Notícia

Jornal da USP

Além dos Mapas

Publicado em 25 agosto 1997

É isso mesmo, Cristina Freire, autora do livro Além dos Mapas - os monumentos no imaginário urbano contemporâneo, foi além dos mapas da cidade, retratando os monumentos lembrados apenas nas memórias de algumas pessoas ou ainda como referenciais estéticos de outras. Formada em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo - também é pesquisadora da arte moderna -, seu livro é resultado de uma tese de doutorado defendida em 1995. "O trabalho é inédito porque tem um enfoque interdisciplinar", garante. Descobrir a relação das pessoas com os monumentos da cidade foi a idéia inicial, que deu origem a cem entrevistas com visitantes de cinco museus de São Paulo: Museu de Arte Contemporânea (MAC), Museu de Arte de São Paulo (Masp), Pinacoteca do Estado, Museu Paulista e Museu de Arte Sacra. "Escolhi ambientes diferentes com freqüentadores específicos, numa abordagem qualitativa, ou seja, verificando a relação afetiva das pessoas com os referenciais", afirma. A partir daí surgiram dois grandes monumentos, que como brinca Cristina, "eles me escolheram e não o contrário". São o monumento ao arquiteto Ramos de Azevedo e o Masp. O primeiro, lembrado por uma geração mais velha, que falava sobre ele como se estivesse desaparecido - foi inaugurado em 1934 em frente a Pinacoteca, removido em 1967 de seu lugar de origem, e desde 1973 está na USP, onde ninguém o vê como referencial histórico. Já o segundo é tido como um espaço artístico tradicional (o terreno foi doado pelo engenheiro uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, que fez uma única exigência: a de manter o belvedere - uma vista panorâmica de onde se via a paisagem da avenida Nove de Julho). Funcionava lá o restaurante Trianon, freqüentado pelos modernistas dos anos 20, que foi demolido em 1950, dando espaço para um pavilhão provisório que abrigou a 1ª Bienal de Artes Plásticas, em 1951. "Atualmente o Masp é considerado um ponto de encontro social e até de manifestações políticas", fala. Mas o mais importante é preservar os monumentos. "Não basta declarar público um patrimônio, é preciso entender os mecanismos da apropriação pessoal, que envolvem a percepção e a memória do povo", conclui Cristina, informando ainda que construir a memória da cidade é um dever não só do governo, mas das próprias pessoas. Além dos Mapas - os monumentos no imaginário urbano contemporâneo é editado pela Annablume, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc) e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), tem 330 páginas e custa R$ 20,00. Pode ser adquirido na Edusp (Av. Prof. Luciano Gualberto, trav. J, 374) ou ainda no Masp.