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A Tribuna (Santos, SP)

Ações estratégicas no combate ao mosquito

Publicado em 31 maio 2019

Medindo entre 0,5 em e 1 cm, com listras brancas e silencioso. Com estas características, o adversário pode ser considerado quase inofensivo. Porém, não tenha dúvida: tamanho não é documento. O Aedes aegypti segue se multiplicando e transmitindo o vírus da dengue, além de chikungunya e zika. Para combater este adversário, é preciso disposição, planejamento estratégico, investimento e, principalmente, conscientização, união e colaboração de todos. Seguindo essa fórmula, o Governo de São Paulo criou o Plano Estadual para enfrentamento do mosquito, promovendo desde o início do ano diversas ações integradas entre as secretarias de Saúde, Educação, Logística e Transporte e Comunicação, órgãos estaduais e a ajuda das prefeituras.

O objetivo é claro: conscientizar a população e eliminar mosquitos e criadouros, além de oferecer para as pessoas infectadas um tratamento rápido e eficiente.

O trabalho tem demonstrado resultados positivos, mas é árduo e exige vigilância permanente. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, a incidência de novos casos de dengue está se concentrando no noroeste do Estado, do vírus tipo 2, que não circulava há muito tempo. E toda vez que um sorotipo novo aparece, ele causa uma maior gravidade.

Conscientização

Além de reforçar as ações nas áreas de maior risco, o Governo de São Paulo realiza atividades intensivas contra o Aedes aegypti. Uma ampla campanha publicitária orienta a população por meio das redes sociais, material impresso e veículos de comunicação.

Mas o combate não para por aí. Desde o início do ano, inúmeras ações coletivas são desenvolvidas, como arrastões, limpezas e eliminação de criadouros.

Rodovias

Com 248.222,362 km2, São Paulo conta com mais de 35 mil km de rodovias. As margens das estradas se transformam em possíveis criadouros, até mesmo por causa de objetos descartados.

Por isso, a Secretaria de Logística e Transporte e a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) se mobilizaram para realizar uma grande limpeza nas margens. Ainda nas estradas, panfletos são distribuídos em praças de pedágios, assim como os letreiros divulgam mensagens de orientação.

Outras ações

Já os agentes da Defesa Civil desenvolvem ações especiais com profissionais da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) em cidades consideradas prioritárias. Seguindo um planejamento estratégico, foram utilizados os índices de infestação como critério para a seleção dos municípios.

Também com apoio da Sucen, as secretarias da Saúde e do Meio Ambiente atuam no combate ao mosquito em parques. As unidades prisionais não ficam de fora. Membros da brigada contra o mosquito promovem coleta de entulhos e inspeções.

Escolas

Os estudantes ocupam papel importante no combate à dengue, colocando em prática ações e orientando familiares, amigos e vizinhos. Por isso, as secretarias de Saúde e de Educação promovem atividades especiais nas 5,3 mil escolas estaduais. Por meio de diversas atividades, é possível transmitir aos alunos a importância de não deixar água parada.

Entre as atividades realizadas, estão exposições interativas, apresentação de vídeos e desenvolvimento de trabalhos educacionais. Em Araraquara, por exemplo, os alunos produziram um repelente natural. Os estudantes também são orientados sobre o Projeto Crotolária, nome de um tipo de flor que atrai libélulas, predadoras naturais do Aedes.

Vacina: pesquisa já está na fase final

Algumas espécies de plantas, repelentes e até mesmo raquetes elétricas são utilizados pela população na prevenção e combate ao mosquito transmissor da dengue, além de zika e chikungunya. Apesar disso, ações estratégicas como as desenvolvidas pelo Governo de São Paulo de conscientização e também eliminação de criadouros, larvas e insetos ainda são as armas mais eficientes contra o Aedes aegypti. Em breve, porém, esta luta ganhará um importante reforço. O Instituto Butantan desenvolveu uma formulação de vacina que pretende proteger contra os quatro sorotipos da doença encontrados atualmente no Brasil.

A pesquisa está avançada e já se encontra na última etapa dos ensaios clínicos. Agora, o principal objetivo é demonstrar a eficácia da vacina. De acordo com informações da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância do Instituto Butantan, é esperado que apenas uma dose seja necessária para a imunização. Contudo, os estudos e acompanhamentos clínicos de voluntários prosseguem.

Última etapa

Conhecida como fase três, esta etapa do trabalho é realizada em 16 centros de pesquisa clínica, distribuídos em cinco regiões do País. No total, 17 mil voluntários entre 2 e 59 anos participarão. Todos já foram selecionados. Eles estão divididos em três grupos, de 2 a 6 anos, de 7 a 17 e de 18 até 59. Todos serão acompanhados por um período de cinco anos.

Finalização

Apesar do prazo de acompanhamento dos voluntários, o Instituto Butantan informa que não é necessário aguardar o final deste período para começar a disponibilizar a vacina à população. A medida poderá acontecer no momento que se comprovar a eficácia e, assim, houver sequência a dados clínicos, registro na Anvisa e todos os demais trâmites necessários.

Contudo, ainda é impossível no momento determinar uma data. A eficácia só poderá ser comprovada com a exposição dos voluntários vacinados aos quatro sorotipos, o que depende da circulação do vírus. Com o aumento da incidência da dengue, especialmente nos locais onde o estudo é realizado, o processo pode ser acelerado.

Resultados positivos

Até o momento, todos os voluntários monitorados não apresentaram reações adversas significativas. Isso demonstra que a vacina tem se mostrado segura, com eficácia de mais de 80%. O monitoramento é constante e segue padrões rigorosos. O Instituto Butantan avalia, por exemplo, se o voluntário que entrou em contato com o vírus recebeu realmente a vacina ou um placebo. O estudo identifica também qual o sorotipo presente e possíveis sintomas.

Investimentos chegam a R$ 224 mi

A fase final dos estudos para o desenvolvimento da vacina contra os quatro sorotipos da dengue encontrados atualmente no Brasil começou em 2016. Entretanto, os trabalhos tiveram início há aproximadamente 10 anos, quando cepas do vírus adquiridas dos institutos de saúde americanos {N IH) foram entregues aos pesquisadores do Butantan.

Considerado um dos principais centros científicos do mundo, o instituto localizado na zona oeste de São Paulo é uma instituição pública, ligada à Secretaria de Estado da Saúde.

O projeto para o desenvolvimento da vacina contra a dengue teve investimento total de R$224 milhões, provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Fundação Butantan e do Ministério da Saúde. Fazem parte do desenvolvimento da vacina a Divisão de Ensaios Clínicos, Farmacovigilância, Produção e Controle e Garantia de Qualidade.

Acordo

Em dezembro de 2018, o instituto firmou com a farmacêutica norte-americana MSD um acordo de colaboração tecnológica e em pesquisa clínica para o desenvolvimento de vacina contra a dengue. A parceria permite que as instituições compartilhem informações sobre suas pesquisas clínicas.

A troca de conhecimentos entre as duas partes pretende ainda agilizar e aperfeiçoar o processo de avaliação de eficácia e segurança de ambas as formulações imunobiológicas.

Com o acordo, o Butantan receberá até US$ 101 milhões, além de royalties sobre as vendas da vacina desenvolvida pela empresa americana. Os valores serão investidos em pesquisa e na produção de vacinas.