Notícia

A Gazeta (ES)

Açúcar de Capim

Publicado em 29 abril 2005

Pesquisadores do Instituto de Botânica de São Paulo e da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, encontraram um novo tipo de açúcar chamado betaglucano, extraído do capim-favorito - uma gramínea que cresce à beira de estradas - e que pode ter um efeito benéfico como diminuir os níveis de glicose no sangue, de acordo com experimentos realizados com ratos. Se essa pesquisa for bem sucedida em humanos, não se poderá mais dizer que os diabéticos devem ficar longe de qualquer tipo de açúcar. Na verdade, o betaglucano já vem sendo estudado em centros internacionais. Estudos feitos no Canadá, Suíça, França, Suécia e Japão com grupos de voluntários humanos consideram esse açúcar como um recurso a mais para tratar um problema que atinge 10 milhões milhões de pessoas no Brasil. E, se esse efeito for mesmo comprovado, diabéticos vão poder controlar sua doença... comendo açúcar. "Essa propriedade já está sendo investigada há aIgum tempo. O valor de nossa descoberta está no fato de termos descoberto o betaglucomato numa espécie vegetal ainda desconhecida", diz o dr. Marcos Silveira Buckeridge, pesquisador do Instituto de Botânica, um dos coordenadores do estudo. O betaglucano faz parte da parede celular do capim - o invólucro extra que protege as células dos vegetais. Ao estudar o capim-favorito (Rynchelytrum repens), comum em qualquer beira de estrada, os pesquisadores brasileiros constataram que dois tipos de açúcar presentes na planta - além do betaglucano, o arabinoxilano - parecem baixar em até 50% a taxa de glicose no sangue durante 24 horas. O trabalho foi divulgado pela revista Pesquisa FAPESP  (http://revistapesquisa.fapesp.br), publicada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Formas mais complexas
A glicose, como os diabéticos bem sabem, é o tipo básico de açúcar usado pelo organismo e principal combustível da maioria dos seres vivos. Sua presença em excesso no sangue é a base do diabetes. Já o betaglucano e o arabinoxilano são formas mais complexas de açúcar. São polímeros, isto é, moléculas gigantes, com até centenas de unidades repetidas. No caso do betaglucano, as unidades são moléculas de glicose. "O betaglucano tem uma glicose na ponta", diz o dr. Buckeridge. Ele começou a seguir a pista do capim-favorito quando, há quatro anos, uma aluna de doutorado, Ana Cardoso de Paula, comentou com ele sobre o efeito antiglicose de um chá feito com as folhas da planta. Há quatro anos, a jardineira Helena Leite Cirilo, que acompanhava passo a passo o doutorado de Ana Cardoso, resolveu experimentar o chá de capim-favorito e, diante dos resultados, adotou-o para controlar seu diabetes. "Eu tomava in sulina, mas a taxa de glicose não baixava tanto", diz Helena, 53 anos, diabética desde os 40, hoje com a taxa de glicose estabilizada em 134 miligramas por decilitro (eram quase 400, bem acima da faixa considerada normal, de 70 a 110 miligramas). Como tudo indicava que o efeito advinha do material insolúvel do chá, que ficava no fundo da xícara, dr. Buckeridge suspeitou do betaglucano, com o qual já trabalhava. E assim começou o estudo em bases científicas. O botânico não recomenda o consumo desse chá enquanto as pesquisas não forem concluídas, mas está animado com a perspectiva.

Mais eficaz
O passo seguinte foi comparar a ação do betaglucano extraído do capim com uma versão industrial, produzida com base na cevada. As duas versões foram testadas em grupos diferentes de camundongos, os quais sofriam de uma forma de diabetes induzido. O mais animador é que o betaglucano do capim reduziu os níveis de glicose no sangue por 24 horas, enquanto a versão industrial só agiu por duas horas. E aí que entra outro polímero: o arabinoxilano.
"Ele também está presente na parede celular. Imaginamos que os dois interajam, criando um aglomerado ainda maior e menos solúvel que o betaglucano sozinho", explica Buckeridge.
Os cientistas, paradoxalmente, têm menos certeza sobre como os dois açúcares agindo juntos conseguem ajudar a reduzir o nível da glicose. Por um lado, pode valer um efeito presente também em outras fibras alimentares. Quando chegam ao intestino, criam uma camada viscosa que recobre o interior do órgão e impede a absorção de glicose.
Por outro, o dr. Buckerid suspeita que a glicose na ponta do betaglucano se ligue aos receptores (ou fechaduras químicas) das células que normalmente percebem a glicose isolada. Essas células ficam no pâncreas e, quando estimuladas dessa maneira pela glicose, liberam insulina, o hormônio que "recolhe" o açúcar do sangue.
"Isso poderia ocorrer porque as moléculas de betaglucano, maiores e menos solúveis, provavelmente ficam mais tempo na circulação, ou funcionam como um sinal mais eficiente para os receptores. Em interação com o arabinoxilano, é possível que esse fenômeno seja mais acentuado."

Cuidado com o capim
As perspectivas para um uso terapêutico são animadoras, mas o dr. Buckeridge pede cautela com o uso do capim. O botânico não recomenda o consumo do chá da planta enquanto as pesquisas não forem concluídas, já que podem ocorrer efeitos tóxicos. Por enquanto, para as pessoas interessadas em baixar seu nível de glicose no sangue com a ajuda do betaglucano, o pesquisador recomenda a ingestão de aveia, uma fonte de fibra alimentar testada e aprovada. Buckeridge diz que sua intenção é tanto patentear uma forma de terapia com base nas moléculas quanto preparar testes de sua eficácia em humanos. "Mas, para isso, preciso de ajuda de colegas médicos, já que minha especialidade é a parede celular de plantas", afirma. O trabalho sobre os polímeros deve ser publicado numa edição futura da revista "Brazilian Journal of Medical and Biological Research" e tem apoio da FAPESP.