Notícia

GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade

Alimentos - Muito mais terra à vista

Publicado em 22 julho 2008

Por Thiago Romero

Agência FAPESP – Muitas são as críticas recentes que associam a alta na cotação de preços dos alimentos em nível internacional com o suposto aumento da produção de biocombustíveis, cenário que faz com que o Brasil seja fortemente acusado por outros países como um dos principais responsáveis pelo problema.

Levantamentos sobre a produção dos dois tipos de produtos, no entanto, mostram que essa hipótese não é verdadeira: diferentes estudos realizados no país e no exterior mostram, de fato, o acréscimo no preço dos alimentos produzidos em todo o mundo.  Mas é importante lembrar que esse aumento ocorreu, progressivamente, também em outros setores da economia mundial, afetando commodities como petróleo, cobre e alumínio.

O quadro foi apresentado na semana passada em conferência proferida pelo reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Tadeu Jorge, na 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Com base em estudos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Tadeu Jorge destacou que a soja e o arroz foram os alimentos que tiveram o maior aumento de preços entre 2000 e 2008.  O custo da unidade da saca da soja pulou de US$ 11,40 para US$ 28,70 no período, enquanto o arroz passou de US$ 7,25 para US$ 28,41 e, o milho, de US$ 5,31 para US$ 14,18.

Ao mesmo tempo, os preços do barril do petróleo subiram de US$ 28 para cerca de US$ 150, acompanhado por elevações nos valores do cobre, cujo preço pago por tonelada no mercado internacional subiu de US$ 1,8 para US$ 8 de 2000 a 2008, e nos preços do alumínio, que também aumentou de US$ 1,54 para US$ 2,85.

"Essa tendência de alta muito semelhante entre as commodities é uma forte evidência de que não há relação direta da alta de preços dos alimentos por causa dos fatores relacionados com a produção de etanol.  Acredito que ninguém tenha substituído a produção de petróleo ou alumínio para dar lugar ao plantio de cana para produção de etanol ", disse o também professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp.

"Estamos diante de uma questão mais puramente econômica do ponto de vista global, do que propriamente um problema localizado.  Uma das conclusões para o aumento significativo dos preços é o crescimento da demanda mundial por diversos tipos de alimentos, que é o tipo de demanda que cresce mais cedo e mais rápido quando há aumento de poder aquisitivo da população”, disse.

Gráfico da área plantada

Após analisar os números de área plantada para a produção de diferentes tipos de alimentos no Brasil, Tadeu Jorge citou o exemplo da área plantada de arroz, que vem caindo no Brasil, passando de 6,6 milhões de hectares na safra 1980/81 para cerca de 3 milhões na safra 2005/06, devido, segundo ele, principalmente ao aumento do rendimento das novas variedades do grão, e mais uma vez não pela expansão da cana.

Embora a área plantada de arroz tenha caído, a produção do grão subiu de 10,5 milhões de toneladas na safra 1986/87 para 11,7 milhões de toneladas em 2005/06.  De acordo com ele, a área plantada de soja no Brasil subiu de 8,6 milhões de hectares na década de 1980 para mais de 22 milhões de hectares na safra 2005/06.

“Isso significa que o Brasil está ofertando mais soja no mercado internacional e, mesmo assim, os preços desse grão continuam subindo, o que rigorosamente não tem nada a ver com substituição de área de soja no país para o plantio de cana”, disse.

“Não há parcela de responsabilidade do etanol brasileiro na questão do preço dos alimentos no mercado internacional.  A agropecuária é um negócio e, como qualquer outro, quando a demanda aumenta quem produz alimentos quer ganhar mais dinheiro", pontuou o engenheiro de alimentos.

Tadeu Jorge mostrou dados sobre o uso da terra no Brasil, que destina cerca de 237 milhões de hectares para pastagens, o que representa 81% da área agricultável utilizada no país atualmente, 21 milhões de hectares para soja (7%), 12 milhões de hectares para milho (4%) e 5,4 milhões de hectares para cana-de-açúcar (2%), sendo que 60% da produção de cana no país está concentrada no Estado de São Paulo.

Laranja ou cana-de-açúcar?

Tadeu Jorge afirmou ainda o que talvez muitos brasileiros gostariam de ouvir: o Brasil tem potencial para compatibilizar a demanda por álcool e a produção e exportação de alimentos.  “Essas são duas grandes oportunidades distintas que hoje se oferecem para o Brasil no mercado internacional”, ressaltou.

“O país tem terra suficiente para plantar as culturas de interesse de acordo com as tendências internacionais, seja laranja, para que continue na liderança mundial de exportação de sucos da fruta, ou cana para a produção de etanol.  Se estamos falando de um negócio, o que interessa é o valor econômico”, disse.

Dos 851 milhões de hectares de área do território brasileiro, 470 milhões não podem ser usados por serem considerados herança para o futuro da humanidade, que são as áreas da Amazônia e outros biomas e reservas do país, além dos centros urbanos.  Do total do território, 220 milhões de hectares são usados ainda para a produção animal e cerca de 70 milhões de hectares são as áreas utilizadas atualmente no agronegócio.

“Temos pelo menos 90 milhões de áreas agricultáveis, ou seja, que têm vocação agrícola e que teoricamente estão prontas para uso em nosso país.  Temos uma área potencial maior do que toda a que está sendo usada hoje.  Nenhum outro país no mundo possui uma condição como essa: uma área potencial que pode ser usada para aumentar a produção agrícola nacional sem causar nenhum dano ambiental”, afirmou.

Entretanto, para utilizar toda essa área agricultável de maneira sustentável, na visão do reitor da Unicamp, o Brasil necessita de uma política agrícola diferente de todas que o país já teve.  “Precisamos de uma política agrícola fundamentada nos conceitos da agropecuária a fim de qualificar toda a cadeia produtiva do agronegócio brasileiro, que ainda tem muitas características de empirismo e amadorismo”, observou.

 “O Brasil já contou com muitos planos econômicos voltados a setores específicos da agricultura, o que também é importante, mas não é disso que precisamos para darmos conta do crescimento da produção de etanol sem que isso ocorra em detrimento da produção de alimentos”, explicou.

A importância de investir nesse setor Tadeu Jorge deixou bem claro: o agronegócio é responsável por aproximadamente 36% do total das exportações brasileiras, responde por 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e emprega cerca de 37% da população brasileira.  “Sempre ouvimos falar que o Brasil é o celeiro do mundo e iria abastecer o mundo inteiro. De fato a verdadeira vocação brasileira é o agronegócio”, defendeu.

Tadeu Jorge mandou ainda um recado para a comunidade científica, alertando para o fato de que o debate sobre a produção de alimentos e de biocombustíveis no Brasil tem sido conduzido de maneira bastante parcial: "Os setores olham essa questão de acordo com seus interesses e teorias, mas na academia essa visão deve ser analisada em suas múltiplas facetas, de preferência sem muita paixão", disse.