Notícia

Jornal do Brasil

Aids é mais rápida quando o corpo se defende

Publicado em 30 janeiro 1996

Por MARLENE CIMONS - Los Angeles Times
WASHINGTON - Descobertas anunciadas no mais importante encontro científico americano sobre Aids explicam porque o vírus HIV sobrevive aos mais intensos ataques do sistema imunológico humano. Pesquisas preliminares do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos mostraram que um dos tipos mais importantes de célula defesa do organismo pode simplesmente desaparecer nas primeiras semanas após o contágio. O sumiço das células CTL - um dos muitos tipos de linfócito CD8 -, conhecidas como células T assassinas, permite que o vírus escape e continue se replicando. O resultado dos estudos ajuda a explicar um dos mais persistentes mistérios para os cientistas que lidam com a Aids - que é como o vírus escapa do, ataque do sistema imunológico, eficaz contra a maioria das outras infecções virais. "Essas células atingem a exaustão. Depois de algumas semanas, você não consegue encontrá-las. O HIV escapa porque o mais potente soldado que luta contra ele, a CTL, desaparece", relatou o cientista Anthony Fauci, durante a 3ª Conferência sobre Retroviroses e Infecções Oportunistas, no domingo, em Washington. Fauci é diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas e um dos mais importantes pesquisadores da Aids em todo o mundo. Terapia - A conclusão da pesquisas reforça a idéia defendida por alguns especialistas de que o tratamento da Aids deve começar logo após o contágio. A melhor terapia, dizem, são as combinações de drogas antivirais, que ajudam a driblar a resistência do vírus. Fauci disse que a desaparição dos CTL ocorre em pacientes cujo organismo tenta apresentar resistência ao vírus após o contágio. Ele acompanhou 27 pacientes e diz ter encontrado três diferentes padrões de comportamento imunológico nos primeiros estágios da infecção. Em um deles, houve grande produção de um tipo de célula CD8 - exatamente o grupo de pessoas em que as células T assassinas morreram rapidamente. Nestas pessoas, a doença progrediu logo. No segundo grupo, houve uma produção maior de um ou dois diferentes tipos de células CD8. No terceiro, a resposta foi uma produção difusa de vários diferentes tipos de CD8, ou nenhuma alteração. Este foi o grupo que manteve melhor estado clínico. Fauci também observou que quando as células assassinas não desaparecem, tendem a se acumular na corrente sangüínea. O natural seria que estivessem nos nódulos linfáticos, onde são produzidas e onde mais é mais intensa a reprodução do HIV no início das infecção. "A maioria das viroses não invade os nódulos linfáticos", diz Fauci, que ainda não tem explicação para o disparate. Ironicamente, sempre que são enviados para a corrente sangüínea, os CTL estão à procura de vírus. Em seguida ao contágio, 70% das pessoas sofrem de uma síndrome aguda, caracterizada por sintomas parecidos com os de uma gripe. O HIV se replica intensamente nesse período e grandes quantidades do vírus disseminam-se pelo corpo, especialmente para os nódulos linfáticos. COQUETEL TEM RESULTADO PROMISSOR WASHINGTON - Uma nova combinação de drogas reduziu a presença do vírus da Aids a níveis imperceptíveis em 85% dos pacientes, segundo uma pesquisa apresentada na 3* Conferência sobre Retroviroses e Infecções Oportunistas, em Washington. A associação do medicamento experimental Indinavir com o AZT e o 3TC manteve o HIV indetectável por 24 semanas - tempo de duração do estudo, que acompanhou 32 pacientes. O Indinavir pertence à classe de remédios contra a Aids conhecida como inibidores da protease, recentemente lançada. Este grupo é menos tóxico do que o anterior, o dos inibidores da transcríptase reversa, a que pertence o AZT. A terapia combinada é a alternativa mais promissora para o controle da Aids. Administradas em conjunto, as drogas conseguem driblar por mais tempo os mecanismos de defesa do vírus. Segundo dados apresentados pelo laboratório Merck, entretanto, há indícios ainda não comprovados de que o Indinavir sozinho pode controlar a infecção por um tempo significativo. Um paciente tratado apenas com Indinavir por dois anos passou 18 meses sem apresentar sinais de presença do vírus da Aids. Já a associação de didanosine, ddl, AZT e Indinavir manteve o vírus indetectável por mais seis meses em 30% a 60% dos pacientes