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Agricultura e pecuária no BR têm que mudar

Publicado em 04 novembro 2009

Antes do mundo se preocupar com o aquecimento global, o dr. Carlos Clemente Cerri já trabalhava em pesquisas para atenuar as mudanças climáticas causadas pela agricultura.

Há 40 anos ele estuda, e testa com sucesso, maneiras de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa e aumentar sua fixação no solo. Suas pesquisas já receberam apoio até mesmo da NASA.

"Antes não se falava tanto disso. De 1990 para cá é que as pessoas vêm comentando", diz o engenheiro agrônomo. "Quando comecei a trabalhar na área, não tinha ideia de que era algo tão importante. Hoje, virou decisão política".

A importância dos estudos de Cerri foi reconhecida na semana passada, quando aos 66 anos o professor titular da Universidade de São Paulo recebeu o Prêmio de Ciência de Trieste Ernesto Illy 2009, concedido pela Academia de Ciências para o Desenvolvimento Mundial - entidade com sede na Itália que congrega todas as academias de ciências dos países em desenvolvimento.

Nesta entrevista, ele, que é a favor do melhoramento genético como forma de preservação climática, explica como (e por que) o Brasil deve investir em políticas agrícolas voltadas para o meio ambiente.

INFO Online-Por que focar na agricultura?

CERRI- Em países em desenvolvimento, a agricultura e a pecuária são grandes responsáveis pelas emissões, especialmente por causa do desmatamento. Nós trabalhamos com técnicas para reduzir esses impactos, com projetos de pesquisa submetidos a agências financiadoras, especialmente FAPESP e CNPq. Mas já fizemos trabalhos com a NASA, França, Alemanha...

A Agência Espacial Americana?

Sim, eles ajudaram a montar um laboratório na Amazônia e em São Paulo, na USP de Piracicaba, para analisar o uso de pastagens na Amazônia. Essa questão tem dois lados: um é reduzir a emissão atmosférica, a outra é retirar o que já foi emitido e fixar no sistema terrestre. Essa fixação pode ser de duas formas: ou na vegetação, através de reflorestamento, ou no solo, através da decomposição de resíduos. Para saber se estamos fixando é preciso coletar amostrar do solo em várias camadas e analisar nos laboratório a quantidade de carbono do solo. Se ela está aumentando, quer dizer que estamos retirando da atmosfera - estamos seqüestrando carbono por meio das plantas. A outra maneira é medir as emissões do solo: colocamos câmaras especiais que aprisionam o gás no e quantificamos emissões de CO2, metano e óxido nitroso. A partir daí, sugerimos práticas agrícolas para reduzir essa emissão.

E quais são essas práticas?

Arar menos o solo, por exemplo. Quanto menos movimentado o solo, menor a emissão de gases.

Como assim?

O solo é repleto de microorganismos. Ao ser oxigenado, os microorganismos dele ficam ativados e liberam gases. Por exemplo, se você opta pelo plantio direto, técnica na qual se faz apenas sulcos no local onde se vai plantar, ao invés de plantio convencional (aração do solo todo), você aumenta o estoque de carbono do solo em 500 kg por hectare ao ano. Isso quer dizer que o carbono que era CO2 na atmosfera vira húmus, vira parte de algo que melhora a fertilidade do solo. A primeira coisa a se fazer é reduzir o desmatamento, pois já temos uma área muito grande desmatada. Depois, é o melhor aproveitamento das áreas já desmatadas. No caso da agricultura já há alguns resultados: de 20 anos para cá, houve 47% de melhora na produtividade da soja apenas com melhoramento genético, mudanças do solo, fertilizantes... Já na pecuária, ainda estamos com os mesmos índices de duas décadas atrás, na média de 0,9 cabeças por hectare. Além de melhorar o rendimento dessas pastagens, recuperando áreas degradadas e de baixa produtividade, outro fator é a parte genética do animal: espécies mais bem selecionadas geneticamente e raças mais adaptadas para cada região. A integração lavoura-pecuária é outra prática que traz resultados. Uma quarta opção seria o confinamento, ou semi confinamento do animal. Mas ela deve ser feita com um balanço prévio para ver a relação entre as emissões para produzir alimento e ganho de peso do animal. Se fizermos bem feito essas sugestões, precisaremos de menos áreas para criar o mesmo rebanho. A redução da área faz com que sobre espaço para outras coisas, inclusive reflorestamento.

Em sua pesquisa, o Sr. Menciona possíveis sanções a produtos brasileiros caso as práticas agrícolas não mudem...

No futuro, isso pode ser uma barreira na medida em que pode ser usado pelos compradores para reduzir os nossos preços. A chave é já investir em sustentabilidade: produzir mais, melhor e causando menos impacto.

É possível chegar a zero emissões?

É o que estamos tentando fazer. A partir do momento em que a questão sai da esfera da ciência e cai na mídia, que cada um faz sua parte consumindo menos e reciclando mais, a gente caminha para uma condição futura menos intensa do que está hoje.