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Aids: Em busca de uma difícil — ou improvável — solução

Publicado em 22 agosto 2007

Rolf Zinkernagel, ganhador do Nobel de Medicina, considera "muito pouco provável" que se desenvolva uma vacina contra o vírus da Aids. Edecio Cunha Neto, da Medicina da USP, é mais otimista. Em todo o mundo, cerca de 20 alternativas estão sendo testadas

Washington Castilhos escreve para a "Agência Fapesp":

Novas vacinas contra o HIV/Aids foi o tema mais discutido nesta terça-feira (21/8), primeiro dia de atividades no 13º Congresso Internacional de Imunologia, que está sendo realizado no Rio de Janeiro.

Pertencentes a duas gerações de cientistas que desenvolvem pesquisas sobre a resposta imunológica humana a infecções, o suíço Rolf Zinkernagel, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1996, e Edecio Cunha Neto, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), falaram sobre as dificuldades que o vírus da Aids impõe à comunidade científica mundial.

A principal questão levantada foi quando — e se — será possível desenvolver um imunizante para a doença que afeta mais de 40 milhões de pessoas e já matou mais de 20 milhões. Sobre isso, Zinkernagel se mostrou pessimista.

Em 1996, ele e o australiano Peter Doherty mostraram como os linfócitos T — células que têm como missão matar as células infectadas pelo HIV — reconhecem modificações na superfície celular durante uma infecção.

Antes disso, pensava-se que tais células reconheciam vírus ou bactérias como anticorpos, mas a descoberta dos dois comprovou a existência de uma molécula que captura fragmentos do vírus ou da bactéria e os leva para a superfície. As células T apenas reconhecem essa molécula sem esses pedaços do vírus.

Embora a descoberta tenha trazido enorme contribuição para a pesquisa clínica atual, Zinkernagel destacou que o conhecimento dos pesquisadores de fato cresceu, mas não o suficiente para encontrar soluções que levem ao desenvolvimento de vacinas contra doenças como a Aids.

"Temos vacinas contra a pólio, o tétano e outras infecções, mas não temos um imunizante para a tuberculose, o HIV ou a malária. Por quê? A resposta é simples: os vírus da Aids e da malária mudam o tempo todo. Por conta disso, precisaríamos de vacinas contra uma centena de tipos de vírus. É muito mais difícil criar uma estratégia para desenvolver uma vacina contra a Aids do que uma contra o tétano, por exemplo", disse Zinkernagel à Agência Fapesp.

"Acho muito pouco provável que se encontre uma vacina eficaz contra a Aids. Não é impossível, mas é como se estivéssemos construindo uma bicicleta para ir à Lua, no lugar de projetar um foguete", disse.

Resposta imune

Cunha Neto concordou com Zinkernagel em relação à dificuldade que a capacidade de mutação do vírus HIV traz para a pesquisa, mas discordou da improbabilidade de que um dia se possa chegar a uma vacina.

"Temos alternativas e não podemos deixar de experimentar essas possibilidades. Uma vacina que induza uma resposta celular pode gerar diminuição da quantidade de vírus. Ao controlar a quantidade de células infectadas não haverá mais a diminuição do CD4 [linfócito que indica o estado do sistema imunológico]. Uma vacina que levasse em conta essa abordagem teria um efeito de diminuição da quantidade de vírus", destacou.

A equipe da qual Cunha Neto faz parte trabalha atualmente no desenvolvimento de uma vacina cujo princípio é induzir uma resposta imune dos linfócitos T. "Ou bloqueamos o vírus antes de ele entrar na célula ou não conseguiremos evitar a infecção", disse.

 

"Montamos uma vacina de DNA, contendo fragmentos do vírus, e a injetamos em camundongos para ver a resposta imune dos animais contra esses fragmentos. Quase 10% de todos os linfócitos T dos camundongos responderam à vacina. Se colocássemos 10% das células humanas reagindo contra o HIV, já poderíamos dizer que a vacina é eficaz", afirmou.

Em 2008, o pesquisador deverá começar estudos em humanos para avaliar se a resposta imunológica será a mesma.

Atualmente, cerca de 20 vacinas contra o HIV estão sendo testadas no mundo, duas em fase clínica adiantada: uma desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), nos Estados Unidos, e outra pelo laboratório Merck.

(Agência Fapesp, 22/8)