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Boletim Behaviorista

Algumas curiosidades sobre o ensino de análise do comportamento nas décadas de 1960 e 1970

Publicado em 14 outubro 2020

Por revistadasrevistas

Apesar de ser uma pessoa que adora pesquisa experimental, tem outro tipo de pesquisa que muito me agrada: estudos historiográficos. Não precisam nem ser estudos formais: adoro ouvir professores contando sobre suas vidas enquanto estudantes de psicologia, sobre eventos com grandes nomes da área, etc. Eu tive o privilégio de poder ouvir algumas das referências da nossa área (por exemplo, a professora Deisy de Souza e o professor Julio de Rose) contando histórias sobre o desenvolvimento da análise do comportamento (AC) no Brasil e fora.

Pensando nisso, escolhi uma pesquisa com enfoque historiográfico para resumir hoje. Roberta Alves e seus colegas Jaqueline Torres, Sérgio Cirino e Rodrigo Miranda publicaram um artigo intitulado “Enseñanza de análisis de la conducta con recursos limitados en Brasil: Una historia con palomas, cartón y creatividad” em 2019, no periódico Revista de Psicología. O trabalho fez uma linha do tempo contando um pouco sobre as dificuldades e percursos de nomes importantes da nossa área.

É comum ouvirmos sobre as inúmeras contribuições de Carolina Bori e Fred Keller para o desenvolvimento da AC no Brasil. Outro nome mencionado em alguns contextos é o de John Gilman (Gil) Sherman, todos colaboradores para o Sistema Personalizado de Ensino (Todorov & Hanna, 2010). Sabemos, no entanto, que nossa área segue crescendo por conta da colaboração de muitas(os) pesquisadoras(es) e professoras(es). No trabalho de Alves e coladoradores (2019), vemos também a importância do trabalho de Ellen Reese, professora americana na Mount Holyoke College (Estados Unidos) e Raquel Kerbauy, professora brasileira da Universidade de São Paulo (USP) para o desenvolvimento da AC no Brasil.

De acordo com os autores do estudo, em 1964, Ellen Reese publicou um manual didático em inglês para conduzir experimentos com pombos. Este manual ensinava alunos como construir uma caixa experimental do zero, o que auxiliou na abertura de laboratórios de psicologia experimental. Além disso, o manual serviu também como base para a construção de um manual brasileiro: o livro “Análise experimental do comportamento: Exercícios de laboratório com pombos”, escrito pela professora Raquel Kerbauy em 1970.

O manual foi uma grande contribuição para a área, facilitando o trabalho de professores e alunos, e permitindo aos alunos “aprender fazendo”. Com a disseminação dos jovens professores que estudaram com Keller e/ou Sherman, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi uma das instituições nas quais haviam professores interessados em ensinar AC, porém sem recursos para a construção dos laboratórios e caixas experimentais. Os autores comentam que, em 1970, a solução para o problema da falta de um laboratório foi a criação de um laboratório improvisado de psicologia experimental em um banheiro da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, acreditam?!

Nesse laboratório/banheiro, os professores podiam utilizar o manual elaborado por Kerbauy para propor os exercícios de prática experimental com seus alunos. Uma dessas professoras era Sonia Castanheira, que acreditava que a prática experimental era importantíssima, conforme relata: “Eu acredito até hoje que ensinar conceitos teóricos sem que o aluno veja como funcionam na prática não faz nenhum sentido. É decorar, não? Tem que fazer” (Alves et al., 2020, p. 4).

Podemos ver, então, que a implementação bem-sucedida dos conhecimentos da AC depende não apenas da vontade de ensinar, mas também de questões materiais, no caso, instalações mínimas que permitam a consecução de experimentos, sem contar todo o contexto sócio-político-cultural mais amplo, que pode fomentar (ou não) a ciência como relevante para o desenvolvimento de uma cultura.

Infelizmente, o cenário atual de pesquisa não é o melhor. Temos visto cortes de investimento massivos na Educação, muitos dos quais estão afetando negativamente o desenvolvimento da psicologia, de maneira geral, e da análise do comportamento, de maneira específica. Apesar dos cortes, seguimos firmes e fortes na tentativa de aprimorar nossa ciência e de manter as instalações de pesquisa já existentes, e cientistas, professores e organizações têm feito movimentos na luta por um maior investimento na ciência.

E você? Conhece curiosidades sobre a implementação e/ou o desenvolvimento da AC na sua instituição? Conta pra gente!!!

O artigo:

Alves, R. G., Torres, J. A., Cirino, S. D., & Miranda, R. L. (2019). Enseñanza de análisis de la conducta con recursos limitados en Brasil: Una historia con palomas, cartón y creatividad. Revista de Psicología, 28(1), 1-5. http://doi.org/10.5354/0719-0581.2019.53940

Referência:

Todorov, J. C. & Hanna, E. S. (2010). Análise do comportamento no Brasil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 26(spe), 143-153. 10.1590/S0102-37722010000500013

Créditos da imagem: https://pixabay.com/photos/animal-mouse-experiment-laboratory-1554745/

Escrito por Táhcita M. Mizael, pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo, e membra do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.