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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Algas podem ajudar no tratamento de aids

Publicado em 07 setembro 2008

Por Washington Castilhos, do Rio de Janeiro

Algas marinhas do litoral brasileiro poderão vir a ser uma importante fonte para o tratamento e a prevenção da Aids nos próximos anos. Três substâncias – de um total de 22 testadas –, obtidas a partir dessas algas, mostraram promissora atividade inibitória do processo de replicação do vírus HIV em suas três fases: na transcriptase reversa, na protease e, o mais importante, na morfogênese, o que nenhum medicamento hoje existente no mercado faz.

Por essa razão, o Brasil poderá ter, em breve, seu primeiro anti-retroviral, reforçando o grupo das 17 drogas (todas importadas) que compõem o protocolo de tratamento do Ministério da Saúde. O anúncio foi feito por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), da Fundação Ataulpho de Paiva (FAP) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) no dia 29 de agosto.

“Esta poderá ser uma nova alternativa no arsenal terapêutico contra a Aids, sobretudo para casos de resistência aos medicamentos tradicionais”, afirmou o imunologista Luis Roberto Castello Branco, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica do IOC.

Nos testes pré-clínicos – in vitro (em tubos de ensaio e com tecidos humanos) e in vivo (camundongos) – uma das substâncias, em particular, identificada a partir de uma alga encontrada no atol das Rocas, apresentou taxa de eficácia em sua ação anti-retroviral de 98%, mesmo se aplicada em baixas concentrações.

Embora os três compostos tenham demonstrado atividade inibidora da transcriptase (enzima que age na primeira fase do ciclo replicativo viral), essa mesma substância se revelou eficaz na inibição da protease (que age no final do ciclo replicativo) e na morfogênese (fase final, quando há a maturação viral). Isto é o que, caso seja transformada em medicamento, fará com que o fármaco brasileiro se destaque entre os atualmente disponíveis.

“Diferentemente dos inibidores disponíveis atualmente, percebemos que essa substância tem uma função de atingir os três alvos: a transcriptase, a protease e a morfogênese. Ou seja, ela bloqueia a fase inicial e a final”, explicou o virologista Cláudio Cirne, da Fundação Ataulpho de Paiva.

“A grande falha dos medicamentos atuais é que eles não conseguem bloquear o escape do vírus, devido à sua capacidade de mutação. Então, se existe uma substância que bloqueia a fase final, inibindo também a morfogênese, sua possibilidade de replicação será mínima. O bloqueio da morfogênese faz com que o vírus fique em uma forma completamente desorganizada em sua estrutura”, afirmou.

O pesquisador observa, no entanto, que o bloqueio da morfogênese não significa a erradicação do vírus no organismo. “O HIV é um vírus com forte capacidade de mutação, por isso ele não vai deixar de existir”, salientou.

Além da ação anti-retroviral, a substância mais promissora das três identificadas apresentou toxicidade praticamente nula. Esta é outra característica que a diferencia dos compostos atuais, os quais, embora eficazes, são extremamente tóxicos e caros.

O desenvolvimento de um anti-retroviral nacional representará também uma alternativa para a dependência estrangeira. O orçamento de 2008 previsto pelo Programa Nacional de DST/Aids é de R$ 1,3 bilhão, dos quais pouco mais de R$ 1 bilhão é destinado aos gastos com medicamentos anti-retrovirais. De acordo com os pesquisadores, a economia poderá ser de 5% a 10%, o equivalente a R$ 50 ou R$ 100 milhões.

Os testes clínicos devem ter início em 2010, na África – continente que tem os mais elevados índices de incidência da doença no mundo – e durar quatro anos. Segundo os cientistas, as diferenças nas subtipagens virais entre Brasil e África não serão significativas para os testes.

“Não estamos desenvolvendo uma vacina, e sim estudando inibidores da replicação viral. Então, fazer o uso do AZT, por exemplo, em um isolado no Brasil e em um isolado na África é a mesma coisa. A enzima, responsável pela replicação, é a mesma aqui e lá”, disse Cirne. (Agência Fapesp)

Microbicida

As três substâncias abriram outra possibilidade para a equipe de pesquisadores do IOC, FAP e UFF: o desenvolvimento de um microbicida de aplicação local. O microbicida é voltado para uso vaginal, permitindo às mulheres que se protejam da infecção pelo vírus HIV mesmo sem o consentimento dos parceiros.

Estudos têm demonstrado a necessidade de uma negociação no uso do preservativo masculino. “Muitos homens não querem usá-lo e, com isso, acabam infectando suas mulheres”, lembrou Castello Branco. Segundo ele, os testes para o uso microbicida das substâncias à base de algas foram exitosos.

“Uma das três substâncias já foi testada em explantes [fragmentos de cérvix uterino humano infectados pelo HIV, mantidos em cultura em laboratório] na Universidade Saint George de Londres e em nosso laboratório no IOC, e está entre as 30 candidatas aceitas pela Aliança pelo Desenvolvimento de Microbicidas, sendo a único da América Latina no grupo”, disse o pesquisador. É também a única à base de algas marinhas.

A grande questão que preocupa os cientistas, no entanto, é que a quantidade dessas algas existentes no Oceano Atlântico, entre a Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e o Rio de Janeiro, é limitada. “Por isso, estamos investigando outras possibilidades de fontes e de metodologias, como a síntese orgânica em laboratório”, disse Castello Branco.

Os nomes das algas ainda estão guardados em sigilo. O estudo está em fase de patenteamento. Se desenvolvidos, os medicamentos anti-retrovirais e o microbicida brasileiros à base de algas marinhas vão representar mais uma esperança para as 33,2 milhões de pessoas infectadas com o vírus HIV no mundo, que teve 2,5 milhões de novos casos em 2007. No mesmo ano, 2,1 milhões morreram infectados. Na América Latina, são 1,6 milhão de pessoas vivendo com Aids, um terço dos casos somente no Brasil. (Agência Fapesp)

EUA identificam “chave” que controla reprodução e peso

Há tempos se sabe que o peso corporal e a fertilidade são características que estão ligadas. Mulheres muito magras, por exemplo, encontram freqüentemente dificuldade de engravidar. Agora, cientistas nos Estados Unidos identificaram uma “chave mestra” que controla tanto o peso como a reprodução.

O trabalho, feito em camundongos por pesquisadores dos institutos Salk e Scripps, foi publicado neste domingo (31/8) no site e sairá em breve na edição impressa da revista Nature Medicine. Segundo os autores, a chave tem funcionamento semelhante em humanos.

O estudo indica que variações no gene que atua como chave mestra, conhecido como Torc1, podem contribuir como um componente genético tanto para a obesidade como para a infertilidade. Tais variações, afirmam, poderiam ser reguladas com novos medicamentos.

“Esse gene é crucial para a cadeia de sinais que circula entre a gordura corporal e o cérebro. Ele deve ter um papel principal em quanto os humanos comem e se terão ou não filhos”, disse Marc Montminy, do Instituto Salk.

Segundo Montminy, o Torc1 é tão importante como a leptina, a proteína que atua diretamente na regulação do apetite. O motivo é simples: a leptina se transforma em Torc1, que, por sua vez, ativa um número de genes conhecidos como atuantes no controle dos processos de fome e da fertilidade.

No estudo, camundongos sem o gene Torc1 nasceram saudáveis e iguais aos demais, mas após oito semanas começaram a ganhar mais peso. Tornaram-se persistentemente obesos na vida adulta, com duas a três vezes mais gordura adiposa do que os outros animais. Também adquiriram resistência à insulina. “Seus hormônios e o açúcar no sangue eram semelhantes aos verificados em humanos com os mesmos problemas”, disse Montminy.

Para surpresa dos cientistas, eles descobriram que camundongos dos dois sexos eram inférteis. Útero e ovários nas fêmeas se mostraram anatomicamente disfuncionais.

O grupo tem estudado nos últimos anos o balanço energético humano e o que pode levar a problemas como obesidade, diabetes e outras síndromes metabólicas. No trabalho agora publicado foram analisados os sinais transferidos entre a gordura corporal e o cérebro, informando o quanto o organismo está alimentado – e quando está saciado.

O hormônio principal que atua nessa função é a leptina, que circula pela corrente sangüínea para o hipotálamo, o centro do apetite, mantendo o cérebro informado a respeito do estado nutricional do indivíduo. A leptina também está envolvida na reprodução, ainda que os cientistas não saibam exatamente como isso ocorre.

“Controlar tanto o apetite como a reprodução resulta em uma grande vantagem evolucionária. Se não há comida, o cérebro acredita que o organismo não deveria reproduzir, porque sem gordura o crescimento do feto seria prejudicado. Alimento insuficiente para suprir as reservas energéticas do corpo implica que não sobrará nada para a gestação dos filhos”, disse Montminy.

Agência FAPESP