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Gazeta de Limeira online

Aluna de Limeira auxilia em processo que limpa águas residuais sem química

Publicado em 18 julho 2010

Por Renata Reis

Maiara Pereira Assis, graduanda do curso superior de tecnologia em Saneamento Ambiental e Controle Ambiental, da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, em Limeira, auxiliou trabalho científico em que a desinfecção das águas sem a utilização de produtos químicos é possível. O Jornal da Unicamp destacou o trabalho na edição de 14 a 20 de junho. Confira a reportagem de Carmo Gallo Neto, do Jornal da Unicamp.

"A deterioração progressiva e crescente da água potável provocada pela atividade industrial, pela expansão e desenvolvimento agrícola e pelo aumento do esgoto doméstico decorrente do adensamento populacional, constitui preocupação constante e é tema recorrente nas sociedades modernas. A desinfecção das águas e a eliminação de substâncias nocivas residuais tornaram-se questões de saúde pública e têm implicações na preservação dos ecossistemas.

Essa desinfecção é normalmente feita com a utilização de produtos químicos. Este fato sugere que os desenvolvimentos de processos para esse fim estejam afetos aos químicos e engenheiros químicos. Por isso, causa inicialmente estranheza que esse estudo esteja na agenda do Laboratório de Hidráulica e Mecânica dos Fluidos da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC), da Unicamp.

Foi a desinfecção das águas residuais que efetivamente propôs o professor José Gilberto Dalfré Filho, da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp, em colaboração com a professora Ana Inés Borri Genovez em trabalho que tem também a participação da aluna de iniciação científica Maiara Pereira Assis, graduanda do curso superior de tecnologia em Saneamento Ambiental e Controle Ambiental, da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, em Limeira.

A estranheza se desfaz com a informação de que se trata de um processo físico de desinfecção e não químico e que, portanto, não leva à formação de outros compostos tóxicos como pode ocorrer nos tratamentos com cloro, que originam organoclorados, criando mais problemas para o meio ambiente.

Para realização do trabalho, o pesquisador adaptou um equipamento tipo jato cavitante, que consome menos energia quando comparado a outros que geram cavitação. Segundo ele, os ensaios realizados em laboratório permitem concluir que o jato cavitante é adequado para a desinfecção de água e permite vislumbrar a possibilidade de sua utilização em larga escala. Embora parte dos ensaios esteja em andamento, os estudos se orientam na destruição de micro-organismos e na degradação de moléculas orgânicas, a exemplo das constituintes dos corantes, descartados em efluentes industriais.

O INÍCIO

O professor Dalfré valoriza o caminhar pelo seu significado e até por razões sentimentais. De início, lembra que o pai, um tio e posteriormente o irmão, também cursaram engenharia civil na Unicamp. Durante a graduação dedicou-se à iniciação científica, já sob orientação da professora Ana, quando estudou a erosão de superfícies submetidas à ação de mistura de água e sólidos. Esse tipo de erosão ocorre, por exemplo, em vertedores de barragens de concreto em que circulam as águas de rios que carreiam sólidos. Diante da constatação de que a erosão dessas superfícies era muito mais danosa quando provocada pelo fenômeno da cavitação, dedicou-se no mestrado a simular seus efeitos em laboratório.

Ainda com a mesma orientadora, continuou o trabalho no doutorado, porque muitos detalhes aguardavam esclarecimentos e parâmetros de ensaios precisavam ser devidamente calibrados. "Nesta fase ampliei os estudos e cheguei a mais detalhes sobre a natureza da cavitação, de como simular a erosão e a determinar a resistência das superfícies. A partir daí, me ocorreu a ideia de aproveitar as pressões geradas na cavitação para romper e consequentemente destruir micro-organismos, como se estes recebessem uma pancada. Trata-se, portanto, de um processo puramente mecânico. Depois do pós-doutorado, mostrei a viabilidade do projeto à Fapesp, que se dispôs a financiá-lo", explicou.

O pesquisador faz questão de enfatizar a natureza do trabalho desenvolvido, que serve de exemplo de como uma pesquisa pode levar à outra. Lembra que durante a graduação não vislumbrava a possibilidade que veio a se desvendar: "Cursando uma disciplina, sou levado à iniciação científica, que me desperta para outro processo. Durante esse novo estudo, olho mais adiante e vejo uma utilidade que vai além do que eu imaginara inicialmente e que poderia trazer ganhos para a sociedade. O processo desenvolvido permite eliminar no tratamento de águas o uso de substâncias químicas que geram produtos que podem ser nocivos ao ambiente e às pessoas".

BACTÉRIAS

Esse efeito pode ser utilizado para destruir bactérias e outros organismos patogênicos e degradar moléculas, que dão origem a outras menores. Maiara lembra que nas simulações estudaram a desinfecção de micro-organismo utilizando bactérias Escherichia coli, por constituírem organismos mais simples que os protozoários. A professora Ana afirma que para a degradação de compostos orgânicos o estudo mostra-se muito mais complexo e exige uma abordagem multidisciplinar em que atuem químicos, biólogos, sanitaristas.

Dalfré esclarece que nas pesquisas de laboratório são utilizados cerca de 40 litros de água. O emprego do processo em efluentes ou estações de tratamento de água exigirá estudo para determinar as condições de viabilidade. Maiara destaca que, na indústria, o tratamento de resíduos é feito nas próprias etapas em que são gerados e com isso evita-se seu acúmulo no efluente final. O processo em questão pode ser utilizado tanto nas várias etapas de uma produção industrial como no descarte final."