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Revista Brasileira de Risco e Seguro

Álcool em excesso prejudica a regeneração celular. uma saída seria maior ingestão de peixes

Publicado em 25 julho 2007

O ser humano precisa ingerir ácidos graxos essenciais (EFA, na sigla em inglês), que não são produzidos pelo organismo, apesar de necessários para milhares de reações bioquímicas.

De acordo com um novo estudo, homens que consomem álcool em excesso - possivelmente devido a escolhas alimentares pobres - têm deficiência de um tipo de EFA cujos níveis já são baixos nas dietas típicas do Ocidente. A exacerbação dessa deficiência pode causar diversos problemas de saúde.

O estudo, publicado na edição de agosto da revista Alcoholism: Clinical & Experimental Research, foi dirigido por Norman Salem Jr., diretor do Laboratório de Bioquímica e Biofísica de Membranas do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo, nos Estados Unidos.

"Ácidos graxos essenciais são importantes materiais de construção das células vivas, sendo responsáveis por uma parte substancial das paredes celulares. Eles também têm várias funções biológicas e a sua falta prejudica o crescimento, o desenvolvimento e a fertilidade e causa uma série de anomalias fisiológicas e bioquímicas", disse Salem.

Os EFA mais importantes são os ácidos graxos poliinsaturados, especialmente o ácido linoléico (ômega-6), também conhecido como gorduras n-6, e o ácido linolênico (ômega-3), conhecido como gorduras n-3.

"A maior parte dos habitantes de países ocidentais consome quantidades adequadas de ácido linoléico em suas dietas graças ao uso de óleos vegetais. Mas eles tendem a consumir quantidades de ácido linolênico muito abaixo do necessário", disse Thomas Brenna, professor de nutrição humana e de biologia química da Universidade Cornell, outro autor da pesquisa.

"O objetivo do estudo foi investigar a influência do consumo de ácool no desbalanceamento de EFA na dieta ocidental", disse. De acordo com Salem, esse desbalanceamento só se tornou pronunciado no último século e muitos cientistas acreditam que ele seja a causa da escalada de várias doenças comuns na sociedade ocidental.

Os pesquisadores utilizaram dados de 4.168 adultos que relataram consumo de álcool durante a Pesquisa Nacional Norte-Americana de Saúde e Nutrição, realizada em 2001 e 2002. Os participantes também foram entrevistados sobre sua ingestão de EFA durante um período de 24 horas.

Os resultados indicaram que a ingestão de EFA cai conforme aumenta o consumo de álcool, especialmente entre os homens. "Nossa descoberta mais importante foi uma diminuição da ingestão dos EFA n-3 em homens que faziam uso excessivo de álcool", disse Salem.

"Não pudemos avaliar as mulheres que bebiam excessivamente duas ou mais vezes por semana, porque essa população é muito pequena, mas acreditamos que os resultados seriam semelhantes", afirmou. As mudanças encontradas, de acordo com Salem, indicaram que os consumidores de álcool fazem uma seleção de alimentos que tende a reduzir a presença desse importante nutriente.

"Os homens que fazem uso excessivo de álcool têm deficiência das cadeias mais longas de ácidos graxos n-3. São exatamente os ácidos graxos que adquirimos quando comemos peixe, o que sugere, por exemplo, que esses homens comem menos peixe", destacou.


Má escolha do cardápio

O mais alarmante, segundo Thomas Brenna, é que estudos anteriores da equipe mostraram que a necessidade desses nutrientes cresce justamente quando aumenta o consumo de álcool. "Considerando que os níveis de ácidos linolênicos já são baixos em comparação aos níveis de ácidos linoléicos, os resultados são uma razão a mais para a preocupação com a necessidade da ingestão de ácidos linolênicos pelos alcoólicos", disse.

A pesquisa, segundo Salem, ajuda a explicar por que o abuso de álcool leva a perdas nos níveis de gorduras poliinsaturadas na circulação e nos órgãos. "No entanto, a influência alimentar não explica todas as alterações observadas em estudos anteriores sobre modificações nos ácidos graxos em órgãos de alcoólicos. O álcool também tem um efeito no metabolismo do ácido graxo, principalmente por aumentar a quebra de gorduras", afirmou.

Além disso, o álcool teria efeitos fortes, perenes e deletérios no cérebro. "O cérebro depende de um suprimento de ácidos graxos poliinsaturados ômega-3. Os cérebros de homens que consomem altos níveis de álcool são mais comprometidos por uma baixa presença de EFA", destacou Brenna.

"Meu conselho para os que bebem em excesso várias vezes por semana, ou para os que bebem mais de um copo por dia em média, é: pelo menos comam mais peixe para ter certeza de obter pela alimentação os níveis necessários de ácidos graxos n-3", disse o cientista.

Além dos peixes como salmão, cavala, sardinha, anchova e atum, os ácidos graxos n-3 são encontrados em alimentos como óleo de linhaça, nozes, sementes de abóbora, sementes de sésamo, abacate, óleo de canola não refinado e extraído a frio, mostarda e alguns vegetais verdes escuros, como o espinafre.

Fonte: Agência Fapesp