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Além de danos nas articulações, chikungunya pode afetar sistema nervoso central

Publicado em 26 agosto 2020

Investigação realizada por equipe internacional de pesquisadores mostrou que o vírus chikungunya pode causar infecções neurológicas

SurtoO trabalho teve como base uma ampla gama de dados clínicos, epidemiológicos e amostras laboratoriais de pacientes que morreram durante o maior surto da doença nas Américas, ocorrido no Estado doCeará, em 2017. Na época, foram registrados 105 mil casos suspeitos e 68 mortes.

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A documentação dos dados coletados durante a epidemia foi realizada pelo Serviço de Verificação de Óbitos da Secretaria de Saúde do Ceará. A partir dessas informações, os pesquisadores puderam avançar nas investigações, realizando um estudo muito completo sobre o surto. Amostras de sangue e líquor dos infectados foram submetidas a métodos de análises genômicas, como RT-PCR (teste capaz de identificar o material genético do vírus) e MInION (tecnologia que permite sequenciar rapidamente o genoma viral). Também foram realizadas análises de imuno-histoquímica (para avaliar amostras de tecidos) e exames para detectar a presença de anticorpos contra o vírus chikungunya.

O patógeno é transmitido por meio da picada de fêmeas dos mosquitoseAedes albopictus. A maioria dos casos da doença é caracterizada pela forma aguda da infecção, com febre alta, dores de cabeça, nas articulações e nos músculos, além de náusea, fadiga e erupções na pele, por três semanas após a infecção. Depois desse período, alguns pacientes podem evoluir para a fase subaguda, com a persistência desses sintomas. Em alguns casos, a dor nas articulações pode persistir por mais de três meses, indicando a transição para o estágio crônico, que pode durar anos.

Além de ter a comprovação laboratorial, os pesquisadores também verificaram os prontuários médicos e observaram que a grande maioria dos infectados que morreram durante o surto no Ceará apresentousíndrome neurológica

– lesões no sistema nervoso central que podem ser altamente incapacitantes por comprometerem as principais funções motoras.“As dores articulares eram bem conhecidas e estão relacionadas com a denominação da doença, que no idioma suaíli significa aquele se dobra [de dor]. No entanto, identificamos também graves problemas no sistema nervoso decorrentes da chikungunya”, diz Souza.

Das 36 amostras de tecido cerebral de indivíduos que vieram a óbito, quatro (ou 11%) continham o microrganismo. “A presença do vírus dentro do cérebro de infectados significa uma caracterização bem clara de que ele consegue ultrapassar a barreira hematoencefálica – que protege o sistema nervoso central – e tem capacidade de causar uma infecção no cérebro e na medula espinhal”, explica Souza.

VulneráveisAlém das novas características da infecção, os pesquisadores identificaram também que o risco de morte nas fases agudas e subagudas era sete vezes maior em pacientes comdiabetes. Os pesquisadores realizaram uma análise patológica e os resultados indicam, nos casos de óbito, a infecção por chikungunya em distúrbios na circulação sanguínea e no equilíbrio hídrico no cérebro, coração, pulmão, rim, baço e fígado.

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“O trabalho confirma algumas observações clínicas prévias da morte por chikungunya e também evidencia novos aspectos da doença e sua letalidade. Essas novas informações, obtidas por meio do estudo minucioso do surto ocorrido no Ceará, deverão contribuir para o reconhecimento de fatores causadores de gravidade, ajudando também, no futuro e a partir de novos estudos, no tratamento”, diz Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, professor da FMRP da USP e coautor do estudo.

Figueiredorealiza pesquisa, apoiada pela Fapesp, sobre sequenciadores de alto desempenho para identificação e caracterização de vírus, sem a necessidade de isolamento e cultivo celular. O método, mais eficiente e barato, utiliza a plataforma MinIon, que faz a leitura do DNA e do RNA em tempo real. Dessa forma, o sequenciamento genético do vírus é obtido em uma única etapa.

Fonte: Estadão