Notícia

Jornal de Jundiaí

Álcool, Bill Gates e Bush

Publicado em 16 fevereiro 2007

Por Carlos Henrique Pellegrini

É preocupante que na controvérsia sobre abastecimento e custo do álcool quase não tenham chegado ao noticiário informações sobre o pior dos custos com a decisão de reduzir de 25% para 20% a mistura de álcool à gasolina para consumo interno: o aumento da poluição atmosférica, principalmente nas grandes cidades, com fortes reflexos para a saúde das pessoas e nos custos da saúde pública, como têm demonstrado vários estudos.
Repete-se o quadro de 2003, no início do atual governo federal, quando, para permitir a exportação de álcool anidro para a Suíça e o Japão, se decidiu reduzir a mistura aqui - aumentado a poluição nas nossas cidades.
Naquele momento, entretanto, tal como agora, passou batido o problema da poluição, encoberto pelas questões econômicas e financeiras. E não deveria ser assim, no momento em que o mundo todo está às voltas também com graves problemas decorrentes da emissão de poluentes que intensificam o efeito estufa e agravam os chamados "desastres naturais". Quem consultar o inventário de emissões que o Brasil apresentou em 2004 verá que já em 1994 as emissões geradas pela queima de combustíveis fósseis - as piores - no País representavam quase um quarto do total brasileiro, que já superava 1 bilhão de toneladas de dióxido de carbono por ano.
A julgar pelo noticiário, parece esquecido o fato de que o etanol vai assumindo um a importância muito grane no panorama energético mundial exatamente porque pode substituir combustíveis fósseis e reduzir o nível de emissões de gases poluentes, previsto para aumentar 60% até 2030. Mas, para agravar o quadro, nossas usinas repetem o procedimento de 1989/1990, quando, para se beneficiar dos preços do açúcar no mercado externo, desabastecido de álcool. Naquele momento, os carros a álcool representavam mais de 90% do mercado de automóveis novos no País. Em seguida, caíram para quase zero, e o mercado do álcool como combustível, só se recuperou mais recentemente, com os carros flexíveis.
Mais grave ainda, as usinas romperam agora o acordo de manutenção de preços que haviam firmado com o governo brasileiro, de novo porque o mercado externo está mais atraente, é o melhor dos últimos 20 anos. Com isso o preço interno do álcool vai de salto a salto. Também os horizontes que se desenham são preocupantes. Afirma-se que os projetos em andamento permitirão aumentar a produção em 20%. Mas o que significará isso diante das projeções segundo as quais, em 2010, o mercado externo para o álcool brasileiro estaria em 15 bilhões de litros (hoje a produção total está em 17 bilhões de litros anuais). Como se vai dar essa expansão? Com que influência nos preços? Começa também uma guerra de informações sobre as reais possibilidades energéticas do etanol e sobre seus custos, incluídos todos os fatores.
Fora os preços, há quem lembre os altos custos, para o consumidor brasileiro, da transferência das culturas de alimentos para regiões muito mais distantes, a partir do início da expansão da cultura da cana, principalmente no Estado de São Paulo. No âmbito da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) se desenvolve um estudo, segundo o qual o álcool representa apenas 30% da energia que pode ser gerada pela cana-de-açúcar. Outras possibilidades estariam na utilização do bagaço peletizado e da palha, aumentando muito a geração de energia. Não por acaso, o homem mais rico do mundo, Bill Gates, anunciou que vai investir no Estado de São Paulo, pois a cana de açúcar aponta para um horizonte realmente promissor.
Quase que imediatamente, o Presidente Bush referiu-se à possibilidade de substituir combustíveis fósseis por etanol "celulósico". Rapidamente o governo Norte Americano anunciou ser o etanol sua nova forma de reduzir suas emissões gasosas, a partir disso o Presidente Bush anunciou sua visita ao Brasil, onde pessoalmente garantirá um suspeito acordo de cooperação técnica e fornecimento. Nem por isso, entretanto, podemos nos furtar a uma discussão mais aberta, nem fazer a sociedade pagar qualquer preço.

Carlos Henrique Pellegrini é professor universitário e Diretor de Gestão Empresarial e de Sucessão Familiar da Maxirecur Consulting. E-mail:
pellegrini@maxirecur.com.br