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Alunos da USP, Unesp e Unicamp são 24% mais produtivos no trabalho

Publicado em 18 setembro 2020

A média de produtividade dos alunos formados pela USP, Unesp e Unicamp foi 24% maior do que a de profissionais provenientes de outras instituições em 2018. É o que revela um estudo do Núcleo de Economia Regional e Urbana (Nereus) da USP, publicada nesta quinta-feira (17). Os pesquisadores também afirmam que os ex-alunos produzem um ganho anual maior do que o investido pelo governo paulista nas universidades.

De acordo com o estudo, os egressos das estaduais têm em geral uma média salarial 62% maior do que a dos outros trabalhadores do mercado. “Mas esse é o valor bruto, só considerando se é ou não formado nas públicas paulistas”, explica Carlos Azzoni, 71, coordenador do estudo. Colocando na conta aspectos como a disparidade salarial entre homens e mulheres, a média de ganho em cada unidade da federação, tipo de cargo e tempo no mercado de trabalho, entre outros, a média salarial fica 24% maior.

Mas qual a relação entre produtividade e o salário? O professor Azzuni nos dá um exemplo simples: imagine uma empresa privada que plante batatas. Se a companhia quer aumentar essa produção, ela pode contratar mais um trabalhador para sua operação, esperando que o novo indivíduo leve a uma elevação da quantidade de alimentos. “A empresa só vai manter um profissional que dê um retorno ao menos igual ao salário pago. Se for menor, manda embora. Então o quanto a companhia paga é diretamente relacionado ao quanto a pessoa contribui para o resultado da empresa, é a medição da valorização do trabalho de um indivíduo”, explica.

Outro dado é que a produtividade anual dos egressos das estaduais foi de 12,6 bilhões de reais em 2018. O número é 14,5% maior do que os 10,1 bilhões de reais destinados para o orçamento da USP, Unesp e Unicamp naquele ano. Ou seja, eles produziram 2,5 bilhões de reais a mais do que o orçamento das instituições.

O estudo levou em conta dados de 2018 para fazer as contas. A equipe juntou o CPF de 138 000 alunos formados pelas três universidades entre 2005 e 2015 e cruzou os documentos com uma base de dados do Ministério da Economia, o Rais (Relação Anual de Informações Sociais). “No Rais as empresas informam dados do trabalhador e a escolaridade”, diz Azzuni.

No total são aproximadamente 16 milhões de pessoas com nível universitário. Anualmente, a produtividade dos alunos destas instituições foi em média 27 800 reais maior do que o de outras universidades. O estudo pode ser acessado na íntegra neste link.

Para chamar atenção

Professor titular-sênior da FEA-USP, Carlos Azzuni contou também com a colaboração de Eduardo Haddad e Moisés Vassallo. O momento de publicação da pesquisa também teve como objetivo chamar atenção para um projeto de lei do governo estadual tucano que tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo.

O PL 529/2020, enviado no dia 13 de agosto, foi alvo de protestos de pesquisadores de diversas áreas do conhecimento. O 14º artigo prevê que o superávit financeiro de autarquias e fundações estaduais seja direcionado para o tesouro estadual ao final de cada exercício. O montante seria usado para o pagamento de aposentadorias e pensões do regime próprio de Previdência Social do Estado.

A medida impactaria fundos das universidades estaduais, com a transferência da reserva de caixa dessas instituições que seria usada para pesquisas.

“Esse estudo, por exemplo, não é fruto apenas do trabalho dos últimos 5 meses. Pesquisamos esse tema há 5 anos. É preciso investimento de longo prazo. A USP, Unicamp e Unesp são as melhores do país por conta da autonomia financeira que possuem”, diz Azzuni.

De acordo com o governo, o PL tem como objetivo viabilizar medidas para o enfrentamento dos “efeitos negativos da pandemia da Covid-19 sobre as receitas públicas”: a gestão prevê um déficit orçamentário de 10,4 bilhões de reais em 2021.

Em nota à imprensa, a administração estadual afirmou que “não é justo que a população mais carente fique desassistida em medicamentos ou no atendimento à saúde, enquanto as universidades e a Fapesp podem ficar com sobra de recursos em caixa”.

“A Fapesp não tem superavit, tem recursos comprometidos para projetos a longo prazo. Recolher esses recursos irá interromper os projetos e o pagamento de bolsas dos estudantes. Será um prejuízo irreversível para a pesquisa do país“, disse a geneticista Mayara Zatz pelas redes sociais na época.

Confira abaixo a nota completa do governo sobre as críticas:

“O projeto de lei não atenta contra a autonomia das universidades e institutos de pesquisa, não mexe no orçamento, tampouco na autonomia garantida pela vinculação, hoje existente, entre recursos do ICMS e estas entidades. A proposta é que recursos superavitários, isto é, aqueles no caixa destas instituições e sem vinculação a projetos de pesquisa ou despesas vinculadas, sejam utilizados para pagar professores, pesquisadores e servidores do estado, inclusive destas próprias instituições. A Lei de Diretrizes Orçamentárias, em fase de sanção pelo Governador, garantiu, como faz há décadas, as vinculações de receitas para as universidades e para a Fapesp. A proposta, enviada ao Legislativo, busca dividir entre toda a sociedade os ônus da crise da saúde e econômica, fazendo com que recursos que sobrem em alguns órgãos sejam redirecionados para despesas com falta de recursos. Certamente, não é justo que a população mais carente fique desassistida em medicamentos ou no atendimento à saúde, enquanto as universidades e a Fapesp podem ficar com sobra de recursos em caixa.”