Notícia

Jornal de Piracicaba

Agenda 2011

Publicado em 29 dezembro 2010

Este é um assunto para ser colocado no centro das prioridades no próximo ano: o enfrentamento dos efeitos da epidemia do crack no Interior Paulista. Temos abordado aqui neste espaço de reflexão estadual a escalada da droga em nossas cidades, em proporção que assusta pais, autoridades e educadores. Não há outra saída lógica senão agir cada um em sua área de atuação: policiais, médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, professores, comunicadores e a sociedade.

Os políticos também podem dar a sua contribuição por meio de leis e projetos. Prefeituras e Câmaras Municipais devem assumir que o problema tem que ser enfrentado localmente. Responsabilizar à distância os grandes traficantes e cobrar ações dos governos pouco resolve na prática a curto prazo. Há que ir muito além da denúncia, da cobrança e até mesmo da conscientização. Para proteger a comunidade, é preciso agir com medidas concretas.

Um exemplo do que pode ser feito na atuação política foi dado nos últimos dias na Assembleia Legislativa pelo deputado Paulo Alexandre Barbosa (PSDB, base eleitoral Baixada Santista). Ele anunciou que vai propor ao governador eleito Geraldo Alckmin a criação de ambulatórios médicos especializados no tratamento de dependentes do crack. Propõe que as unidades sejam instaladas em parceria com prefeituras e universidades nas regiões com grande número de usuários da droga. Um tema para colocar na agenda da cidadania e não esquecer.

Em 2009, o governo do Estado inaugurou a primeira clínica pública para adultos dependentes de álcool e drogas, com 30 leitos e podendo receber até 350 pacientes por ano, em São Bernardo do Campo, por meio de convênio entre a Secretaria da Saúde e a Sociedade Assistencial Bandeirantes. Mas o número de clínicas públicas no Estado é insuficiente diante da grande quantidade de usuários. É preciso multiplicá-las.

Na concepção de Paulo Alexandre Barbosa, os ambulatórios regionais seriam dotados de uma equipe multidisciplinar de profissionais especializados no tratamento de dependentes. Além disso, as unidades precisam manter grupos de autoajuda e orientação familiar, considerados fundamentais na luta contra as drogas. O deputado ressalta que crack mais do que dobrou o seu consumo nos últimos três anos no País, tornando-se uma epidemia nacional. Estima-se a existência de 1,2 milhão de usuários, número que coloca o Brasil no terceiro lugar do ranking mundial.

Hora de agir

A proposição de medidas de combate às drogas é prioridade anunciada também pelo depugtado Afonso Lobato (PV, base eleitoral Taubaté). Cerca de 70% dos mais de 200 mil presos no sistema prisional de São Paulo são jovens envolvidos com drogas, diz o deputado.

Com base em pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), segundo a qual 98% das cidades brasileiras já foram atingidas pela epidemia do crack, o deputado diz que mais de 300 mil pessoas deverão morrer nos próximos seis anos devido a esse problema e que pouco está sendo feito para mudar essa realidade. "Vemos apenas algumas pessoas abnegadas, de fé e compromisso social, que procuram responder a esse grande desafio sem apoio do poder público", diz Lobato.

Em sua opinião, as prefeituras poderiam e deveriam investir muito mais em políticas dirigidas aos jovens e adolescentes e às famílias e as igrejas deveriam oferecer sua estrutura para que os jovens e adolescentes "reconheçam que além do consumismo exagerado existem sonhos, projetos, esperanças e, sobretudo, um ideal cristão". A atitude começaria com a proibição de todo tipo de comércio de bebidas alcoólicas em festas e quermesses, "pois o lucro adquirido rouba vida, sonhos e projetos".

"É urgente que as forças se unam e efetivamente tomem consciência de que o problema é de todos. Urge que o poder público trate com compromisso e seriedade essa questão. Está na hora do Estado oferecer tratamento de qualidade e de graça, com leitos para pacientes e dependentes pelo SUS, economizando o que certamente investiria em segurança pública e na construção e manutenção de presídios", diz o deputado. "Está na hora de deixarmos os discursos e partirmos para a prática organizada, planejada para dar a boa parte de nossos jovens e adolescentes a oportunidade de não serem bandidos".

Álcool

Para muitos especialistas, o alcoolismo leva às drogas, especialmente entre os jovens. Não é de hoje que o problema é abordado. Já em abril de 2000, a revista Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo publicou levantamento a respeito nas 24 maiores cidades do Estado. Em editorial, a revista reconhecia na época ser justa a preocupação com o consumo de drogas, "dados os pesados dramas individuais e as mazelas sociais que ele aciona e que o Estado deveria enfrentar o tráfico com ações muito mais efetivas do que aquelas de que tem se valido". Mas advertia: "Alarmantes, de fato, são os índices de consumo de drogas legais: álcool e fumo". Em dez anos, desde que houve aquela publicação, o consumo de crack evoluiu muito, mas o álcool continua sendo propagado livre e solto entre adolescentes, com baixa conscientização de pais e autoridades sobre as suas consequências. É preciso pensar na questão do álcool entre os jovens também, não apenas as drogas ilícitas.