamento e do aquecimento global na Amazônia.

A entrevista

No olhar de um cientista, a conferência de Copenhague foi mesmo um completo fracasso?

No olhar de um cientista ela obviamente não foi um sucesso. Agora, "um completo fracasso" eu não diria, porque todos ali reconheceram o papel da ciência. Os vários discursos, os vários textos, colocaram o papel da ciência, destacaram o papel do IPCC [Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas] e destacaram que números e metas de qualquer acordo serão revisados periodicamente em função do que a ciência indicar. Então, é um ponto para a ciência, no sentido de que hoje ela está estabelecida no arcabouço dessas negociações e dá a palavra final sobre o que é necessário fazer em termos de metas e quanto aos riscos de a temperatura subir. Agora, isso é quase tudo, pelo menos na visão do cientista, que deu para salvar. A urgência que a ciência coloca para o problema não foi levada devidamente em consideração, porque senão todos esses anos de negociação já teriam levado a alguma decisão muito mais abrangente.

Mas houve algum espaço para o debate científico propriamente no meio da conferência?

Não, as COPs não são espaços onde se discute ciência, e qualquer assunto sobre o qual pairem muitas dúvidas científicas é retirado. Por exemplo, entrar ou não com medidas de mitigação do tipo captura e armazenamento geológico de carbono. Como existe muita incerteza científica sobre isso, ainda que seja uma técnica muito estudada e com algum potencial, ela chega a ser sugerida, mas não entra. Mas, simbolicamente falando, o fato de todos os países concordarem que devem fazer o esforço necessário para que a temperatura não suba mais do que 2 graus Celsius é um feito devido à ciência, assim como o fato de realisticamente se começar a pensar, ao se observar a velocidade com que o nível do mar está subindo e as projeções do que deve subir neste século e no próximo, que 2 graus é muito. Talvez seja muito difícil aquecer só 1,5 grau, mas é possível que todos os esforços tenham que ir realmente na direção de não deixar a composição da atmosfera mudar muito mais em relação ao que está hoje.

Mas, apesar do suporte todo dos dados da ciência, há um limite para sua influência sobre as decisões diplomáticas, as decisões políticas, a superação dos impasses provocados por interesses econômicos divergentes.

Existe, sim, um limite da própria ciência. A ciência é e sempre será limitada, mas ela vai avançando e avançou muito rapidamente nos últimos anos. A preocupação dos cientistas é que, se formos esperar muito tempo até que a ciência tenha uma certeza absoluta ou, dito de outra maneira, se só se acreditar no que se vê e não no que a ciência projeta para o futuro - em outras palavras, estamos vendo o gelo flutuando sobre o Ártico desaparecer -, se formos esperar que ela faça não mais o prognóstico, mas o diagnóstico no sistema climático, será talvez muito tarde. E para projetar o futuro a ciência sempre será intrinsecamente limitada. O sistema climático, o sistema terrestre, é muito complexo e, por princípio, é impossível prever tudo que pode acontecer porque são muitas trajetórias, infinitas trajetórias possíveis. O que a ciência faz muito bem, com muito menos incerteza, é conseguir saber o que está acontecendo, por isso o IPCC disse em 2007 que o aquecimento é inequívoco, e hoje é ainda mais inequívoco. A intenção de atuar, agir em função de um cenário que não é 100% certo, tem que ser uma decisão política, econômica, diplomática. Os exemplos que temos visto, inclusive o gelo do Oceano Ártico, mostram que a incerteza vai nas duas direções: muito pouco tempo atrás, projetava-se que o gelo ártico poderia desaparecer no verão do hemisfério Norte em torno do final do século e projetava-se também que para isso a temperatura precisava subir muitos graus, 3 ou 4 graus. Hoje todas as projeções da glaciologia indicam que, com 2 graus, não há mais como impedir que aquele gelo desapareça. A realidade se mostrou muito mais rápida do que se projetava dez anos atrás, então a diplomacia, a política e a economia têm que ficar do lado mais seguro e não simplesmente imaginar que a incerteza sempre penderá para o lado mais tranquilo.

A distância, tivemos a impressão de que a discussão sobre as incertezas das projeções do IPCC ganhou em Copenhague um espaço inesperado. Talvez por conta da invasão dos hackers naquele centro científico da East Anglia e o consequente vazamento dos e-mails de Phil Jones em novembro e, depois, pelo posicionamento de alguns cientistas como Joanne Simpson, o físico norueguês Ivar Giaever, Prêmio Nobel de 1973, o japonês Kiminori Itoh, enfim, gente séria da própria área científica que teria dado chão para os céticos militantes.

Nenhum desses nomes é de céticos realmente, no sentido de negacionista. Na verdade, que seja respeitado cientificamente como cientista da área climática, acho que só existe um cético no mundo, que é o professor Richard Lindzen, do MIT. Os outros - dos quais, conheço pessoalmente a professora Joanne Simpson - são pessoas que colocam questões da incerteza, da dificuldade de se prever como os extremos meteorológicos, como as tempestades, os furacões, etc., vão se comportar no futuro.

Esses cientistas não dizem "o planeta não está aquecendo"?

Não, Joanne Simpson e outros acham que a ciência precisa amadurecer muito para termos capacidade de prever o que o aquecimento global vai fazer, por exemplo, na questão dos fenômenos meteorológicos extremos. Quem esteve em Copenhague percebeu que nos primeiros dias da conferência ainda havia um rescaldo da discussão dos hackers e dos e-mails pirateados, mas no fim já não estava mais presente com força. É lógico que os negacionistas devem estar comemorando, porque quanto mais tempo continuar a inação, mais se estará no território deles, que acham que não se precisa fazer nada. Mas é interessante ver como mesmo alguns céticos têm um olhar diferente. Por exemplo, Lindzen, que é um físico muito bom, sabe que o planeta está aquecendo e que injetando gases vai aquecer mais. Só que ele acha que esse aquecimento é pequeno e que mesmo dobrando a quantidade de gás na atmosfera continuará pequeno, menor do que a média das projeções do IPCC. E, mais do que isso, ele tem um posicionamento filosófico de que isso não é necessariamente ruim, isto é, de que o planeta mais quente é melhor. Mas isso equivale a ignorar os enormes impactos que as mudanças climáticas podem trazer. Quanto aos e-mails pirateados do Phil Jones, eles terão que ser devidamente esclarecidos. Eu o conheço pessoalmente há mais de 15 anos, e tenho certeza de que, como é comum entre pessoas que trocam e-mails - e-mail não é um documento formal com uma linguagem quase casta, é quase uma conversa -, ele usou com uma certa informalidade uma palavra em inglês, trick, que é, traduzida para o português, "jeitinho", para se referir ao que fizera com determinados números. Pode também ser engano, mas falar "eu dei um jeitinho" seria talvez uma maneira de dizer em português que se resolveu um problema numa análise de dados, sem se confundir isso com algum tipo de fraude. E, bem, há milhares de trabalhos científicos publicados analisando as séries históricas de dados climáticos, então não há a menor possibilidade de se questionar que o planeta está aquecendo. Acho que esse assunto perdeu um pouco a proeminência, mas há uma série de ações, há várias academias de ciência que estão fazendo uma investigação independente nos e-mails, assim como o IPCC e a Universidade de East Anglia. As instituições na Inglaterra têm uma atitude que acho muito correta de afastar imediatamente qualquer pessoa da posição que ocupa se sobre ela há qualquer suspeita. E Phil Jones está afastado temporariamente da posicão de diretor do Climate Research Unit daquela universidade até que essa investigação se conclua. Para resumir, acho que cientistas como a Joanne Simpson, que questiona alguns aspectos em que a ciência precisa avançar, são importantes justamente para que a ciência avance. E, até onde eu sei, nenhum dos nomes que você citou são de pessoas ligadas aos lobbies de petróleo e carvão.

A dúvida é se as visões dessas pessoas não terminaram jogando um pouquinho de água no moinho desses lobbies.

Acho que não. Quem teria o maior interesse em pôr qualquer dúvida em toda essa questão? A China. Mas esse é o país em que, já há vários anos, o aquecimento global é percebido como capaz de trazer uma dificuldade enorme para o desenvolvimento. Existem estudos da ciência chinesa mostrando que o efeito do aquecimento já está presente: ondas de calor, secas, chuvas, inundações, perturbações na agricultura... Essa questão não se coloca mais para os países que contam em porcentagem de população, como China, Índia, outros emergentes, os países desenvolvidos... E é por isso que a única frase que ficou de Copenhague é que não se pode deixar a temperatura subir acima de 2 graus (e os países da África e as pequenas ilhas em conjunto querem 1,5 grau que, em alguns lugares semiáridos, significa 2,5 graus, 3 graus, 4 graus, o que é uma perturbação muito grande porque modifica os recursos hídricos, tornando-os mais escassos, produz secas mais intensas etc).

Há alguma mudança no horizonte da savanização da Amazônia?

Estou para propor um experimento de longo prazo, que é um sistema de observações no sul-sudeste da Amazônia. Quero que a gente tenha aqui no Brasil a capacidade de detectar quando os sinais da savanização vão começar realmente a aparecer. Segundo nossos cálculos, se o aumento da temperatura da região passar de 3,5 graus - estamos longe ainda, está chegando em 1 grau - ou se o desmatamento se tornar muito grande, vamos começar a ter, sim, os sinais da savanização.

Em que medida o programa do clima, sob sua coordenação, se articula com o Bioen e com o Biota-FAPESP?

Há uma grande oportunidade que se abre para o Brasil de explorar racionalmente seus recursos naturais renováveis, todos os seus grandes biomas e se tornar uma espécie de potência ambiental tropical, na linha de frente de produção de um biocombustível limpo para o mundo, com respeito à qualidade ambiental e aos ecossistemas, se ele estiver muito bem embasado numa ciência e numa tecnologia avançadas. Esses três programas são modelos articulados nesse sentido. O Bioen realmente é o grande programa de expansão do uso e das possibilidades do biocombustível como tal e como pilar da futura alcoolquímica. Eu enxergo os três programas, somados às pesquisas da Rede Brasileira de Pesquisas em Mudanças Ambientais Globais (Rede CLIMA/MCT) e do INCT para Mudanças Climáticas, como exemplos para o Brasil e como os três primeiros pilares do conhecimento que será a base de um novo e real desenvolvimento do país.