Notícia

Estadão do Norte (RO) online

Amazônia concentra 99,9% da malária no País; Rondônia tem uma das maiores incidências

Publicado em 08 fevereiro 2010

A malária mata 3 milhões de pessoas por ano, uma taxa só comparável à da Aids, e afeta mais de 500 milhões de pessoas todos os anos. São mais de 500 mil atingidos no Brasil a cada ano e, destes, 99,9% dos casos estão concentrados na Amazônia brasileira. A doença castiga severamente 807 municípios, segundo dados do Ministério da Saúde.

Tal situação coloca o Brasil entre um dos 30 países com maior incidência de malária no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Para a OMS, o nível de concentração de casos na Amazônia coloca de "10 a 15% da população em risco". Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Tocantins são os estados com a maior incidência de malária.

Em meio a essa situação caótica, duas boas notícias. A primeira delas é um estudo feito nos Estados Unidos e publicado na revista Nature, na quinta-feira, 4. A segunda é o repasse de € 17 milhões (cerca de R$ 46 milhões) do Fundo Global de Luta Contra a Aids, Tuberculose e Malária. O dinheiro deverá ser usado no combate à doença em 47 cidades da Amazônia castigadas pela malária. Os recursos financiarão o Projeto para Prevenção e Controle da Malária na Amazônia Brasileira, que tem como meta reduzir em 50% o número de casos da doença até 2014 nas áreas selecionadas.

O artigo da Nature, de autoria de pesquisadores das universidades Yale e Vanderbilt, descreve a descoberta de novas técnicas no combate à malária. Os pesquisadores descrevem os resultados de estudos em mais de duas dúzias de receptores em mosquitos transmissores da malária que atuam na detecção do suor humano. Segundo os autores, a descoberta pode ajudar no desenvolvimento de novas formas de combater a doença, que mata cerca de 3 milhões de pessoas anualmente.

Alvos potenciais para repelir

O motivo é que os receptores olfativos do Anopheles gambiae oferecem novos alvos potenciais para repelir, confundir ou atrair o mosquito para armadilhas. "O mundo precisa desesperadamente de novas maneiras para controlar esses mosquitos que se mostrem eficientes, baratas e não prejudiciais ao meio ambiente. Alguns desses receptores podem se tornar alvos excelentes para o controle do comportamento desses mosquitos", disse John Carlson, professor em Yale e líder da pesquisa.

Embora se saiba há tempos que os mosquitos são atraídos pelos odores corporais humanos, como o sistema olfatório dos mosquitos detecta esses diferentes elementos químicos é algo desconhecido. "Os mosquitos nos encontram pelo olfato, mas pouco sabemos como isso ocorre. Aqui nos Estados Unidos os mosquitos são fonte de irritação, mas em grande parte do mundo eles são fontes de morte", disse Carlson.

O cientista identificou os primeiros receptores de odores em insetos em 1999, em pesquisa com a mosca-da-fruta (Drosophila). Seu grupo, então, descobriu uma maneira engenhosa de usar esse inseto para estudar como funciona o sistema olfatório do mosquito.

Os pesquisadores produziram moscas geneticamente modificadas sem receptores de odores. Em seguida, ativaram genes de 72 receptores olfativos do anófeles em células de drosófilas que não tinham esses receptores.

As moscas resultantes foram expostas a diversos tipos de odores e as respostas relacionadas a cada receptor foram analisadas. Durante a pesquisa, foram registrados mais de 27 mil respostas, que foram reunidas em uma biblioteca de odores.

Os cientistas observaram respostas particularmente fortes em 27 receptores, a maioria dos quais respondia a componentes químicos encontrados no suor humano.

"Agora estamos pesquisando componentes que interajam com esses receptores. Compostos que confundam esses receptores, por exemplo, podem ser usados para diminuir a capacidade de o mosquito encontrar o homem. Ou compostos que os estimulem podem atrair os insetos para armadilhas", disse Carlson.

O artigo Odorant reception in the malaria mosquito Anopheles gambiae, de John Carlson e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.

(*) Com informações da Agência Fapesp e do Ministério da Saúde.

Chico Araújo / Ag. Amazônia