Notícia

Jornal da USP

Adeus a um líder da academia

Publicado em 18 janeiro 2010

Elogiado pelos pares como um grande timoneiro pela sua capacidade de direcionar o campo da pesquisa científica no País, o físico Oscar Sala morreu vítima de parada cardíaca, aos 87 anos, no dia 2 de janeiro. os últimos anos, vinha enfrentando dificuldades de saúde decorrentes de um acidente vascular cerebral. Professor emérito do Instituto de Física (IF) da USP, Sala foi intenso articulador na área científica nacional. Presidiu a Sociedade Brasileira de Física de 1968 a 71; a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), de 1973 a 79; a Associação Interciência das Américas, de 1975 a 79; e a Academia de Ciências do Estado de São Paulo, de 1985 a 87. Foi também presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) entre 1989 e 95.

Como ressalta a pesquisadora Amélia Império Hamburger, professora aposentada do IF, as realizações de Oscar Sala são muitas e marcam, pela natureza pioneira e pela fertilidade de desdobramentos, um significado social persistente. Foi Sala que, ao presidir a SBPC por três mandatos durante a ditadura militar, desempenhou um papel fundamental na defesa dos interesses da comunidade científica e dos princípios da democracia. Mais tarde, foi nomeado presidente de honra pela entidade.

Seu lema de atuação sempre foi o desenvolvimento da ciência em São Paulo e no Brasil. Dizia que nunca se ligara a partidos políticos, nem pertenceu à esquerda ou à direita, o que facilitou a mediação com os governos militares em defesa da produção científica.

Segundo o atual presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, Oscar Sala era uma pessoa íntegra e democrática, e sua liderança foi fundamental para a entidade numa época de muitos conflitos entre a comunidade científica e a ditadura. Sua postura era moderada, porém sempre firme em defesa dos princípios da democracia , considera Raupp. Presidiu a SBPC por três vezes consecutivas e enfrentou grandes confrontações com sabedoria e discernimento. Tinha convicções firmes, mas não radicais. Conseguiu manter o equilíbrio entre a comunidade científica e o apoio do governo.

Autoridade-A SBPC, na gestão de Sala, foi o único fórum livre de debates na época em que o País passava por forte crise repressiva e suas reuniões eram realizadas com relativa líberdade, considera Luiz Edmundo de Magalhães, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e secretário-geral da entidade em duas gestões do físico. Ao site da SBPC, Magalhães lembrou que Sala nunca cedeu às pressões de governo ou de político algum. Sempre teve autoridade consistente e ponderada para enfrentar os momentos de crise , disse.

Em depoimentos colhidos em várias ocasiões por Amélia Hamburger, Sala deixa claro que a realização da 29a reunião anual da SBPC, em 1977, não pretendeu desafiar e nem confrontar o regime militar, mas sim dar oportunidade aos cientistas de apresentar os trabalhos que realizavam nos laboratórios das universidades e instituições de pesquisa. A reunião, prevista para Fortaleza, foi proibida pelo governo. A união da comunidade científica levou à realização do encontro no campus da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo. Foi uma prestação de contas do trabalho dos pesquisadores ao governo e, principalmente, a todo o público que paga o nosso trabalho através dos impostos , afirmou.

Oscar Sala nasceu em Milão, na Itália, em 26 de março de 1922, e veio para o Brasil aos 2 anos, passando a infância e juventude em Bauru, interior de São Paulo. Ingressou em 1941 no curso de Física da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Auxiliou Gleb Wataghin em suas pesquisas dos raios cósmicos, dedicando-se à construção de novos aparelhos de detecção desde que entrou para a graduação. Obteve a primeira medida do coeficiente de absorção das radiações cósmicas geradoras dos showers ( chuveiros ) penetrantes, em 1942, em colaboração com Wataghin. Foi contemporâneo de uma geração de brilhantes físicos brasileiros, como César Lattes, José Leite Lopes, Mário Schenberg, Roberto Salmeron, Marcello Damy de Souza Santos, Jayme Tiomno e Mario Alves Guimarães.

Laboratórios experimentais - Sala foi professor-assistente na cadeira de Física Geral e Experimental, liderada pelo físico Marcello Damy. Em 1946, recebeu bolsa de estudos da Fundação Rockefeller, indo estudar nos Estados Unidos, onde realizou suas primeiras pesquisas em reações nucleares com aceleradores de partículas. Na Universidade de Illiinois, realizou vários trabalhos sobre núcleos isômeros. Na Universidade de Wisconsin, em 1948, projetou o acelerador eletrostático, tipo Van de Graaff, para São Paulo.

Por mais de quinze anos dirigiu o laboratório do acelerador eletrostático. Participou do projeto e dirigiu a montagem do acelerador Pelletron, inaugurado em 1972. Posteriormente, o edifício que abriga o Pelletron foi batizado com o nome de Oscar Sala. Como professor, foi orientador de muitas teses de mestrado e doutorado nas áreas de espectroscopia e reações nucleares com feixes de partículas pesadas, aceleradores nucleares, ultra-alto vácuo e instrumentação. Sobretudo proporcionou condições de trabalho para bolsistas e pesquisadores de outros Estados brasileiros e de outros países.

Sala foi também um grande incentivador da construção e organização de laboratórios experimentais de pesquisas em física nuclear para a formação de pesquisadores. Para ele, esses laboratórios deveriam atuar como centros de uso e • inovação da tecnologia do País e, portanto, como núcleos de inserção da pesquisa científica nos setores produtivos da sociedade. Os laboratórios que conduziu mantiveram sempre atividades de colaboração nacional e internacional, além de serem lugar de interação entre físicos teóricos e experimentais.

Reflexão - Sala considerava que a tecnologia está cada vez mais próxima da ciência básica. Com instrumentos sofisticados e aperfeiçoados, a tecnologia se utiliza do conhecimento científico e da interpretação que a ciência dá a fatos da natureza, dizia. O físico sempre se preocupou com a parte experimental da pesquisa, não desvinculando-a do aporte teórico. Muitos dos seus orientandos continuaram na pesquisa básica, enquanto outros se destacaram nas áreas tecnológicas e industriais. Isso mostra o quanto é importante a Universidade dar uma formação sólida e deixar o indivíduo fazer o que quer, o que gosta e o que acha importante , afirmou em depoimento a Amélia Hamburger.

Oscar Sala tinha como grande característica ser um trabalhador incansável. Permanecia rotineiramente mais de dez horas por dia no laboratório, acompanhando todos os detalhes de organização, administrando as oficinas, o almoxarifado, as compras, a secretaria, os estudantes, os professores visitantes. Buscava sempre elogiar o trabalho dos funcionários, tanto administrativos quanto técnicos, pois afirmava serem eles quem garantia a qualidade dos serviços.

Shigueo Watanabe, professor do IF, ressalta o quanto Oscar Sala, além de ser um grande pesquisador, também foi um excelente companheiro e amigo. Ele procurava ajudar muito a todos, professores, funcionários e alunos. Eu tive muito apoio dele para pesquisar nos Estados Unidos, e também na indicação para assumir chefia de Departamento, livre-docência, e os cargos de professor adjunto e titular , diz. Foi uma grande honra tê-lo conhecido e partilhado de experiências tão ricas no campo da física nuclear.

Oscar Sala era casado com Rosa Augusta Pompiglio, a dona Rosinha, que conheceu em Campos do Jordão quando realizava pesquisas em raios cósmicos. Deixou três filhos e seis netos. Dona Rosinha acompanhou de perto toda a carreira do físico, juntando, por exemplo, um dossiê de recortes de jornais das reuniões anuais da SBPC. São documentos para muita reflexão e apreensão do significado dessas ações coletivas conscientes, em que os mais significativos cientistas brasileiros fizeram jus à sua própria tradição de construção e defesa das condições para a realização e divulgação do trabalho científico no País , avalia Amélia Hamburger.