Notícia

Gazeta Mercantil

Algas: pouca concorrência, grande potencial

Publicado em 16 setembro 1997

Por Regina Scharf - de São Paulo
Quando a lua é nova ou cheia, nas praias de Capuí (CE), os pescadores e suas famílias já sabem: é hora de aproveitar a maré baixa para recolher as algas que vêm dar na praia. O trabalho dura apenas seis dias, a cada lua, e o produto da coleta será vendido à Macromar, pequena empresa criada há quatro anos pelo chileno Mario Contreras Vejar. Ela comercializa cerca de 1,5 tonelada por mês de algas do gênero "Gracilaria" branqueadas, limpas e desidratadas. A Macromar faz parte de um grupo de meia dúzia de empresas nacionais dispostas a investir no filão das algas marinhas. O Brasil, dotado de um dos maiores litorais do mundo, ainda não despertou para os usos comerciais desse produto, que pode-abastecer desde indústrias alimentícias e farmacêuticas até laboratórios de análises, além dos previsíveis sushi-bar e restaurantes vegetarianos. Derivados de algas podem ser encontrados em pasta de dente, sobremesas industrializadas, tecidos, remédios e cerveja. Neste contexto, uma só empresa de porte se destaca: é a Agar Brasileiro, que fatura R$ 1,5 milhão por ano e produz, além das algas secas ou salgadas, para saladas, de 6 a 8 toneladas de ágar-ágar e 2 toneladas de carragenana por mês (dois dos principais géis derivados das algas). Segundo Jun Setoguchi, diretor da empresa, isso representa mais de 60% do consumo nacional de ágar-ágar e menos de 1 % do mercado de carragenana. A empresa, que atua em todo o litoral entre Pernambuco e o Ceará, exporta quase metade da sua produção de ágar-ágar para o Japão. No Brasil, seus principais clientes são as indústrias de alimentos. Ela emprega, em sua unidade industrial, em João Pessoa, 52 funcionários, que processam algas recolhidas por mais de 500 caiçaras. No caso da Macromar, do Ceará, o produto é vendido na forma de pó, para farmácias naturalistas, ou ao natural, para restaurantes vegetarianos. A empresa ainda é pequena - fatura menos de R$ 20 mil mensais mas quer crescer. Dentro de dois meses, ela deverá lançar a linha Sea-weed de cosméticos (hidratante, gel capilar e gel para depilação). Assim como a Agar Brasileiro, que tem 24 anos de mercado, a Frutos do Mar, com sede em Fortaleza, coleta algas do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas desde 1974. Segundo Iran Coe Joventino, gerente de produção, a pequena empresa especializou-se na coleta de "Gracilaria", gênero vendido para indústrias japonesas de ágar-ágar. Agora, a Frutos do Mar está investindo US$ 1 milhão na construção de sua própria fábrica de ágar-ágar, com capacidade inicial para produzir 30 toneladas anuais. "O mercado de algas beneficiadas para exportação não é dos melhores", comenta Joventino, justificando o investimento. Especialistas nesse mercado garantem que o consumo interno brasileiro, ainda pequeno, cresce ano a ano. Dados de 1994 indicam que o País gastou US$ 13,5 milhões, naquele ano, na importação de produtos derivados de algas, quase o dobro de 1990. Uma' das explicações para o baixo interesse pelas algas marinhas, no Brasil, está na concorrência do produto estrangeiro - sobretudo chileno e japonês - e na existência de produtos de origem sintética ou animal, que podem substituir as algas em seus vários usos. "As algas integram há séculos a dieta alimentar na China, Japão. Coréia e Filipinas, mas só agora seu consumo começa a aumentar nos Estados Unidos e na Europa", explica o botânico Eurico Cabral, professor do Instituto de Biociências e uma das maiores autoridades brasileiras no assunto. Graças à onda de alimentação natural, os nutrientes encontrados em abundância nas algas conquistam aficionados. É um alimento praticamente sem gordura, rico em vitaminas, sais minerais e proteínas. As algas também são a maior fonte de iodo - raro em organismos terrestres. Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) Cabral e sua equipe vêm trabalhando no levantamento da aplicação econômica de quatro tipos de algas. "No Brasil, fala-se muito do imenso litoral, mas esquece-se de dizer que, apesar da grande diversidade de espécies, temos pouca biomassa", explica Cabral. "E, no caso da alga, isso é um problema, porque ela precisa ser abundante para ser comercial". Na escala em que atuam hoje, as empresas que coletam e industrializam algas têm tido baixo impacto ambiental. "Quando elas sentem que as algas começam a escassear em uma praia, coletam em outra, permitindo que haja regeneração na primeira", explica Eurico Cabral. "Já no Chile, que exporta cerca de US$ 78 milhões anuais em produtos derivados de algas, algumas espécies já estão próximas da extinção". No Brasil, ainda não existem experiências de maricultura de algas em larga escala. Para o professor, esse tipo de produção intensiva, para ser economicamente interessante, não deve ser feito em tanques, que exigiriam o bombeamento de água e nutrientes, mas em pleno mar. Neste caso, um dos caminhos seria amarrar uma série de mudas espaçadas sobre longas cordas dispostas no fundo do mar - um procedimento que exige muita mão-de-obra. "Produzir algas pode não ser um grande negócio, mas processá-las certamente é", raciocina. Uma das variedades de algas mais utilizadas é a "Porphyra", mais conhecida como nori, alga preta empregada para prender o arroz e outros componentes do sushi. Seu quilo pode chegar a US$ 200, mas a grande maioria dos restaurantes brasileiros prefere importá-las do Japão. Os três principais géis derivados de algas são o ágar-ágar, a carragenana e os alginatos, ótimos agentes suspensores, emulsificantes ou geleificantes. Os dois primeiros, extraídos de algas vermelhas, são usados sobretudo na composição de sobremesas consistentes, como o marrom glacê, algumas gelatinas ou balas diet Calcula-se em 8 mil toneladas a produção mundial de ágar-ágar, sendo que o Japão consome, sozinho, metade desse volume. A principal diferença entre o ágar-ágar e a carragenana é que esta pode ser misturada a leite e utilizada na fabricação de pasta de dente, flans e sorvetes. O ágar-ágar também pode ser usado como meio de cultura bacteriológica, em laboratórios farmacêuticos ou de análises clínicas. Já os alginatos, capazes de produzir fibras, são usados, por exemplo, na composição de sorvetes, evitando que empedrem ao congelar. Também ajudam a misturar líquidos imiscíveis, como molhos prontos para salada.