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Agrônomo brasileiro cria primeira telha hidropônica do mundo

Publicado em 28 agosto 2019

Cultivar trigo, quem sabe feijão ou uma simples alface. O engenheiro agrônomo Sérgio Rocha quer mais é plantar o que dá na telha, literalmente. Tanto que criou a primeira telha hidropônica, que se tem notícia, para cultivar diversos tipos de plantas como legumes, grãos e verduras.

Desde 2008, o agrônomo e a ecóloga Fabiana Scarda trabalham com pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para telhados verdes e jardins suspensos por meio do Instituto Cidade Jardim. Muitos clientes pedem orçamento para instalar jardins sobre coberturas com telhas de barro ou fibrocimento, mas é um desafio devido às próprias características de tais materiais que não podem receber sobrecarga permanente. De um problema, veio a ideia de criação da Kaatop.

Além de ser muito mais leve que uma telha comum, o novo produto promete ser à prova de infiltração, que é um grande receio para muitos. “Começamos a perceber que as tecnologias existentes são sempre itens a mais na obra -, são revestimentos para lajes e coberturas já impermeabilizadas. Então resolvemos criar um produto que simplificasse a instalação e que de fato pudesse cumprir com a função de uma telha”, afirma Sérgio Rocha em entrevista ao CicloVivo. A Kaatop não precisa de membrana de impermeabilização, pois é vedada pelo próprio encaixe das telhas.

O produto foi testado pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e “nenhuma gota, nem com simulação de chuva e vento forte, nem com o sistema interno de irrigação foi constatada”, garante Sérgio.

Todo o sistema é automatizado e o agricultor urbano pode monitorar remotamente a umidade, teor de adubação, consumo de água, temperatura e pH.

Cultivo hidrôponico

Contrariando os incrédulos, o cultivo de alimentos em telhados parece mesmo ter vindo para ficar e com o novo sistema, além de plantar tomates, abobrinhas e morangos, será possível garantir arroz, feijão, aveia e até milho no telhado de casa. Rocha está animado em ir “além do tomatinho cereja e do manjericão” testando cultivos dignos de alimentar a população urbana.

“Queremos ampliar as possibilidades de agricultura urbana. Estamos pensando em grandes culturas e produção em escala de carboidratos, ocupando de forma produtiva esses espaços vazios dentro da cidade”, entusiasma-se. Ele ressalta que como o sistema de cultivo é hidropônico, as possibilidades são infinitas.

É possível cultivar até 20 mudas ornamentais ou agrícolas para cada metro quadrado. Nessa toada, já foram colhidos sete quilos de grãos de trigo em apenas 35 metros quadrados. Durante testes na Itália, o cultivo em sete metros quadrados foi suficiente para suprir as necessidades diárias de vegetais frescos para uma pessoa -, levando em consideração os 400g por dia recomendados pela FAO. “Dependendo do cultivo, esses números podem ser maiores. Se pensarmos em grandes áreas como um shopping, com 10 mil metros quadrados, teríamos uma produção de duas toneladas em uma safra”, explica.

Ainda com o sistema, será possível cultivar forrações e capins ornamentais, tanto para telhados verdes como para jardins verticais. Tais como: Grama-amendoim, Bulbine e Tradescantia.

Olhar para a natureza

Foi seguindo os princípios da Biomimética que o Instituto Cidade Jardim reinventou um produto que já existia no mercado: as telhas térmicas tipo sanduíche. Dos estômatos (pequenas aberturas presentes na epiderme das plantas) surgiu a ideia de criar orifícios para inserir sementes e mudas. Inspirada nos tecidos vegetais responsáveis pela condução de seiva, a dupla criou uma telha que permite a passagem de mangueiras de gotejamento e distribuição da água internamente por capilaridade. Da mesma forma que uma árvore leva água e nutrientes para o alto da sua copa, a Kaatop combina a placa de circuito integrado de irrigação aos sistemas já conhecidos de irrigação de baixa vazão e fertirrigação.

Além disso, a água de irrigação do sistema de hidroponia pode ser recirculada sem perdas de nutrientes para o meio ambiente. E mesmo quando a irrigação está desligada, o design do produto permite a condensação de gotículas a partir da umidade do ar, ou seja, é capaz de produzir água em pequenas quantidades contribuindo para a redução do consumo de água de todo o sistema.

Esquema da telha hidropônica Kaatop

A ideia nasceu em 2012 e seguiu um longo processo até aqui. Em 2016, o projeto foi selecionado pelo programa Cidades Inteligentes – Cidades Sustentáveis da FAPESP. “Em troca de 20% de participação, levantamos os recursos que nos possibilitaram desenvolver um sistema interno de circulação de água que viabilizou o cultivo dentro da própria telha”, conta o agrônomo. Hoje, o produto final atende a norma de desempenho ABNT NBR 15575-2:2013, como elemento de vedação.

Testes de avaliação para uso com hidroponia já foram realizados na Universidade de Bolonha, na Itália, e na Alemanha por meio do grupo de pesquisas da Universidade Técnica de Berlim e do Centro de Excelência em Telhados Verdes em Neubrandemburg. A pesquisa de desenvolvimento ainda foi finalista na Conferência Européia de Infraestrutura Verde, realizada em Londres, na Inglaterra.

É possível ver as telhas em pleno funcionamento na sede do Instituto Cidade Jardim em Itu, município de São Paulo, onde são testados diversos cultivos agrícolas e forrações. Além da Faculdade de Engenharia de Sorocaba onde foi montado testes de automação.

A tecnologia será disponibilizada inicialmente para o mercado brasileiro e quem tiver interesse em saber mais sobre o produto o agrônomo fez o lançamento nesta terça (27) às 19h30 no programa Papo de Paisagista. As inscrições estão disponíveis até às 16h. Além disso, a pré-venda começa com previsão de entrega em dezembro de 2019.