Notícia

Jornal do Brás

Adolescência e os Jogos Mortais

Publicado em 07 novembro 2016

Recentemente, a morte de um menino de 13 anos, da cidade de São Vicente, comoveu e preocupou pais e educadores, chamando atenção para um jogo arriscado, que faz sucesso entre adolescentes do mundo todo – o Jogo da Asfixia, também conhecido como ”Jogo do Enforcamento”, “Jogo do Desmaio” ou Choking Game.   Vários vídeos circulam na internet induzindo meninos e meninas a compartilhar “brincadeiras” temerárias.

O Jogo da Asfixia é um desses divertimentos arriscados. Nele a pessoa se enforca com as mãos ou objetos como corda, cinto e gravata para privar o cérebro de oxigênio e chegar perto de um desmaio. Os participantes têm intenção de soltar a respiração antes de desmaiar, a fim de obter um instante de euforia, conforme o sangue corre levando oxigênio de volta ao cérebro. Qualquer modo de provocar asfixia apresenta riscos, mas bloquear a respiração estando sozinho é particularmente perigoso. Em poucos minutos a privação de oxigênio leva à inconsciência, impedindo de afrouxar a pressão que bloqueia a respiração. Se isso acontece, o passatempo se transforma em tragédia, causando danos permanentes ao cérebro ou levando à morte.

Por que adolescentes curtem “brincadeiras” tão perigosas? A quantidade de vídeos que circula na internet mostrando práticas arriscadas e dolorosas é impressionante. Há um aspecto de desafio e de poder nessas atividades ameaçadoras, evidenciado nos vídeos que mostram colegas da escola incitando um ao outro. As redes sociais ampliam a possibilidade de sentir a pressão dos pares, algo que afeta profundamente os adolescentes. Frequentemente, desafios que incluem provas dolorosas são adotados como ritos de passagem para um grupo social. Na maioria das vezes, os participantes querem apenas uma diversão excitante, que avalie os limites do corpo.  De certo modo, todos cultivam a crença de que testes de asfixia produzem euforia e prazer, sem o uso de drogas e sem nenhum custo financeiro.

Segundo a UNICEF, a adolescência corresponde à segunda década da vida – dos 10 aos 19 anos.  Nessa idade rapazes e garotas são curiosos sobre a morte e o morrer, demonstram interesse por estados alterados de consciência e experiências de quase-morte. Intelectualmente, estão aptos a entender o que pode provocar a morte e que ela é irreversível. Ao mesmo tempo, apreciam desafios e aventuras excitantes. Afinal, na juventude morrer parece uma possibilidade muito distante. Todavia, a realidade contraria fantasias de imortalidade. As estatísticas revelam altas taxas de mortalidade nessa faixa etária, com maior incidência de mortes repentinas, por acidentes de trânsito, homicídios e suicídios.

O gosto pelo perigo é materializado nos rachas e nos esportes radicais sem proteção, nas afrontas agressivas a grupos rivais e nas fugas de casa, na pichação de muros e monumentos e nos distúrbios alimentares, no sexo sem proteção e no uso de drogas lícitas e ilícitas. O problema da morte impõe questionamentos e inquietações a respeito do limite entre o prazer e a autodestruição. Na adolescência a capacidade de reflexão e o raciocínio se desenvolvem, promovendo a consciência crítica de si e dos outros. As incoerências dos pais e as próprias são percebidas, mas os jovens não sabem como lidar com elas.

O cérebro está predisposto a experimentar o prazer mais intensamente do que esteve antes, na infância, ou estará depois, na maturidade. E prazer é o que motiva o adolescente a buscar independência e a descobrir inovações.   Sua maturidade emocional oscila e as ferramentas que o preparam para a vida adulta estão em formação. Aqueles que assumem comportamentos de risco são mais expostos a acidentes. Conversar francamente sobre o potencial destrutivo de práticas potencialmente fatais é o primeiro passo para que evitem os “jogos mortais”. A maioria não sabe quão terríveis as consequências podem ser! E é aqui que precisamos acolher, proteger, instruir e orientar.

Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP).