Notícia

Jornal da USP

Agora é a vez do Genoma Vírus

Publicado em 13 agosto 2000

Está nascendo mais um projeto na linha genoma, desta vez voltado para a vigilância sanitária, numa parceria da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), universidades e Secretaria Estadual da Saúde. O Genoma Vírus, ainda não confirmado oficialmente pela Fapesp, consistirá na criação de uma rede de laboratórios no Estado para execução de quatro tarefas coordenadas, relacionadas com HIV, hepatite C, vírus sincicial respiratório e hanta-vírus. O novo programa envolve seqüenciamento genético, mas tem características que o diferenciam dos projetos Genoma Xylella fastidiosa e Genoma Câncer, a ponto de os recursos que a ele deverão ser destinados não saírem do Projeto Genoma da Fapesp. Informações não oficiais dão conta de que a nova rede virtual, eminentemente multidisciplinar, destinada a beneficiar a virologia e a extensão de serviços, terá recursos da ordem de U$ 6 milhões e prazo de execução de 3 anos e meio, podendo começar a operar de fato no início do ano 2001, tempo suficiente para a publicação de edital e a integração dos laboratórios. A seleção dos grupos de pesquisa dará prioridade aos que garantirem a continuidade do trabalho mesmo depois de terminado o prazo do programa Genoma Vírus, uma vez que a Secretaria da Saúde pretende usar a rede para projetos do SUS. Controle de qualidade O programa em montagem possui um grupo de coordenação e cada tarefa terá um laboratório central. Na USP, o ICB (Instituto de Ciências Biomédicas) e o IME (Instituto de Matemática é Estatística) farão o controle de qualidade a partir da informática. A tarefa HIV será coordenada por Ester Sabino, da Fundação Pró-Sangue, a partir do próprio Hemocentro. As amostras para análise sairão de pacientes atendidos pela rede da Secretaria da Saúde, provindas de 16, Centros de Saúde do Estado. A proposta é estudar a resistência, às drogas antivirais e a recombinação virai, e fazer a subtipagem de vírus. Na coordenação da tarefa Hepatite C estará o dr. Renato Pinho, do Instituto Adolfo Lutz, sendo objetivo dos pesquisadores analisar pacientes com esse tipo de hepatite, incluindo os sujeitos à hemodiálise. A terceira tarefa, com coordenação do professor Edison Durigon, do ICB, consistirá no estudo de um vírus que ataca especialmente o sistema respiratório de crianças. Por último, um grupo se ocupará do hantavírus, presente em roedores silvestres' encontrados em grande número no Estado e que traz muitas complicações para a saúde humana. Essa tarefa terá à disposição dos pesquisadores um laboratório P3 (de grande biossegurança) e um laboratório de campo para coleta dos animais. O laboratório móvel terá sede no Instituto Adolfo Lutz. Coordenará essa tarefa o dr. Luiz Eloi, do mesmo instituto. Outras doenças poderão ser abrangidas pelo trabalho dessa equipe. Além dos laboratórios centrais, o programa contará com grupos de apoio - do IME, da Informática Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e do Laboratório de Seqüenciamento e Bioinformática do ICB, a ser coordenado pelo biólogo Paolo Zanotto que está se transferindo da Universidade Federal de São Paulo para a USP, depois de aprovado em concurso. A proposta, se articula igualmente com o grupo de pesquisa do Instituto de Química, liderado pelo professor Hugo Armelin - 27 projetos agrupados que farão o Chip Genoma, uma forma de dar aproveitamento às informações dos programas de seqüenciamento genético. A Secretaria da Saúde destaca o aspecto de extensão do Genoma Vírus e tem interesse em dar caráter mais perene à: rede, para acioná-la em casos de ocorrência de sarampo, dengue, raiva e outras epidemias. As ferramentas da bioinformática do IME e os serviços de outras unidades serão colocados à disposição da Secretaria da Saúde. Em defesa da Universidade O pró-reitor de Pesquisa da USP, a diretora do Instituto de Ciências Biomédicas, o vice-diretor do Instituto de Biociências, o diretor científico da Fapesp e pesquisadores da Universidade nas áreas de biogenética e bioinformátíca discordam da posição do professor Francisco Lara (ver Jornal da USP n° 514), um dos introdutores no Brasil dá biologia molecular, segundo o qual as universidades não acompanham a revolução que se observa na biogenética e estariam despreparadas para executar projetos do tipo Genoma Xylella e Genoma Câncer, patrocinados pela Fapesp. Depois de destacar que o professor Lara é um dos pesquisadores mais respeitados do País, tendo sido o primeiro cientista brasileiro a pensar em biologia molecular e a implantar no Estado de São Paulo, na década de 70, com recursos da Fapesp, um programa de apoio à bioquímica que de certa forma levou, mais de 25 anos depois, ao seqüenciamento da bactéria do "amarelinho", o pró-reitor Hernan Chaimovich respondeu: "Dizer que a Universidade não tem estrutura para isso é no mínimo desconhecer tudo o que aconteceu durante e depois do programa Xylella na USP". E acrescentou: "Mas dizer que a USP poderia sozinha, sem a Fapesp, fazer isso seria inadequado. A USP só consegue fazer o que faz porque tem no Estado de São Paulo uma fundação de amparo à pesquisa, e ela financia iniciativas sempre conjuntas entre pesquisadores da Universidade e a própria fundação. Então, as duas coisas são verdade ao mesmo tempo: é verdade que a USP não poderia fazer isto sem a Fapesp, porque não tem orçamento para isso; por outro lado, a Fapesp sem a USP não faria nada. Ninguém faz pesquisa na Fapesp". Chaimovich também contesta a afirmação de Lara de que nenhum reitor, que ele saiba, se pronunciou sobre o Projeto Genoma: "É no mínimo desconhecer que, há mais ou menos um mês, em cerimônia no Conselho Universitário, os pesquisadores da USP que participaram do Projeto Xylella foram homenageados". O pró-reitor de Pesquisa disse ainda que um grupo importante de professores da Matemática entrou com pedido de criação na USP do Núcleo de Bioinformática. Portanto, "a USP se interessa, sim, pelos problemas apontados pelo professor Lara, tanto na bioinformática, que é o gargalo mais evidente, como numa outra questão - a relação entre a informação que vem desse Projeto Genoma e a aplicação dele à realidade prática. Isso passa, sim, pela Medicina - tanto a Faculdade como o Incor e o HC (Hospital das Clínicas), - que estão totalmente conscientes do impacto da genômica na medicina". De acordo com o pró-reitor, isso fica bem claro quando se recorda que um grupo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto entrou com pedido na Fapesp para a criação de uma central genômica. Ele também rejeita uma comparação feita pelo professor Lara: "Não é adequado pensar que a genômica será uma superestrada numa aldeia indígena, porque a ciência universal certamente não considera a USP como aldeia". Chaimovich entende ser arbitrário separar a capacidade dos pesquisadores da Universidade da própria Universidade. "A Universidade vem da capacidade de seus pesquisadores. Mas, insisto, isso não seria possível sem a Fapesp." Uma revolução no ICB Para a diretora do ICB, professora Magda Maria Sampaio, a sua unidade não apenas está atenta à evolução no campo da biogenética, como os projetos Genoma Xylella, Genoma Câncer e, agora, Genoma Vírus "estão revolucionando o ICB". Uma Comissão de Graduação, presidida pelo professor Henrique Krieger, cuida de aperfeiçoar a habilitação em bioinformática e de formar profissionais mais críticos e habilitados. Só assim, disse a diretora, o instituto poderá atender às necessidades de projetos como os agora anunciados. No IB também há vários grupos trabalhando com biologia molecular, especialmente nos Departamentos de Biologia e de Botânica. Duas pesquisadoras da Botânica - Marie-Anne Van Sluys e Mariana Cabral Oliveira - estão escaladas para trabalhar no Projeto Uva, dos Estados Unidos. "O que ainda está faltando no IB é apoio técnico à pesquisa", diz o vice-diretor Gilberto Barbante Kerbauy. Segundo ele, os recursos vêm da Fapesp, porque sobra pouco do orçamento da Universidade para a pesquisa, já que mais de 80% vão para a folha de pessoal. O diretor científico da Fapesp, Fernando Perez, diz ter uma "visão mais otimista" do que a do professor Lara do papel da universidade no Projeto Genoma. "O projeto foi articulado e desenhado na Fapesp, más por pesquisadores que estão na Universidade." De uma afirmação de Lara ele discorda veementemente: de que os norte-americanos teriam contratado o pessoal brasileiro para fazer o seqüenciamento genético de uma bactéria que ataca parreirais da Califórnia porque sairia mais barato do que se fizessem eles mesmos o trabalho. "Não se trata de venda barata de serviço. Trata-se de fazer melhor", disse Perez, insistindo em que esse aspecto, a qualidade científica, foi acentuado por todos os jornais do exterior, especialmente The Economist, New York Times e o francês Le Figaro. Um dos títulos dizia a respeito do projeto Xylella brasileiro: "Samba, futebol... genoma". Também o professor Paolo Zanotto, em transferência para o ICB, defende a Universidade, dizendo que a instituição dá a estrutura para a pesquisa avançada: espaço físico, docentes capacitados e agregação de capacidades: "Seria impossível tocar os projetos se não tivessem ligação com o IME, a Medicina, o ICB e um ambiente multidisciplinar". Segundo Zanotto, o Genoma Vírus foi proposto à Fapesp por docentes universitários, e a Fapesp mandou que se articulassem com a Secretaria da Saúde. Só depois disso assumiu o programa.