Notícia

Gazeta Mercantil

Álcool provoca 90% das internações por drogas

Publicado em 02 outubro 2001

Por Adélia Chagas - de São Paulo
O uso do álcool foi o principal causador de internações por transtorno mental no País entre 1988 e 1999, respondendo por 90% dos casos, segundo levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A pesquisa também revelou, no mesmo período, um aumento de 4,7% para 15,5% na proporção das internações provocadas pela dependência de outras drogas. No período, as internações por uso de cocaína passaram de 0,8% para 4,6%. Nos dois primeiros anos do trabalho, 88 e 89, a maconha era a droga mais consumida depois do álcool. O levantamento, durante esses doze anos, foi baseado nas respostas de 52% das planilhas de cerca de 450 hospitais psiquiátricos e gerais, clínicas particulares e comunidades terapêuticas de todo o País. Foram contabilizados dados referentes a 726.429 internações. Uma das responsáveis pelo estudo, a farmacêutica Ana Regina Noto, da Unifesp, diz que a pesquisa é importante para demonstrar a tendência dos padrões epidemiológicos, já que não há dados a esse respeito no Brasil. O último levantamento, de 1995, havia sido feito pelo próprio Cebrid. "Não há registros sobre essas doenças crônicas, diferentemente do que acontece com outras epidemias, como a de aids", diz. É fácil confirmar as observações de Ana Regina ao verificar os dados do Ministério da Saúde. Do total das 422.836 internações por causa de transtornos mentais ocorridas no País em 2000, 84.872 são decorrentes do uso de álcool. Mas é impossível saber quais as drogas responsáveis pelas outras 13.086 internações. "Não há registros nem mesmo na Secretaria Nacional Antidrogas", lamenta a pesquisadora. De acordo com Ana, os levantamentos são importantes para servir de base às futuras campanhas de prevenção. Também não há pesquisas nas redes municipal e estadual de São Paulo. Existem apenas levantamentos pontuais como, por exemplo, o do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), do Hospital das Clínicas. Segundo ele, as internações por conta do uso de álcool foram 66% do total, de janeiro a agosto deste ano. 13% foram por causa da cocaína, e os 13% restantes, de outras drogas, como morfina e solventes. O Grea tem seis leitos e atende entre 100 e 120 pacientes por mês. Como lembra o coordenador do grupo, André Mal-bergier, o HC, por ser uma escola, atende a um número menor de pacientes que os hospitais gerais. A internação é feita quando o usuário corre risco de vida ou ameaça outras pessoas por transtornos psicóticos ou quando o paciente não consegue nem mesmo ter o controle sobre o uso da droga para se manter consciente e ir às consultas. O prazo previsto para o tratamento é de cinco anos. Mas, segundo Malbergier, a maioria dos pacientes deixa o tratamento antes de completar um ano. Em 70% destes casos, metade se considera tratado e vai embora e o restante abandona. HOMENS SÃO MAIORIA De acordo com a pesquisa do Cebrid, os homens consomem mais álcool do que as mulheres. Nos 12 anos da pesquisa, a relação foi de 15 homens para 1 mulher no uso de álcool e de 9 homens por 1 mulher no uso dos demais psicotrópicos. O estudo detectou também, em 1999, que o dependente de álcool, em 70% dos casos, tem mais de 30 anos. No que diz respeito às outras drogas, 84% dos dependentes têm menos de 18 anos.