Notícia

Gazeta Mercantil

Advogados adotam Largo São Francisco

Publicado em 23 janeiro 2001

Por Adriana Fernandes Farias - de Sâo Paulo
Dois dias antes do aniversário da capital, um dos seus marcos será reinaugurado após restauro e iluminação de suas obras. Trata-se do Largo São Francisco, cujos monumentos foram "adotados" pelo escritório Leite, Tosto e Barros Advogados. A iniciativa faz parte do projeto Adote uma Obra Artística criado em 94 pelo decreto municipal 34.511. Dos 280 monumentos inscritos, 41 já contam com a boa vontade da iniciativa privada. Além do restauro, que é supervisionado pelo Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo (DPH), a empresa fica> responsável pela manutenção.das obras durante um ano. Não conta com incentivo fiscal, mas tem seu nome divulgado. Dispostas em frente à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, as estátuas de bronze Beijo Eterno e O Menino e o Catavento, que antes estavam pretas, foram restauradas e ganharam uma placa explicativa. Com, elas, fez parte do projeto de restauro, ò monumento em mármore A Tribuna Livre (1958), local de manifestações cívicas, e duas placas históricas fincadas no chão do largo. "Queríamos dar um presente à comunidade jurídica e à capital", diz Ricardo Tosto, sócio do escritório de advocacia. "Escolhemos obras que tivessem relação com nossa empresa e prestigiassem a profissão". Ele não revela quanto foi gasto no restauro, mas diz que a manutenção consumirá R$ 1,5 mil mensais. Antes da recuperação as estátuas estavam impropriamente cobertas de tinta e verniz, tinham infiltrações e rachaduras, e a Tribuna, frequentemente usada como "banheiro" pelos moradores de rua, era limpa com soda cáustica. Hoje serão limpas quinzenalmente pela empresa Engelimpe, que fez o trabalho de recuperação, e a casa três meses ganham nova camada de uma substância protetora. Com a iluminação, pode ser que os picha-dores fiquem inibidos. Inspirada em O Beijo de Rodin, a escultura Beijo Eterno, do sueco William Zadig, tem uma história curiosa. Representando um francês que abraça uma índia, o conjunto foi recebido sob protesto pela população e críticos ao ser inaugurado em 1922, na avenida Paulista, considerado um atentado ao pudor. Em 36 foi retirado para um depósito municipal, para em 66 ser colocado na entrada do túnel 9 de julho, ainda sob protesto. Acabou seqüestrada pelos acadêmicos de Direito que a levaram para o largo. A reinauguração é hoje, às 19h, quando serão retirados os tapumes que estão desde abril no local. Situado no Itaim Bibi, Zona Sul, o escritório é um dos 15 maiores do País e foi o primeiro a aderir ao projeto municipal. Breno Berezovky, arquiteto do DPH, diz que, no último ano, a iniciativa privada deu um grande salto em relação ao projeto. "Há monumentos de diferentes tamanhos, materiais e estados de conservação, o que proporcionaria uma gama maior de adotantes", lembra. Ele acredita que um dos motivos da adesão é a transparência do projeto, sem interferência dos órgãos públicos a não ser quanto ao procedimento técnico. LEGADO FRANCISCANO Não se sabe ao certo quais livros raros da Faculdade de Direito vieram da biblioteca dos franciscanos e quais são doações posteriores. Além de obras jurídicas (do direito lusitano e universal), há muitos livros de filosofia e religião, história, geografia e viagens. É o caso do livro que descreve a cidade do Porto no século 18, relatos sobre viagens à África, ou do" Cultura e Opulência do Brasil, de Antonil, uma espécie de manual de "como enriquecer na colônia" .Desta obra, editada em 1711 em Lisboa, só há outros dois exemplares no mundo - um em Portugal, outro na Inglaterra. O mais antigo é a Divina Comédia de Dante Alighieri, impresso em Veneza em 1520. Ainda do séc.16 há uma Bíblia de Antuérpia escrita em latim, grego e hebraico. Outras obras importantes são as Ordenações Manoelinas, Afonsinas e Filipinas, a descrição da vida de Padre" Anchieta e o Crônica da Cia de Jesus (1663). Destacam-se ainda Os Ensaios de Montaigne (1627), Testamento Político de Colbert (1694) e escritos" de São Tomás de Aquino e Sêneca. Reorganizado em 98, com a ajuda da Fapesp, o acervo da São Francisco colocou os 6,5 mil volumes dos séculos 16' e 18 em sala climatizada. Foram restauradas 220 obras- 168 volumes do séc.16 e os demais do séc.17.