Notícia

Jornal da Unesp

Além do “teste da orelhinha”

Publicado em 01 junho 2014

Por Elton Alisson e Fernando Cunha, da Agência FAPESP

A realização de testes de triagem auditiva complementares ao exame de Emissões Otoacústicas Evocadas (EOA), conhecido popularmente como “teste da orelhinha”, pode aumentar a precisão e reduzir os custos do diagnóstico de deficiências auditivas em recém-nascidos.

A conclusão é do estudo Programa de Saúde Auditiva Infantil: Triagem Auditiva em Crianças de 0 a 3 Anos de Idade, realizado por pesquisadores do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Ciências, da Unesp, Câmpus de Marília. O projeto tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no âmbito de um acordo com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV). Alguns resultados do trabalho foram apresentados no I Seminário de Pesquisas sobre Desenvolvimento Infantil, no dia 13 de março, em São Paulo.

“Além do exame de Emissões Otoacústicas Evocadas (EOA), a realização de outros testes auditivos pode tornar o diagnóstico de perdas auditivas em recém-nascidos mais preciso”, diz Ana Cláudia Vieira Cardoso, coordenadora do projeto.

DIAGNÓSTICO PRECOCE

Obrigatório e gratuito em todo o país, o “teste da orelhinha” permite o diagnóstico de perda auditiva a partir da presença ou ausência de resposta dos recém-nascidos à emissão otoacústica (de sons provenientes da cóclea, a cavidade em forma de espiral que forma o ouvido interno) produzida por um equipamento portátil. Os bebês diagnosticados são encaminhados a um programa de reabilitação auditiva ou de implante de prótese coclear.

O exame, entretanto, ainda não é realizado amplamente no Brasil em razão do alto custo do equipamento – cerca de R$ 20 mil. Além disso, há casos em que não é possível fechar o diagnóstico apenas com o teste, e os recém-nascidos são encaminhados para exames complementares, fora da maternidade.

Para melhorar a metodologia utilizada no diagnóstico, os pesquisadores realizaram um estudo com 645 crianças, nascidas no período de maio a novembro de 2013, na Maternidade Gota de Leite, em Marília. O “teste da orelhinha” não funcionou para 30 delas. Ou seja, não se chegou a um diagnóstico sobre se tinham ou não deficiência auditiva.

Essas crianças foram submetidas a um segundo teste, chamado Potencial Evocado Auditivo de TroncoEncefálico Automático (Peate-A) – por meio de um equipamento comprado com recursos do projeto –, que detecta de forma rápida a presença de respostas auditivas dos recém-nascidos com intensidades mais fracas. Com esse recurso, os pesquisadores identificaram que apenas quatro tinham, de fato, problemas auditivos. “Felizmente, nenhuma dessas quatro crianças foi diagnosticada com perda sensório-neural, que é irreversível”, contou Ana Cláudia.

Os resultados do estudo foram também apresentados em um encontro da Academia Americana de Audiologia, entre os dias 26 e 29 de março, em Orlando, nos Estados Unidos.

Na avaliação de Ana Cláudia, além do aumento da precisão e da redução do custo do diagnóstico, os exames complementares ao “teste da orelhinha”, como o Peate-A, também aumentam a garantia de a criança com deficiência auditiva ser diagnosticada e receber tratamento apropriado. “Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores são as chances de minimizar as perdas auditivas e as crianças receberem tratamento adequado”, afirma.