Notícia

O Imparcial (Presidente Prudente, SP) online

Alto Paraná abriga cerca de 400 onças-pintadas

Publicado em 02 fevereiro 2014

Por Iury Greghi

O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) divulgou recentemente no um estudo em que revela a existência de menos de 250 onças-pintadas adultas na Mata Atlântica. Dessa forma, o bioma estaria na iminência de perder um de seus mais ilustres moradores e que ocupa o topo da cadeia alimentar. A carta de alerta foi publicada na edição de novembro da revista Sciencee repercutiu na imprensa internacional. Os dados, entretanto, não são unanimidade no meio científico. Para o coordenador de estudos e pesquisas do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Projeto Ipê), Laury Cullen, a população do animal na floresta é no mínimo quatro vezes maior. Apenas na região das Florestas do Alto Paraná, no qual o Pontal do Paranapanema está incluído, o instituto estima a presença de aproximadamente 400 animais, a maior concentração do animal em todo o bioma.

Segundo o estudo do Cenap, grupo administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a principal causa do declínio na população de onças-pintadas é a caça realizada por pecuaristas, já que o animal é tido como uma ameaça aos rebanhos. Para Cullen, o argumento perde força na medida em que a pecuária está em baixa no interior paulista e paranaense. Na 10ª Região Administrativa do Estado, o efetivo bovino caiu 18% em 10 anos, entre 2002 e 2012.

As pastagens foram ocupadas majoritariamente por lavouras de cana-de-açúcar, cuja área plantada aumentou quase cinco vezes no mesmo período, indo de 103 mil hectares (ha) para 496 mil ha. “Onça ataca os bois, mas não come cana”, ilustra o pesquisador. “Devemos ressaltar o mérito do estudo do Cenap, pois o alerta atrai a atenção da comunidade e do poder público para a causa. Mas, pela nossa metodologia, a realidade é mais otimista”, declara.

Preservação da espécie

A maior concentração de onças-pintadas está nas unidades de conservação do Alto Paraná, entre elas, o Parque Estadual do Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio. Pertencem à mesma ecorregião o Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, no Mato Grosso do Sul, Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e o Parque Nacional de Ilha Grande, entre os dois Estados. “A ampliação das unidades de conservação e a redução dos conflitos com caçadores trouxeram novas perspectivas para a espécie”, relata Cullen.

A pesquisa do Cenap foi realizada com a participação de professores da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e financiada pelo Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). De acordo com o professor do Departamento de Genética e Evolução (DGE) da UFSCar e coautor do texto, Pedro Manoel Galetti Junior, o cenário atual é, de fato, preocupante e o eventual desaparecimento da onça-pintada causaria um aumento desmedido na população de predadores intermediários, como jaguatiricas e outros carnívoros. “O predador de topo de cadeia tem um papel de regulação do ecossistema e, quando ele desaparece, um distúrbio é criado. Isso pode causar a extinção de algumas espécies, até que o ecossistema encontre um novo equilíbrio”, disse Galetti, por meio da Agência Fapesp.

Avanço da ciência

Para o ambientalista e presidente da Associação em Defesa do Rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar (ONG Apoena), Djalma Weffort, as divergências, na verdade, trazem benefícios para a preservação da espécie, uma vez que estimulam o diálogo no meio científico e a busca por soluções conjuntas. “As duas instituições são sérias e formadas por profissionais que estão verdadeiramente preocupados com a Mata Atlântica e com os animais que a habitam. Quanto mais avançarmos em pesquisas científicas, maiores serão os benefícios à natureza”, diz.

A iniciativa de enviar o alerta para a revista Science surgiu após uma reunião promovida em setembro de 2013 pelo Cenap com o objetivo de elaborar um plano estratégico para a conservação da onça-pintada na Mata Atlântica. De acordo com os especialistas, a medida mais urgente a ser tomada para salvar a onça-pintada seria o aumento da fiscalização para evitar a perda de indivíduos tanto pela caça quanto pela redução do ambiente causada pelo desmatamento ilegal.

DA REDAÇÃO