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Jornal da Tarde

Aluno da Unesp cria computador do futuro

Publicado em 06 março 2003

Por DANIELA TÓFOLI - Jornal da Tarde
Um supercomputador que faz o trabalho de 30 dias em apenas 12 horas, que ajuda os cientistas a encontrarem remédios contra o câncer e a tuberculose e que se fosse comprado da IBM custaria quase R$ 5 milhões foi desenvolvido por um estudante da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em dois meses e custou apenas R$ 60 mil. João Carlos Camera Júnior, de 22 anos, aluno do último ano do curso de matemática em São José do Rio Preto e pesquisador do projeto "Genoma Estrutural" da Unesp, não agüentava mais a lentidão dos computadores comuns toda vez que os cientistas iam testar um novo modelo de molécula tridimensional. Por precisarem de muita memória - já que as estruturas moleculares são muito grandes, com cerca de 35 mil átomos -, as máquinas travavam toda hora e atrasavam o trabalho. Foi então, em 2001, que o estudante soube que o Centro Técnico Aeroespacial, em São José dos Campos, estava montando um supercomputador. Com a ajuda de um professor da Unesp, conseguiu ser aceito em um estágio de dois meses e partiu para acompanhar o trabalho. "Em São José, eles montaram um supercomputador com sete PCs interligados que faziam cálculos de matemática pura", conta. "Ao voltar para a Unesp, resolvi fazer o nosso e levei dois meses na montagem. Mas ele deu problema porque aqui precisávamos de um computador para fazer desenhos de estruturas moleculares e não cálculos matemáticos." O problema não precisou de mais do que três semanas para ser resolvido. João Carlos fez as adaptações necessárias e colocou o supercomputador - que tem 16 PCs interligados - para funcionar. Tudo com R$ 60 mil bancados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "O que levava um mês para ser feito, passou a ficar pronto em meio dia", conta o orientador do projeto, Walter Azevedo Júnior. "E não temos mais de esperar o computador destravar." O PRIMEIRO SOFTWARE FOI AOS 8 ANOS O supercomputador do estudante não trava nunca. Em abril ele completará um ano funcionando 24 horas sem nenhum problema. "A Unesp já tinha comprado uma máquina da IBM mas, além de custar uma fortuna, não era adaptada para os sistemas biomoleculares." A paixão de João Carlos por computadores começou na infância. Aos 8 anos, ele ganhou um 286 dos pais e o direito a aulas de informática. Depois de dois encontros com o professor, já montou seu primeiro software: um programa para gerenciar o movimento de um salão de cabeleireiro que ficava na vizinhança. "A partir daí, não parei mais de programar computadores. Entrei em matemática na Unesp e continuei na área de administração de rede." Até as horas livres ele passa em frente do computador. "É um vício, fico até as 3h da manhã trabalhando, sem contar os fins de semana. Só troco a tela por um bom churrasco com os amigos." Agora que está acabando a graduação, ele vai decidir onde fará sua pós. Já recebeu três convites e até a China está interessada em conhecer sua tecnologia. "Ainda não decidi o que fazer, mas devo sair do País. Quero trabalhar em uma grande empresa farmacêutica e aqui, infelizmente, não há campo." MÁQUINA AJUDA NA CURA DA TUBERCULOSE Graças ao supercomputador, a equipe do "Genoma Estrutural" da Unesp de São José do Rio Preto já conseguiu descobrir urna substância capaz de inibir a ação da tuberculose. Agora ela está em fase de testes e, se aprovada, poderá ser usada no combate â doença. O supercomputador ajuda os cientistas a testar virtualmente substâncias que se encaixam com as moléculas de vírus ou bactérias. "Com o projeto Genoma, os pesquisadores conseguiram mapear a seqüência de proteínas de algumas moléculas", explica o orientador do projeto e professor de biofísica Walter Azevedo Júnior. "Agora estamos determinando a estrutura tridimensional dessas proteínas para desenvolver alguma substância que bloqueie sua atuação." Ê como se a proteína fosse a fechadura e os cientistas estivessem buscando a chave. "Só que antes de achar a chave, precisamos saber como é a fechadura de cada molécula." E é aí que o supercomputador atua. Além de ajudar a fazer os desenhos, ele permite que se crie milhões de chaves para cada fechadura e que elas sejam testadas rapidamente. "Já encontramos um inibidor que se encaixa na molécula da tuberculose e os testes virtuais deram certo. Cada vez mais a medicina vai depender da computação para desenvolver remédios e salvar vidas."