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Ações do Ibope alimentam a desigualdade, conclui estudo

Publicado em 25 outubro 2015

Por Silvio Anunciação

A geógrafa Gabriela de Costa Gomes Silva estudou por dois anos a atuação do grupo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) na produção e difusão de informações e seus impactos sobre o território brasileiro. O estudo sobre a empresa, considerada a maior no ramo da pesquisa de mercado e inteligência organizacional da América Latina, evidencia que a sua atuação no território nacional reafirma as desigualdades regionais do país. O trabalho também contribui para revelar a dinâmica atual da urbanização brasileira.

De acordo com Gabriela Gomes Silva, o Ibope estabelece uma rede de fluxos informacionais por grande parte do território brasileiro, tendo na metrópole paulista o seu centro de comando. É por meio desse centro que emanam as informações, determinando, deste modo, “as regiões que informam e as regiões que serão informadas neste processo.” Trata-se, segundo a pesquisadora da Unicamp, de uma informação-  mercadoria, que passa a ser vendida dada a sua importância para as grandes corporações no mundo contemporâneo.

“Trata-se também de uma informação-segredo, sigilosa. Quem está de posse dessa informação estratégica, sai na frente daqueles que não estão. E é justamente por meio desse centro de comando, que é São Paulo, que o Ibope distribui essas informações por redes de escritórios-filiais, instalados, não por acaso, nas grandes metrópoles do país”, explica.

Deste modo, acrescenta a geógrafa, o Ibope estrutura uma rede de informações refinadas sobre o espaço, a sociedade e o mercado, que são emitidas em ordem verticalizada, servindo aos agentes hegemônicos. “Trabalha, assim, na construção de um território voltado às exigências do capital, perpetuando e aprofundando as disparidades urbano-regionais”, constata Gabriela Gomes Silva.

Ela defendeu, recentemente, dissertação de mestrado junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. Orientado pela professora Adriana Maria Bernardes da Silva, do Departamento de Geografia do IG, o estudo insere-se no âmbito do grupo de pesquisa “Círculos de Informações, Urbanização e Território”. O trabalho foi financiado, na forma de bolsa à pesquisadora, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Gabriela Gomes Silva informa que o Ibope possui 17 escritórios-filiais distribuídos em regiões estratégicas do país, além de atuação nos Estados Unidos e em mais 13 países da América Latina, como México, Guatemala, Costa Rica, Panamá, Porto Rico, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai.

“A empresa, criada em 1942 pelo radialista Auricélio Penteado, é sinônimo de audiência e prestígio. Sua importância no cenário nacional é tanta que consta no dicionário como verbete. A partir da sua criação, o Ibope teve uma ascensão muito rápida, o que retrata o aumento dessa demanda pela informação-mercadoria no país. Em 2013, o Grupo figurou no ranking norte-americano Honomichl Top 25 Global Research Organizations, como a única empresa latino-americana entre as 25 maiores organizações globais de pesquisa.”

A autora do estudo acrescenta que o grupo está estruturado em Ibope Media, Ibope Inteligência, Ibope Ambiental e Ibope E-Commerce, estas duas últimas unidades criadas a partir de 2012. A empresa possui parcerias estratégicas com os dois maiores grupos de pesquisa de mercado do mundo, a norte-americana Nielsen Company e a britânica Kantar.

Ainda sobre a companhia, Gabriela Gomes Silva revela que o Ibope é a décima multinacional brasileira mais transnacionalizada e a terceira a ter um faturamento total de até R$ 1 bilhão, possuindo cerca de 3.500 colaboradores diretos e indiretos, sendo 1.800 empregados no Brasil e os outros 1.500 na América Latina.

“É uma empresa que possui características típicas das firmas do chamado setor quaternário, mobilizando uma grande quantidade de conhecimento e estabelecendo uma rede complexa de produção e distribuição da informação, imprescindível ao grande capital”, relaciona.

Neste sentido, ressalta a estudiosa, fica explícito o caráter dinâmico e complexo do grupo. A empresa busca diversificar ao máximo o tipo de informação e conhecimento produzidos de forma a abarcar o exigente mercado capitalista contemporâneo, construindo as estratégias de aperfeiçoamento de uma moderna e complexa sociedade do consumo. O Ibope produz desde informações e estudos de mídia, opinião pública, intenção de voto, marca, comportamento, mercado, até estudos ambientais e de sustentabilidade.

Trabalho Em Rede

A autora do estudo aponta que o Ibope se aproveita da rede de infraestrutura existente no país para alocar os seus recursos e estabelecer seus escritórios-filiais. “A sede em São Paulo mostra que a cidade tem um papel importantíssimo na rede urbana brasileira. São Paulo, como diz Milton Santos, é uma metrópole onipresente. Assim, toda a rede telemática, toda a infraestrutura técnica, científica e informacional da cidade é aproveitada pela empresa. São Paulo possui os maiores centros de pesquisa do país, tem vasta oferta de mão de obra especializada. Portanto, pela lógica capitalista, a sede da empresa não poderia estar em outro local”, conclui.

Ainda conforme a geógrafa, os escritórios regionais estão situados em grandes metrópoles e centros urbanos, regiões por meio dos quais essas informações estratégicas se espalham. Gabriela Gomes Silva fez, na pesquisa, uma comparação entre a distribuição dos escritórios do Ibope Inteligência com um estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) intitulado Gestão do Território, 2014.

No levantamento sobre a gestão do território brasileiro realizado pelo órgão governamental, há a indicação de uma centralidade dos serviços avançados de apoio às empresas. O trabalho de 2014 do IBGE mostra, por exemplo, que os municípios de São Paulo e Rio de Janeiro concentram uma variação de 96% a 97,78% da oferta desses serviços. Curitiba e Recife vêm atrás, com uma concentração que varia de 82% a 96%.

“Há, portanto, conforme o IBGE, uma concentração incontestável das atividades de serviços avançados de apoio às empresas no Sudeste, e isso torna claro o porquê do Ibope Inteligência concentrar seus escritórios nesse eixo, já que ao redor deles estão disponíveis todos os serviços necessários a uma empresa típica do quaternário”, compara a geógrafa.

Segundo Gabriela Gomes Silva, desde a oferta de profissionais qualificados até a rede de infraestrutura técnica e centros de pesquisa e inteligência, essas grandes cidades têm uma vantagem clara em relação a outras para oferecer o suporte necessário a grandes corporações. Mantém-se, assim, a rapidez no seu tráfego de informações, garantindo a celeridade necessária às atividades de produção e difusão da informação corporativa.

“Essa estrutura organizacional, ao edificar densos fluxos informacionais à gestão do capital no território, perpetua, portanto, a divisão regional do trabalho e as feições da rede urbana contemporânea. Isso se torna um entrave para projetos urbanos alternativos que buscam amenizar os abismos sócio- espaciais que imperam no Brasil”, afirma.

Publicações

GOMES, G. C.A Pesquisa de Mercado e a Urbanização Corporativa: O Grupo IBOPE, a Informação Estratégica e os Usos do Território Brasileiro. In: XI ENCONTRO NACIONAL DA ANPEGE, 2015, Presidente Prudente/SP, Anais... Presidente Prudente, 2015 p.4739 – 4750.

GOMES, G.C. O Grupo IBOPE, a Pesquisa de Mercado e a Reorganização do Território Brasileiro. In: VII CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS, 2014, Vitória/ ES, Anais... Vitória, 2014.

GOMES, G. C. A Produção e a difusão de informações estratégicas e a centralidade de São Paulo: Um estudo do Grupo IBOPE. In: VI CONGRESSO IBERO-AMERICANO DE ESTUDOS TERRITORIAIS E AMBIENTAIS (CIETA), 2014, São Paulo/SP, Anais... São Paulo, 2014 p. 788-803.

GOMES, G. C. A Produção e a Difusão de Informações Estratégicas: O grupo IBOPE e a Reorganização do Espaço Urbano Brasileiro. In: I SIMPÓSIO MINEIRO DE GEOGRAFIA, 2014, Alfenas/ MG, Anais... Alfenas, 2014 p. 952- 966.

Dissertação: A produção e a difusão de informações: um estudo sobre o grupo Ibope e os usos do território brasileiro

Autora: Gabriela de Costa Gomes Silva

Orientadora: Adriana Maria Bernardes da Silva

Unidade: Instituto de Geociências (IG)

Financiamento: Fapesp

Jornal da Unicamp