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A Tribuna (Santos, SP) online

Agulhas no cérebro

Publicado em 21 julho 2005

Por Da reportagem

A partir deste mês, subiu de cinco para 15 o número de hospitais que oferecem tratamentos com técnicas orientais no Estado de São Paulo. Entre elas, a acupuntura é a mais conhecida, a mais procurada por pacientes e uma das que mais fascinam os cientistas.
Nas últimas décadas, vários foram os estudos que constatam os resultados positivos dessa prática. Tanto que desde 1995 ela é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina.
O grande questionamento que ainda persiste é saber de que forma agulhas espetadas em mais de mil pontos específicos ao longo do corpo, são capazes de produzir tal efeito terapêutico.
A Ciência, que ainda não tem todas as respostas para esse enigma, comemora cada novo avanço, cada nova descoberta, pois elas significam compreender como funciona o nosso próprio organismo.
É o caso de novas evidências que surgem na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), corroborando a tese de que a ação da acupuntura está intimamente ligada à serotonina — um mensageiro químico (neurotransmissor) que leva informações de uma célula a outra no sistema nervoso central, agindo também como potente analgésico.
"Os resultados mostram que a acupuntura precisa da serotonina para funcionar", disse o neurofisiologista Luiz Eugenio Mello, um dos coordenadores dos estudos, à Agência Fapesp.

Enigma eterno
Para chegar a essa conclusão, a equipe estudou a ação das agulhas contra úlceras gástricas, por meio de cobaias. A técnica usada é conhecida como moxa, na qual um bastão em brasa de folhas secas da planta Artemisia Vulgaris, é usado para aquecer os pontos de energia da acupuntura ou as próprias agulhas aplicadas nesses pontos.
No grupo de ratos que teve a ação da serotonina previamente bloqueada por meio de drogas, as aplicações de moxa não obtiveram o mesmo sucesso do grupo que não recebeu qualquer medicação.
A serotonina atua como um mensageiro primário no sistema nervoso, passando informação de um neurônio a outro. "Quando existe produção de serotonina, os resultados da acupuntura são significativamente melhores", afirmou Mello.
Essa molécula é tão polivalente que atua no desempenho dos músculos, na regulação dos sistemas cardiorrespiratório e endócrino, na temperatura, na percepção sensorial, na aprendizagem, na memória, no comportamento alimentar, sexual e até no humor — ou seja, em praticamente todo o corpo, ao longo do qual estão distribuídos os pontos da acupuntura. 
Apesar dessa ampla variedade de funções como substância neuroativa, o sistema nervoso contém apenas 1% da serotonina existente no corpo. Ela foi identificada em vários animais e plantas — a banana e o abacaxi, por exemplo, possuem grande concentração da substância.
Porém, a serotonina só foi descoberta na década de 1950, persistindo ainda muita dúvida sobre seu real poder. Talvez, o estudo da acupuntura possa elucidar essas questões. O que talvez nunca saibamos, é no que se basearam os chineses, há cerca de 5 mil anos, quando começaram a aplicar suas mágicas agulhas.

Serviço
Em Santos, a Secretaria Estadual da Saúde mantém o Ambulatório de Práticas Alternativas, que além de acupuntura, oferece métodos como massagem e homeopatia. Rua Alexandre Martins, 70, Aparecida.