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Alterações imunológicas são principal causa de aborto espontâneo recorrente

Publicado em 18 setembro 2007

Alterações de ordem imunológica são o principal fator causador do aborto espontâneo recorrente, que é caracterizado pela perda sucessiva de três ou mais gestações antes da vigésima semana de gravidez.

A fim de compreender melhor o mecanismo do problema - que afeta cerca de 5% dos casais em idade fértil - e aprimorar os tratamentos, um grupo de médicos decidiu criar a Rede Brasileira de Imunologia da Reprodução Humana, que será lançada oficialmente no 52º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, entre 13 e 17 de novembro, em Fortaleza.

De acordo com o cordenador da rede, Ricardo Barini, que é professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os principais objetivos da iniciativa são divulgar a imunologia da reprodução, criar uma base nacional de dados e estimular o debate sobre publicações na área.

Participam especialistas no tratamento de abortos de repetição em São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Florianópolis.

O pesquisador, que também coordena o Ambulatório de Aborto Recorrente da Divisão de Reprodução Humana da Unicamp, foi responsável pela introdução no Brasil de vacinas que corrigem o fator imunológico, viabilizando a gravidez em 85% dos casos.

"Em estudo que realizamos no ambulatório em 2006, verificamos que a causa mais freqüente do aborto recorrente foi o fator imunológico. Dentro disso, 94% dos casos estavam ligados ao fator aloimune", disse disse Barini à Agência Fapesp.


Rejeição ao feto

O fator aloimune é um processo de rejeição do feto pelo sistema imunológico da mãe por falta de anticorpos bloqueadores que protegem as células embrionárias. O pesquisador explica que esses anticorpos protegem o feto contra os fatores de agressão do organismo materno. Quando a mãe não os produz, o bebê não pode se desenvolver.

Segundo Barini, nesses casos o organismo da mulher não consegue adaptação imunológica para as características do homem, uma vez que não produz anticorpos contra os antígenos desse. A vacina então é produzida com glóbulos brancos do pai e introduzidas no organismo da mãe, fazendo com que ela produza os anticorpos bloqueadores, impedindo a interrupção da gravidez.

"Esperamos que a criação da rede facilite a descoberta de outros mecanismos ligados ao problema. Sabemos que a vacina muda o comportamento da resposta da mulher para a gravidez. Queremos saber como essa resposta se expressa na verdade e até que ponto há outras alterações não ligadas ao aspecto imunológico", disse.

Além do fator aloimune, os abortos de repetição podem ser causados também pelo fator auto-imune, segundo Barini. Trata-se de reações de auto-agressão imunológica - em que o organismo da mãe gera substâncias contra partes específicas do seu organismo - que, em vez de promover auto-agressão, podem ser eventualmente nocivas ao feto.

Os casos ligados ao fator auto-imune, no entanto, são bem menos freqüentes. "Mas, quando estão associados aos fatores aloimunes, as chances de sucesso do tratamento são bem menores", afirmou o professor. Além das alterações imunológicas, as perdas espontâneas podem ser causadas também por problemas genéticos, anatômicos, infecciosos ou hormonais.

*Com informações da Agência Fapesp