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Diário do Comércio (SP) online

"Ainda dá tempo. Mas precisamos correr."

Publicado em 06 junho 2010

Diário do Comércio Online - 06/06/2010

Geriane de Oliveira, José Maria dos Santos e Moisés Rabinovici

Não é por acaso que o advogado e administrador de empresas Fábio Feldmann, 55 anos, conduz a principal matéria deste caderno especial do Diário do Comércio que homenageia o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no sábado passado. Desde cedo ele utilizou as duas carreiras que abraçou em favor da militância ambientalista, tanto no campo das leis como na organização dos movimentos preservacionistas em nosso País. Nesse sentido, seu currículo é rico em contribuições pioneiras e expressivas. Fundou a Oikos em 1980; no ano seguinte, uma inédita subcomissão de Meio Ambiente na OAB de São Paulo; em 1986 criava a prestigiosa SOS - Mata Atlântica. A Constituinte de 1988 o recebeu como deputado tucano que introduziu na chamada Constituição Cidadã o capítulo sobre o meio ambiente e a defesa da natureza. Este acúmulo de missões o fez merecer o Prêmio Global, concedido em 1990 pela Organização das Nações Unidas àqueles que se destacam nas causas ambientais e levou-o à política. Foi deputado federal por duas vezes e secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo. Atualmente mantém um escritório de consultoria e mobilização ambiental na Alameda Jaú, na capital paulista, onde prepara no momento sua campanha ao governo do estado pelo Partido Verde. Dois temas estão atraindo sua atenção no leque de propostas que levará aos eleitores. "A primeira é a de desfazer o mito de que a proteção ao meio ambiente não pode ser conciliada com o progresso. E a segunda é de ordem prática: a ameaça do lixo eletrônico. "Os governantes ainda tratam a questão do lixo com a cabeça do século XX", diz ele.

Diário do Comércio - A preservação ambiental sempre esbarra na resistência dos EUA para não falar de outras nações poderosas. Assim fica difícil cumprir um programa global consistente. O senhor é otimista nesse sentido?

Fábio Feldmann - Sou. A situação vem mudando. Há sinais positivos emitidos pelos americanos. Mas lá existe um problema sério que é o voto distrital puro. O parlamentar tem eleições à Câmara a cada dois anos. Está em campanha o tempo todo, focado no seu distrito. Isto inibe uma visão de mundo e afeta mobilizações amplas no país.

DC - Mas o movimento ambientalista conseguirá superar esse não-alinhamento?

Feldmann - As grandes empresas hoje já não são só americanas. Ou francesas. Ou alemãs. São globais e isso pesa a favor do ambientalismo. Nos EUA não há legislação que fixe metas de emissão. Mas as empresas voluntariamente assumem riscos sob o peso dos ventos globais. Eles vão avançar, é inevitável. As últimas edições da influente revista Harvard Business Review traz dois artigos esclarecedores. Um afirma que a sustentabilidade é uma tendência irreversível; outro, que a economia mundial e a americana estão se voltando para produtos e serviços verdes.

DC - Mas às vezes temos a impressão de que o ambientalismo tem muito alarido na mídia e pouco efeito prático.

Feldmann - Não acho. O efeito prático vem da própria performance favorável da economia nesse terreno. A GE, por exemplo, está ganhando muito dinheiro com uma linha chamada "Eco-Imagination". Mas existe de fato o grande conflito entre a sustentabilidade e o padrão de consumo do mundo, que, aliás, está se ampliando para uma população que estava marginalizada. Veja o consumo de carne: na medida em que a base da pirâmide começou a consumir mais proteínas, o impacto no planeta, via produção, ficou maior. Creio que haverá uma mudança de padrão de consumo, mas o dilema da carne é significativo. Ninguém poderá, em sã consciência, dizer a essa população para não consumir carne. Ou não comprar automóvel.

Vista aérea da bacia hidrográfica do Rio Amazonas, em Manaus.C - Se correr bicho pega, se ficar bicho come?

Fábio - Esses problemas não são insolúveis e estarão na esteira da inovação. Um tema presente na agenda do mundo será o da inovação. A própria agenda do ambientalismo está mudando. A maior preocupação era a indústria. Hoje foram acrescentadas a agricultura e a pecuária. A verdade é que o mundo vai ter que produzir mais e consumir menos em todos os campos. Água, carbono e energia estarão obrigatoriamente presentes nessa agenda. Acho que o mundo assistirá a uma revolução tecnológica que será também de arranjos, algo parecido como um período de transição.

DC - Quando o senhor fala em transição, vêm à mente as frustradas tentativas de fixar metas para a proteção ambiental, das quais a conferência de Copenhague é o resumo dos fracassos.

Feldmann - Isso me faz lembrar de quando participei da elaboração da política estadual de mudança de clima de São Paulo. A questão das metas trouxe o impasse. São Paulo não poderia tê-las enquanto não houvesse um programa nacional ou até acordos internacionais nesse sentido. Mas a realidade é que a competitividade da economia paulista ficaria comprometida porque a tendência é incorporar tais programas no terreno da competitividade.

DC - O senhor tem um exemplo dessas metas, digamos, regionais?

Feldmann - Os caminhões de São Paulo: 46% trafegam vazios. Isso incide no aumento do frete, congestionamento, poluição, etc. O exemplo mostra que o mundo não poderá mais desperdiçar. Na Inglaterra o consumidor é aconselhado a comprar menos alimentos para desperdiçar menos, pois quando utilizados ou processados em excesso, os alimentos sobram ou degradam e emitem metano.

DC - Mas é curioso observar que enquanto se fala de aquecimento global, a humanidade enfrenta invernos rigorosos.

Feldmann - A questão do clima não pode ser confundida com períodos particulares. É mais ampla e complexa. Os cientistas não têm dúvidas sobre um fenômeno de aquecimento global causado pelo homem. Isso não significa que vamos ter invernos mais ou menos rigorosos. Essa dedução indica inclusive como a humanidade conhece pouco a complexidade do clima no planeta A propósito, os modelos matemáticos de computador utilizados são normalmente dirigidos para o Hemisfério Norte e não para o Sul. Tanto que a Fapesp com o CNPQ adquiriram um super-computador para pode rodar modelos próprios.

DC - O senhor é do Partido Verde. A candidatura de Marina trouxe impacto na consciência nacional?

Feldmann - Acho que sim. A população, leia-se povão, tem muito acesso a informação. Os temas abraçados por Marina vêm com força e atestam a tendência irreversível da sustentabilidade. A candidatura traz uma questão que conceitualmente é muito importante. Governantes e partidos políticos em geral tratam perifericamente os temas, embora eles tenham se tornados centrais para a economia e políticas públicas. A consciência de que são centrais faz toda a diferença.

Newton Santos/Hype

Fábio Feldman: as grandes empresas, hoje, são globais. E isso pesa a favor do ambientalismo.DC - E o nosso pré-sal. No seu entender, temos preparo para evitar um desastre como o do Golfo do México?

Feldmann - O acidente está dando muitos problemas a mil metros, o pré-sal é de sete mil. No Golfo ficou demonstrada a fragilidade institucional dos órgãos que concederam a licença de exploração. Isso posto, não sou a favor do pré-sal, acho que é do século XIX. Acredito que faltou debate a respeito. Por exemplo. O Brasil vai entrar na Opep? Nas negociações de clima o Brasil vai defender o petróleo? Falou-se apenas em riquezas, em divisão de royalties; o assunto não foi posto num contexto mais amplo.

DC - O mundo ainda tem tempo para reverter o desastre ambiental prenunciado?

Feldmann - Tem. Estou nesta questão há trinta anos e senti uma mudança radical na percepção das pessoas em relação ao problema. Quando comecei, as pessoas achavam algo excêntrico. Há quatro meses participei de uma aula na Fundação Getúlio Vargas. Se eu vou a uma escola desse porte é porque o tema está na agenda; mostra uma mudança de patamar e de consciência inacreditáveis. A mudança é mais radical do que as pessoas imaginam. A Bolsa de Valores de São Paulo tem o indicador de sustentabilidade empresarial. Quem poderia imaginar? Tivemos o primeiro leilão de carbono. Quer dizer: a reputação virou um ativo intangível reconhecido pela nova regulamentação contábil que está surgindo no mundo e a qual Brasil está se adaptando. Isso é muito importante, porque empresas ou agentes econômicos que não se preocupavam com o meio ambiente sentem o risco de reputação, ou seja, o comprometimento do seu principal ativo, que é o intangível. A conferência de Copenhague, com todo o fracasso, recebeu Obama. Para mim, são sinais muito positivos. O maior fracasso seria Obama não ter ido lá ou se não houvesse a mobilização da mídia.

DC - Por falar em presidente, o nosso tem tratado a preservação ambiental com certa ironia. Referiu-se aos bagres que atrapalhavam a construção da hidrelétrica de Belo Monte; idem sobre as pererecas...

Feldmann - Vejo o presidente Lula como um homem do século XIX em termos de meio ambiente, para não falar de século XVIII. Não compreendeu que existe um conflito de geração referente aos governantes - e vale para líderes que estão disputando eleições - do Brasil em relação ao tema. Daí ser mais fácil desqualificar o discurso ambientalista. Lula ainda não compreendeu a questão ambiental e parte para a desqualificação.