Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP) revelou que 53% das vítimas de mortes violentas no Brasil apresentavam álcool ou drogas no organismo no momento do óbito. A pesquisa analisou 3.577 casos em quatro capitais: Belém, Recife, Vitória e Curitiba, abrangendo as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do país.
O biomédico toxicologista Henrique Silva Bombana, responsável pelo estudo, explica que a pesquisa buscou gerar dados padronizados sobre o impacto das substâncias psicoativas nas mortes violentas. As análises incluíram álcool, drogas ilícitas e medicamentos psicoativos, com rigorosos protocolos para evitar a degradação das amostras. "É crucial que as amostras sejam armazenadas corretamente para garantir a precisão dos resultados", afirma Bombana.
Entre as vítimas analisadas, 90% eram homens e 56% tinham 30 anos ou mais, com 67% dos casos resultantes de homicídios. O estudo também revelou que a cocaína foi detectada em 30% das amostras, enquanto o álcool estava presente em 28%, evidenciando sua relação com acidentes de trânsito. A pesquisa ressalta que a presença de substâncias psicoativas pode ser um indicativo de risco, sem, no entanto, estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
O levantamento foi realizado entre 2022 e 2024, como parte de um convênio entre a USP e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad). As cidades foram escolhidas com base na taxa de mortalidade e na relevância como rotas de tráfico de drogas, refletindo o papel do Brasil no cenário internacional de distribuição de substâncias.
Os dados também apontam diferenças regionais significativas. Em Recife, as mortes estavam mais associadas ao consumo de álcool, enquanto Vitória e Belém registraram maior número de óbitos devido ao uso de drogas ilegais. Curitiba apresentou um padrão misto, com alcoolismo predominando sobre o uso de drogas ilícitas.
Bombana sugere que o enfrentamento do problema deve ser centrado em políticas de saúde pública e redução de danos, ao invés de uma abordagem criminalizadora. O exemplo de Portugal, que adotou a descriminalização do uso de drogas, mostra que uma abordagem mais humana pode levar a uma redução dos índices de violência e dependência.
Com a complexidade do tema, o estudo da USP fornece uma base importante para futuras intervenções e políticas públicas que considerem as especificidades locais e regionais, contribuindo para a redução das mortes violentas no Brasil.