Notícia

Revista Sustentabilidade

Água e esgoto são a bola da vez dos investidores em novas tecnologias

Publicado em 23 julho 2012

Por Alexandre Spatuzza

Água é a bola da vez. Aliás, sempre foi, mas quando um serviço de informação financeira como o Bloomberg New Energy Finance (BNEF) lança um produto específico sobre o assunto, quer dizer que quem tem dinheiro está olhando de perto as oportunidades trazidas não só pela privatização do recurso, mas também observa as tendências que aliam a gestão deste recurso com a sustentabilidade e novas tecnologias.

Para quem não conhece, a Bloomberg é um conglomerado de mídia e Internet para a elaboração e distribuição de análises e informações financeiras e que nos últimos anos vem focando no meio ambiente, lançando um cobertura noticiosa específica e, por meio do BNEF, analítica das energias renováveis: eólica, solar, biodiesel e geotérmica.

Segundo o comunicado de lançamento do novo produto focado em água, a ideia é fornecer informação analítica sobre as tendências da gestão deste recurso que tradicionalmente não é levado em consideração nos cálculos econômicos das empresas. Mas hoje, este é um recurso escasso e cada vez mais importante na vida das empresas. Sua gestão não é só uma questão de garantir acesso para o sistema produtivo, mas é também uma questão de ganho de novos mercados por meio da aplicação de novas tecnologias.

Conforme foi antecipado pela Revista Sustentabilidade no início do ano passado em boletim especial (pgs 6 e 7 aqui), as empresas de investimento em tecnologias limpas, as empresas de água e o setor produtivo vêm crescentemente investindo e desenvolvendo novas tecnologias para fechar o ciclo da água. Isto acontece porque as legislações ambientais estão cada vez mais restritivas, o consumidor está exigindo posturas mais responsáveis das empresas, enquanto o setor de prédios verdes dispara no mundo.

Já existem empresas que pesquisam e desenvolvem tecnologias para não só para reusar a água nas fábricas e prédios, mas também para aproveitar os efluentes gerando energia, produzindo aditivos para adubos e até para produzir bioplásticos e outros materiais do lodo.

Redes Inteligentes

Uma outra área crescente de interesse destas inovações está em novos sistemas de controle e distribuição, pois a maioria das empresas de água enfrentam graves problemas de perdas e vazamentos. Se as perdas de uma Sabesp em São Paulo são de 40% e das empresas no nordeste chegam a 70%, na Europa não é diferente já que empresas centenárias têm que renovar suas redes. Países com Reino Unido, França e Itália enfrentam perdas de quase 30%, bem acima dos 8% da Alemanha, uma referência no setor. O resultado é que todas estes novos produtos reduzem a pressão sobre o recurso e sobre o meio ambiente.

Entre as oportunidades que serão mapeadas pelos analistas da BNEF, estarão, é claro, os projetos de expansão de redes de água potável e coleta e tratamento de esgotos nos países em desenvolvimento como o Brasil.

Segundo o Plano Nacional de Saneamento Básico, há uma necessidade de investimentos acima de R$400 bilhões até 2030 para universalizar o saneamento básico no Brasil. Isto significa investimento em infraestrutura E em novas tecnologias.

É assim que a água se encaixa direitinho nos radares dos investidores em tecnologias limpas conhecidos como cleantech. Segundo a consultoria especializada em tecnologias limpas, Cleantech Group, os investimentos de fundos de capital de risco em empresas tecnológicas de saneamento básico aumentaram para acima de US$150 milhões no último trimestre de 2011 de abaixo de US$50 milhões na média dos quatro trimestres de 2008. Desde 2009, investimentos nesta área de desenvolvimento tecnológico vêm subindo significativamente.

No final do ciclo de investimento há empresas também de olho para adquirir estas tecnologias. Ainda conforme o Cleantech Group, entre as empresas que mais investiram em empresas desenvolvedoras de tecnológicas limpas está a Coca-Cola que vem fazendo um esforço global para reduzir o uso de água na produção de bebidas. Em 2011, a Coca-Cola investiu ou fez parcerias com cerca em um total seis empresas. No ranking da maiores investidoras em tecnologias limpas, existem outras empresas com interesse em água como Siemens, Cargill, Procter and Gamble e Unilever, todas com alto consumo de água inclusive na produção de alimentos. Sem contar que, segundo a Bloomberg, há um grande interesse na gestão de água das empresas de geração de energia térmica.

A lógica é inexorável: se há investimento, há mercado e se há mercado para a tecnologia inovadora é porque a demanda já se consolidou.

No Brasil não é diferente. Em 2009, a Sabesp fechou um acordo com a Fapesp de R$25 milhões para financiar pesquisas e desenvolvimento de novas tecnologias na área. Este ano, a Finep do governo federal lançou o programa Brasil Sustentável, que contará com investimentos de R$2 bilhões em desenvolvimento e inovação, inclusive em saneamento básico.

Água é a bola da vez nas tecnologias limpas. A próxima, e não demorará muito, será o de reciclagem de resíduos sólidos e orgânicos, especialmente no Brasil.