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Agências de fomento debatem como criar um sistema científico voltado à solução de problemas globais

Publicado em 06 maio 2021

Por Maria Fernanda Ziegler, da Agência FAPESP

A pandemia de COVID-19 escancarou desigualdades, vulnerabilidades e, sobretudo, a urgência de acelerar transformações sociais e econômicas. A nova realidade gera mudanças também na maneira como se faz e se financia a ciência mundo afora, por exigir maior colaboração entre países e regiões, interdisciplinaridade e apoio a projetos de pesquisa comprometidos com a missão de tornar as sociedades e as economias mais resilientes, equânimes e sustentáveis.

“Podemos ver que o ponto de inflexão induzido pela COVID-19 pode criar uma oportunidade para um progresso acelerado em muitas transformações necessárias para a sustentabilidade. No entanto, nesse mesmo cenário, também existem vozes gritando alto por um retorno às práticas convencionais. Chegou a hora de fazer diferente, com imaginação, colaboração e comprometimento”, afirmou Peter Gluckman, presidente do International Science Council, na abertura do Second Global Forum of Funders.

O evento on-line, realizado entre os dias 26 e 28 de abril, reuniu lideranças de agências de fomento à pesquisa e fundações de apoio ao desenvolvimento de todo o mundo, entre elas a FAPESP. O objetivo do encontro foi discutir e apresentar novas estratégias para o financiamento de pesquisas e a implementação de um sistema científico voltado para a transformação por meio da inovação e da resolução de problemas ligados à sustentabilidade global.

“Quando os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS] foram propostos [pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2015], muitos afirmaram que eram muitas metas a serem alcançadas, ainda que de forma voluntária. No entanto, a urgência em alcançar esses objetivos foi só aumentando. Podemos ver isso com nitidez na questão climática. Portanto, a Agenda 2030 já não é mais uma questão de escolha, mas um direcionamento que o mundo todo deve seguir. As agências e fundações de ciência devem liderar a busca por mais impacto e maior colaboração em pesquisas para que se cumpra essa agenda. O tempo já não está mais a nosso favor”, afirmou Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e patrona do International Science Council, entidade organizadora do evento.

Robinson foi enviada especial da ONU sobre mudanças climáticas entre 2014 e 2015, período em que os ODS foram estabelecidos visando acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e garantir que as pessoas possam desfrutar de paz e de prosperidade em todo o mundo.

O evento foi uma oportunidade para que lideranças afinassem estratégias para novos modelos de financiamento de pesquisa, elencassem os principais desafios e também reforçassem a necessidade de um sistema que permita maior colaboração.

“Precisamos criar algo novo para o futuro, com novos modelos e mecanismos que incentivem a inovação. Em relação à inovação e pesquisa impulsionada por desafios, é importante destacar que não há um único caminho a seguir, são objetivos múltiplos e com vários percursos para a mudança”, afirmou Ingrid Petersson, diretora-geral do FORMAS - A Swedish Research Council for Sustainable Development.

De acordo com Petersson, um dos grandes problemas está no fato de a pesquisa para a inovação ser vista como um valor para a maior competitividade e riqueza dos países, e não como um bem público global.

O mesmo acontece com a colaboração em pesquisa voltada para os grandes desafios globais. “O financiamento multilateral é ainda uma pequena parte dos orçamentos dos sistemas de ciência atuais. O principal foco ainda são as agendas e prioridades nacionais, o que é compreensível. No entanto, se perguntássemos a muitas das agências de financiamento que proporção de seu orçamento é alocado em cooperação ou coordenação multilateral, muitas não poderiam responder, o que é um indicativo de que não se trata de uma prioridade”, afirmou Albert van Jaarsveld, diretor-geral do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA), da Áustria.

De acordo com o International Science Council, a crise sanitária, econômica e social causada pela COVID-19 também expôs a necessidade de maior avaliação de risco dos governos, o papel crítico do assessoramento de comitês científicos, a importância da maior transdisciplinaridade e de abordagens sistêmicas.

“Temos avançado muito na ciência, mas o fato é que não abordamos temas como alimento, água, áreas urbanas, energia e clima, saúde e bem-estar como questões de vida ou morte. Também queremos aprender com os esforços contínuos das comunidades de financiamento da ciência para assim promover novas formas de colaboração multilateral e realmente entender o que não está funcionando”, alertou Heide Hackmann, presidente do International Science Council.

Além das mudanças no cenário global, surgem também novos desafios – ou a intensificação de antigos, sugere Gluckman –, como é o caso da disseminação sistemática de desinformação e do consequente anticientificismo, dos perigos do nacionalismo e da fragilidade do sistema multilateral.

“A nossa principal ambição deve ser facilitar a colaboração de diferentes fundos científicos e isso requer ampliar medidas como dados abertos e ciência aberta. No entanto, há ainda uma série de desafios. A ciência básica, guiada pela curiosidade, é de extrema importância, assim como sua implementação, que deve ser o foco principal para que essas mudanças se tornem possíveis”, afirmou Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP.

O debate apontou ainda a necessidade de investimento na implementação da ciência social de qualidade, assim como de uma reforma no sistema multilateral, mostrando a necessidade de cooperação científica além das fronteiras para questões globais de bem comum.

“Não se trata apenas de um problema científico ou de financiamento ele também é político. Há 50 anos, quando o homem foi à Lua, havia um desafio científico, mas também havia o interesse de resolver uma questão política. O fato é que esgotamos o tempo e ainda não estamos no caminho certo para cumprir a agenda 2030 e ela é também uma questão política”, disse Susanne Moser, conselheira estratégica para sustentabilidade do International Science Council.

Confira também os debates do segundo e do terceiro dia do Second Global Forum of Funders.

Fonte: Agência FAPESP