Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes)

Água é um bem limitado, alerta pesquisador

Publicado em 02 abril 2003

A água é a fonte da vida. Longe de ser apenas um jogo de palavras, a frase tão repetida guarda uma verdade absoluta. Nenhum organismo vivo conhecido pode realizar seu ciclo completo de vida sem a água. A razão óbvia e simples é que todas as células de todos os seres vivas contêm água e vivem em um meio aquoso. Não existe consenso entre os cientistas sobre os eventos iniciais que levaram finalmente ao estabelecimento da vida na Terra, 3 bilhões e meio de anos atrás. No entanto, todos estão de acordo quanto ao meio em que a vida começou: na água. Nessa época o ambiente terrestre era completamente hostil à vida. A água funcionou não apenas como o meio líquido onde as substâncias mais complexas se formaram, ela também protegeu as substâncias da destruição pelos raios ultravioleta, pois a camada de ozônio, que hoje nos protege, não existia. Havia pouquíssimo oxigénio livre e a vida primitiva sem dúvida teve que se desenvolver sem ele e protegida, no fundo das águas, pode se tornar cada vez mais complexa. Passados esses bilhões de anos inúmeras espécies de seres vivos surgiram e desapareceram. Certamente em algum momento a fotossíntese começou e o ar ficou rico em oxigénio. Aqueles seres iniciais tiveram que adaptar-se à nova condição ou perecer. A seleção natural atuou, as novas formas de vida predominantes "mudaram de ares", agora usam com grande vantagem o oxigénio para viver, mas nunca mudaram de líquido, a água continua essencial. Entretanto, um produto altamente improvável dessa evolução, contrariando o próprio mecanismo da seleção natural (pelo menos até o momento), adquiriu consciência, aprendeu a superar algumas condições adversas e espalhou-se, como nenhuma outra espécie, sobre todo o planeta. Como uma criança que desconhece completamente seu brinquedo, o Homem imaginou que o planeta é infinito, os recursos infindáveis. É verdade, a água não acabará, haverá sempre e muita. Mas não basta haver água, é necessário água boa, pura, que sustente a vida. Água com metais pesados, mercúrio, chumbo, níquel, ferro não serve. Água com inseticidas, agrotóxicos, compostos fenólicos, policlorados, bactérias, toxinas, fezes também não serve. Água do mar contaminada com petróleo, dejetos industriais, excesso de fosfatos também não serve. E logo, e cada vez mais rápido, seremos mais numerosos; e todos querem ter acesso a água boa, potável, e serviço de esgoto e bens de consumo. Mas produzir automóveis, vídeos, computadores, arroz, feijão, tudo isso e muito mais, ou usa água ou polui a água... A conclusão é simples: nosso modelo de crescimento ilimitado está errado, erradíssimo, e quem nos alerta de forma aguda é a água. Na verdade precisamos urgente, no mundo todo, tomar consciência que como todos os outros recursos, a água é um bem limitado. O alerta se encontra escancarado, o Ano Internacional de Água exige de nós essa consciência, essa evolução. A indiferença também é um ato político, o pior deles, pois mostra um profundo egoísmo. Sejamos, portanto, participantes, seja economizando de forma consciente, não poluindo, não desperdiçando, estimulando as medidas de conservação. Em muitas e muitas crenças e religiões a água purifica o corpo e o espírito. Assim como no batismo cristão façamos que a Água nos encha de um novo espírito, da plena compreensão de que somos uma só Humanidade em um mesmo Planeta, Terra o Planeta Água. * Jair Ribeiro Chagas é pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da UMC