Notícia

Gazeta Mercantil

Administração global e virtual

Publicado em 04 novembro 1997

Por Paulo Trevisani Jr. - de São Paulo
O ensino de administração de empresas está tornando-se mais global e virtual. As universidades têm avançado além do campus para levar cursos de pós-graduação até mesmo a outros países — como a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que já tem 50 executivos matriculados num MBA (mestrado em Administração), cujas aulas serão dadas em São Paulo, através de videoconferência. Representantes de cursos de gestão empresarial em cinco países, incluindo o Brasil, acreditam que a tendência de globalização deve ficar cada fez mais forte. Horacio Borromeo Jr., reitor-associado do Asian Institute of Management, com sede nas Filipinas, informou que essa instituição tem um campus avançado na Malásia. Segundo ele, muitas universidades devem começar a fazer o mesmo, em outros países. Essas escolas têm razões para achar que há uma demanda por seus cursos além das fronteiras nacionais. Uma pesquisa feita pelo professor Wilton de Oliveira Bussab, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apurou que nos últimos seis anos o intercâmbio de alunos entre 25 universidades de países diferentes cresceu 86%. Bussab disse que a própria FGV, pensando no século 21, considera a possibilidade de ter unidades fora do Brasil. Ensino de gestão torna-se global e virtual Paulo Trevisani Jr. - de São Paulo Reitores de cinco países indicam as tendências dos cursos de, Administração de Empresas. Novos métodos e Internet aproximam as universidades do local de trabalho Se você quer fazer um mestrado em administração de empresas pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, não precisa ir além da Chácara Santo Antônio, na Zona Sul de São Paulo. Se preferir a Duke University, também dos EUA, basta ter um computador portátil, não importa onde. No México, uma faculdade oferece curso de pós-graduação que pode ser feito no local de trabalho. A "globalização" e as novas tecnologias da informação estão transformando o ensino de administração de empresas. As universidades, procuram meios de aproximar ainda mais o conteúdo dos cursos do dia-a-dia dos executivos, e fazem o possível para evitar que eles tenham de deixar o emprego para ir à escola. Reitores e professores de faculdades de administração de cinco países, inclusive o Brasil, reunidos em São Paulo na semana passada, disseram a este jornal como vêem o ensino de gestão na virada do milênio. Eles foram unânimes em afirmar que as universidades, que já se habituaram a receber alunos de outros países, tendem a ampliar sua presença fora de seu lugar de origem. Também devem se multiplicar as opções de ensino à distância através da Internet. A rede mundial de computadores será um dos meios pelo qual a Universidade de Michigan oferecerá um "Master of Business Administration (MBA)" - mestrado em administração de empresas - de três anos para executivos brasileiros que não podem ficar esse tempo todo nos EUA. A instituição fechou, há poucas semanas, um acordo com -a Câmara Americana de Comércio, no bairro Chácara Santo Antônio, em São Paulo, onde ficarão as salas de aula. Os alunos - que deverão ter inglês fluente - assistirão a aulas através de videoconferência, além de usar a Internet. Em setembro de 1999, passarão dois meses nos EUA. O curso todo custará US$ 62,5 mil, não incluídas as despesas com viagem e estada nos EUA. "Com certeza, é mais barato do que fazer o curso todo lá fora", disse Zeke Wimert,- vice-presidente da Câmara. O Instituto Tecnológico y de Estúdios Superiores de Monterrey (Itesm), no México, não foi além das fronteiras do país - mas saiu do campus universitário para encontrar os executivos no local de trabalho. A universidade tem um mestrado em administração (MBA) que pode ser feito no ambiente de trabalho. As aulas são ministradas por computador ou vídeo e os estudantes - executivos de alta gerência - podem acompanhá-las em grupos (como uma sala de aula montada na empresa) ou individualmente. Esse sistema tem outras vantagens, além daquela óbvia de não aumentar o custo para o estudante por afastá-lo do trabalho. "O ensino à distância é mais flexível; fica mais fácil adaptar o conteúdo às necessidades dos alunos", disse Honorio Todino, professor da escola de graduação em Administração de Empresas e Liderança do Itesm. Todino disse que o ensino virtual dá "mais graus de liberdade para desenhar o curso", graças à superação dos limites de tempo e espaço. "Você não precisa ter um grande número de pessoas, ao mesmo tempo, no mesmo lugar". A experiência do instituto mexicano é um exemplo de que o conceito de universidade virtual ainda pode se desenvolver bastante, na opinião de Jean-Marc de Leers-nyder, diretor de programas de graduação da École des Hautes Études Commerciales, da França. Leersnyder chamou a atenção para outra mudança que deve ser feita nos currículos das escolas de administração. Na sua opinião, eles devem incluir cada vez mais disciplinas destinadas a desenvolver o espírito empreendedor e de liderança - e fazer com que os executivos estejam prontos para lidar com culturas de países diferentes. "Mesmo que não vá trabalhar fora de seu país, certamente o profissional terá contatos com estrangeiros", argumentou. Mas é a "globalização" que deve provocar as maiores mudanças nas universidades do século 21. As fronteiras entre países não deverão mais ser um limite para a atuação das escolas de ensino superior. Isto porque não só os estudantes têm, cada vez mais, procurado cursos fora de sua terra natal, como também as universidades têm ampliado a rede de acordos e associações para garantir sua presença no exterior - como está fazendo a Universidade de Michigan. Mas há quem preveja que, assim como as empresas têm feito, as escolas superiores começarão a instalar-se fisicamente fora de seu país de origem. Leersnyder é um dos que concordam com essa tendência, fazendo a ressalva de que ela só vale para instituições privadas e só funciona através de acordos de cooperação com escolas dos países onde elas queiram estar. Isto é importante, segundo o francês, para se evitar choques culturais - embora Leersnyder chame a atenção para o fato de as pessoas, em geral, estarem viajando mais para o exterior e tornando-se mais flexíveis para as diferenças entre culturas. Li Choy Chong, diretor do Research Institute for International Management (FIM-HSG), da China, não vê obstáculos à migração das universidades. Segundo ele, "tudo depende da necessidade das escolas". Horacio Borromeo Jr., reitor associado do Asian Institute of Management (AIM), com sede nas Filipinas, também acha que as universidades tendem a ir aonde estão os estudantes — como, segundo ele, já faz o próprio AIM, que tem um campus na vizinha Malásia. "Os professores têm viajado semanalmente, há três anos, e parece que tem funcionado", ele disse. Borromeo acredita que o ensino de administração deve se aperfeiçoar no sentido de oferecer aos estudantes - especialmente na pós-graduação - ensinamentos que possam ser aplicados imediatamente em seu trabalho. Isto tem muita semelhança com treinamento - um custo que certamente as empresas gostariam de repassar às universidades. Mas o reitor do AIM não vê assim. "As companhias têm seus próprios centros de treinamento. Quem precisa sair da empresa para aprender coisas novas são os executivos de mais alto nível hierárquico". Borromeo acha, ainda, que os programas tendem a ser mais curtos, oferecendo conhecimentos, que possam ser aplicados por dois; ou três anos. Depois disto, seria preciso voltar à escola. "O mercado tem mudado em alta velocidade e é preciso acompanhá-lo", justificou o filipino. O encontro de que esses acadêmicos participaram foi organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo. As 25 escolas participantes integram o "Programa de Administração de Empresas Internacional (PIM) uma rede mundial que facilita o intercâmbio de estudantes entre seus associados. O PIM reúne-se anualmente e esta foi a segunda vez em que o encontro se deu no Brasil. Em 1998, ele deverá ser realizado na França. Nesse evento, o professor Wilton de Oliveira Bussab, vice-reitor de Assuntos Acadêmicos da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Eaesp), da FGV, apresentou uma estatística sobre o intercâmbio de estudantes, feita nos últimos meses. O trabalho confirmou que, pelo menos por parte dos estudantes, o mercado já está se globalizando. A pesquisa, feita entre os integrantes do PIM, apurou que nos últimos seis anos seis mil alunos fizeram intercâmbio, sendo que, em 1991, foram 700 e, em 1996,1,3 mil. Maria Lúcia Mantovanini Pádua Lima, diretora do escritório internacional da Eaesp, informou que a FGV é a única escola latino-americana entre os 27 membros do PIM. Ela disse que, em 1996, a FGV enviou 60 alunos para estudar em outros países, inclusive em escolas que não fazem parte da rede. Ao todo, segundo Lima, a FGV tem convênios com 48 universidades. O ensino de pós-graduação em administração de empresas já vem sendo explorado no Brasil pela Universidade de Toronto, no Canadá, há mais de dois anos, através de um acordo com a BSP São Paulo Business School, que oferece um curso de um ano, em São Paulo, por US$ 19.980, mais duas semanas no campus universitário, que custam US$ 3.475. A BSP e a Universidade de Toronto estão estudando a possibilidade de começar a fazer intercâmbio de professores. A norte-americana Duke University iniciou, em 1996, um MBA virtual, ministrado pela Internet. O curso, com duração de um ano, custa US$ 80 mil. Os alunos se reúnem esporadicamente, em países diferentes.