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Associação Paulista de Jornais

Alimento preparado em pote plástico pode estimular câncer

Publicado em 10 agosto 2011

Por Maria Stella Calças

Uma pesquisa da Unesp de Rio Preto mostra que ingerir alimentos aquecidos em recipientes de plástico pode causar inúmeras doenças do sistema reprodutor, inclusive câncer de próstata, mama e útero. Isso acontece porque o plástico aquecido libera uma substância chamada Bisfenol A, que é absorvida pelo organismo ao ingerir os alimentos.

"Esse subproduto do plástico causa defeitos no desenvolvimento dos órgãos. Esse material gradativamente ocupa lugares onde os hormônios atuariam, causando mudanças nas estruturas celulares dos órgãos", explica o professor de biologia celular do Ibilce e coordenador da pesquisa, Sebastião Roberto Taboga. Além dele, participam das experiências os alunos do curso de Química Ambiental do Ibilce, Bruno Corte Alves de Souza e Egon Garcia.

Ao tomar o lugar que seria ocupado pelos hormônios no organismo, o Bisfenol A causa, a longo prazo, doenças nos órgãos sexuais. "O Bisfenol é muito parecido com o andrógeno e o estrógeno, que são hormônios principalmente sexuais. Por isso, as doenças são na maioria das vezes relacionadas à próstata, ao útero, ovários e mamas", afirma Taboga.

Durante o primeiro ano do estudo, que começou em 2010, a equipe aplicou doses extremamente altas da substância em ratos para analisar que danos seriam causados. "Observamos a feminilização de alguns órgãos. Foram encontrados casos de hipogonadismo (diminuição dos testículos), ovários policísticos, subfertilidade e até infertilidade. Além de câncer de próstata, nos animais com pré-disposição", diz o professor.

Segundo Taboga, pesquisas mostram que os riscos da absorção do Bisfenol A são maiores para os homens do que para as mulheres. "O Bisfenol tem uma afinidade maior ao receptor de estrógeno (presente em maior quantidade nas mulheres) do que com o andrógeno (presente em maior quantidade nos homens). Pode causar o que a gente chama de feminilização de alguns órgãos do menino (crescimento das mamas, diminuição dos testículos, infertilidade). Na menina causa efeito, mas como ela tem muitos receptores de estrógeno, esse efeito é menor."

Numa segunda fase da pesquisa, que recebeu financiamento de R$ 400 mil (R$ 300 mil da Fapesp e R$ 100 mil do CNPq), os estudantes vão quantificar a porcentagem de absorção da substância e as doenças causadas por essa exposição ao produto.

Cuidados

O professor alerta, principalmente as mães, para que a exposição ao Bisfenol A seja menor desde a infância, causando menos acúmulo da substância, que não é liberada pelo organismo, e consequentemente, menos problemas no futuro. "Como o Bisfenol afeta o desenvolvimento do organismo, alguns cuidados podem diminuir o impacto", diz Taboga.

A primeira medida a ser tomada é não utilizar recipientes de plástico para aquecer líquidos ou alimentos no micro-ondas. "O aquecimento por si só já faz com que o plástico libere mais Bisfenol, mas as micro-ondas do aparelho aumentam muito essa liberação", explica o professor. Além de utilizar sempre recipientes de vidro para aquecer os alimentos, os pais também devem tomar cuidado para não deixar os brinquedos de plástico das crianças expostos ao sol, e sempre que possível, utilizar bicos de mamadeira e chupeta de silicone, porque o material não libera o Bisfenol A.

Taboga alerta que hoje já existem no mercado recipientes, brinquedos e outros produtos de plástico (como pratos e mamadeiras) feitos com materiais que não liberam o Bisfenol A. "As mães devem observar nas embalagens a mensagem "Bisfenol Free". Esses produtos são mais caros, mas podem ser utilizados com segurança."

Doenças surgem mais cedo

O urologista Fernando Nestor Facio Júnior, chefe da disciplina de urologia da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), afirma que o acúmulo do Bisfenol A - subproduto do plástico - poderá, futuramente, explicar o surgimento precoce de muitas doenças que normalmente só se manifestariam mais tarde. Segundo o especialista, hoje já são vistas mudanças no desenvolvimento de problemas na próstata, como o hipogonadismo (diminuição dos testículos pela produção de pouca testosterona). Há menos de uma década era registrado apenas em senhores com mais de 60 anos, e agora já está sendo encontrado em homens a partir dos 50 anos.

"Não sabemos o porquê dessa diminuição de dez anos no aparecimento dessa queda hormonal, que, nos homens mais novos, acarreta outros problemas como obesidade, alterações cardíacas, infertilidade. Pode ser que no futuro essa pesquisa (do Ibilce) mostre a ligação disso com a absorção do Bisfenol A pelo organismo", diz Facio Júnior.

Mudança de hábito

O urologista acredita que, caso seja comprovada a participação da substância nesses problemas, haverá uma mudança de hábitos na população. "Cada vez mais utilizamos embalagens plásticas para comer, beber e até nos ambientes o plástico é utilizado. Se essa pesquisa se mostrar verdadeira, acredito que levará também a uma mudança de hábitos da população", afirma. Ele acredita que as próximas gerações poderão apresentar mais sintomas. "Como tem crescido o uso do plástico, é provável que nas próximas gerações tenhamos que dar mais atenção a essas doenças."